Linhas de Investigação

1 – Economia, Desenvolvimento e Cooperação Internacional

Esta linha de investigação tem como orientação principal o estudo das dinâmicas de desenvolvimento desde o segundo pós-guerra, nomeadamente, os percursos de transformação das sociedades pós-coloniais. Ela integra diferentes domínios de investigação, numa perspectiva ampla da economia, do desenvolvimento e da cooperação internacional. Procura cruzar diferentes paradigmas e perspectivas teóricas e recorrer a diferentes instrumentos analíticos, com o escopo de construir abordagens capazes de melhorar o nosso conhecimento dos processos de desenvolvimento das diferentes sociedades.

Esta linha de investigação envolve quatro áreas temáticas principais:

1.1 Economia e política do desenvolvimento
O conceito de desenvolvimento, entendido tanto no sentido imanente de mudança estrutural, como no sentido programático e normativo característico das políticas públicas e das agendas de cooperação, assume um papel central para a investigação desenvolvida no âmbito desta área, que procura convocar o legado das diversas tradições teóricas associadas à economia do desenvolvimento e aos estudos do desenvolvimento. Também relevantes para a análise do desenvolvimento como um processo eminentemente nacional são as relações que, nas diferentes sociedades, se estabelecem entre Estado, instituições, mercados, indivíduos e organizações.

1.2 Dimensões socioculturais do desenvolvimento
Esta área procura focar o fenómeno do desenvolvimento na sua multidimensionalidade, procurando agregar campos de saberes e de produção de conhecimentos diversos, como a economia, a sociologia, a antropologia, a história, a demografia, ou a ciência política. A área privilegia abordagens plurais e diversificadas, recorrendo a metodologias quantitativas e qualitativas e com enfoques, tanto micro, quanto macrossociais.

1.3 Globalização e cooperação para o desenvolvimento
Esta é uma área orientada para as questões relacionadas com a globalização, as relações internacionais e a cooperação internacional, que consubstanciam a dimensão internacional e global do desenvolvimento. Uma perspectiva de trabalho relaciona-se com a investigação em torno de questões como os fluxos internacionais de mercadorias, pessoas e capitais, com as cadeias de produção globais, as organizações e os sistemas de cooperação regionais e globais, bem como as dinâmicas de cooperação, competição, hegemonia e conflito que caracterizam o sistema global.

1.4 Dinâmicas de desenvolvimento
Esta área inclui estudos específicos e análises comparadas de processos de desenvolvimento económico e social. Os países de língua portuguesa são um campo privilegiado de análise, incluindo Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Um campo importante de estudo é o da Ásia-Pacífico, com destaque para a China, as suas estratégias contemporâneas e a sua relação com Portugal e com os países de língua portuguesa. A África, no seu conjunto, e a América Latina são, também, campos de estudo com tradição no CEsA, que esta área continua a dar uma atenção particular.

Investigadores:
Alano Sicato, Alexandre Abreu, Almeida Serra, Ana Luísa Silva, António Mendonça, Arlindo Fortes, Bruno Rocha, Carlos Lopes, Carlos Nuno Castel-Branco, Carlos Sangreman, Christian Wolf, Daniel Carolo, Eduardo Sarmento, Elsa Fontainha, Fernanda Ilhéu, Joana Matusse, João Estêvão, João Silva, Lawrence Sciberras, Luis Mah, Maria Galito, Paulo Duarte, Marcelo Moreira, Mariam Abbas, Miguel Fonseca, Nuno Leitão, Odair Varela, Sara Paralta, Sónia Frias e Susana Brissos.

 

2 – História, culturas e identidades

Os estudos africanos, entendidos enquanto interrogação presente sobre as dimensões históricas, culturais e identitárias, constituem domínio privilegiado desta linha de investigação do CEsA. A construção epistemológica deste objeto atende aos diferentes quadros disciplinares, paradigmas e instrumentos de análise próprios às ciências humanas e sociais atentas às heranças, saberes e práticas africanas. Valorizam-se pesquisas que transcendam as fronteiras do saber estabelecido em torno dos grandes sistemas e sustentadas em categorias universais de análise. Assim, contrariamente às perceções eurocêntricas dos fenómenos sociais e culturais, privilegia-se o valor heurístico das visões que atendam às dimensões inéditas, menos conhecidas, mais vividas, do que constitui hoje a africanidade num mudo crescentemente globalizado e interconectado. Se o estudo dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOPS), na multiplicidade e heterogeneidade da sua construção socio-histórica e cultural, constitui terreno privilegiado de observação, outras regiões do mundo, incluindo as outras Áfricas, onde os africanos “lusófonos” se instalaram ao longo da história, são também objeto de investigação, pois as relações estabelecidas deixaram marcas significativas de natureza social, económica, cultural, religiosa e identitária nas muitas sociedades de acolhimento, americanas, europeias, asiáticas.

Esta linha de investigação envolve três eixos temáticos:

2.1 História social e económica de África
As tendências no sentido da globalização política e económica que caracterizam o século XIX pré-colonial em África, movidas pelo capitalismo industrial e a ordem internacional abolicionista, constituem ponto de partida para a reflexão sobre a dinâmica de fechamento que caracteriza, no quadro do expansionismo europeu, a experiências de colonização do século XX.

Neste quadro, privilegiam-se as análises comparadas, cruzando os territórios sob administração portuguesa com as outras situações de dominação europeia.

Atenção particular é dada às comunidades asiáticas presentes na África oriental, centro Oriental e Austral desde finais do século XIX , no contexto das administrações britânica portuguesa e belga[1]. Aqui, como para outros casos de mobilidades populacionais no seio do continente, em causa está, para além da pertinência de se alargar o conhecimento acerca da multiplicidade da paisagem social e identitária africana, a intenção de contribuir para a escrita de uma história inédita, estabelecida para além do binómio redutor colonizador – colonizado. Esta preocupação de valorizar as interações entre os diferentes povos, culturas e grupos sociais em presença, surge como contraponto indispensável às visões da macro história que, maioritariamente, constituem o legado da historiografia recente do tempo colonial e, igualmente, as historiografias africanas que se seguiram às independências.

[1] Desenvolvimentos do projeto FCT PTDC/AFR/69150/2006 (2007-2011) “A construção das identidades lusófonas: o caso dos ismailis de Moçambique (1950-1974) / “The construction of lusophone identites: the case of the ismailis from Mozambique (1950-1974)”.

Numa perspetiva de longa duração situa-se também a reflexão em torno das relações históricas da África com o Mundo, que se concretizaram através da circulação de homens, de ideias, de objetos, de mercadorias, traduzindo-se, nas muitas Áfricas, pela adoção de plantas, técnicas, religiões, formas de comerciar, de estar e de pensar, modelos de habitação, organizações urbanas e outras muitas contribuições vindas do exterior, que os Africanos souberam integrar no quadro das suas estratégias de vida. Numa outra dimensão histórica, estas relações deram origem ao cruzamento de conhecimentos em vários espaços da vida social africana, mas também geraram inovações culturais e sociais nos lugares do mundo – na Europa, em particular Portugal, e nas Américas, mais especificamente no Brasil –, onde as populações africanas se foram enraizando, de formas violentas diversas, através do sistema esclavagista e das migrações forçadas ou livres, ao longo dos séculos XV a XX.

Atende-se igualmente, também num enfoque comparatista e particularmente atento aos PALOP, às trajetórias políticas, sociais e económicas dos países independentes. Neste percurso analítico a realidade pós-colonial é sistematicamente confrontada com a perceção do tempo histórico que estrutura, inelutavelmente, o destino das sociedades. Neste sentido, recorrendo às múltiplas contribuições da historiografia e da análise social recente, partilhamos do interesse em privilegiar, sobretudo no que respeita a África dos séculos XIX-XXI “as evoluções significativas, as mutações maiores bem como as continuidades inesperadas” (M’BOKOLO, E. (1992/2007))[2].

[2] M´BOKOLO, E. (2003) África Negra: História e Civilizações, até ao século XVIII, Tomo I: Lisboa, Vulgata.
M´BOKOLO, E. (2007) Africa Negra: História e Civilizações , Do século XIX aos nossos dias, Tomo II: Lisboa, Colibri.

Investigadores:
Alberto Oliveira Pinto, Armindo Espírito Santo, Isabel Castro Henriques, Joana Pereira Leite, João Estêvão, Lorenzo Macagno, Michel Cahen, Nicole Khouri e Olga Iglésias.

 

2.2 Estudos Literários, Visuais e Culturais
Este eixo temático visa problematizar conceitos teóricos como Pós-Colonialismo e Transnacionalismo, entre outros, e analisar práticas criativas que se situam nos campos da literatura, do cinema, da fotografia e dos projetos artísticos e culturais, discutindo as representações da nação nos países africanos, e a abertura a outras dimensões – locais, transnacionais, diaspóricas e globais.

As pesquisas produzidas no âmbito deste eixo estudam a constituição de diferentes Narrativas e Arquivos, estabelecendo estreitos laços entre a teoria e as diversas práticas criativas. O elemento transversal a estes estudos, a Narrativa, enquanto elemento constitutivo de imaginários nacionais e transnacionais, permite o tratamento crítico e comparativo de diferentes produções culturais, considerando tópicos como História, Memória, Género, Diásporas; Crises sociais e políticas; Ecologia e Cultura Material.

Três diferentes Projetos (NNPC, NEVIS, NILUS) foram desenvolvidos neste quadro de pesquisa reunindo investigadores de diferentes áreas (literatura, história, ciências sociais, literatura comparada, cinema) num esforço de cruzamento de saberes constitutivo de uma compreensão das práticas artísticas como elementos de cultura e da sociedade.

Tendo em conta a necessidade de ampliar a dimensão comparativa no continente africano, o eixo Estudos Literários, Visuais e Culturais inclui pesquisas que problematizam o vínculo histórico, cultural e linguístico estabelecido pela Lusofonia, apostando também em abordagens de cariz translinguístico e transnacional.

As áreas de pesquisa incidem nas diferentes regiões do Atlântico e do Índico, nomeadamente aprofundando os EOI (Estudos sobre o Oceano Índico) e os EOA (Estudos sobre o Oceano Atlântico), considerando centros e periferias, geografias continentais, zonas costeiras, insulares e urbanas.

Investigadores:
Ana Mafalda Leite, Jessica Falconi, Marta Banasiak, Giulia Spinuzza, Elena Brugioni, Kamila Krakowska, Paulo de Medeiros, Ellen Sapega, Ute Fendler e Vanessa Riambau Pinheiro.

 

2.3 Mobilidades e Identidades Africanas e Afrodiaspóricas

Esta área de investigação aborda as mobilidades africanas, bem como as identidades africanas e afrodiaspóricas, e adota as leituras das ciências sociais e humanas, em sintonia com projetos como o AFRO-PORT[3] e eventos realizados em contextos de diásporas africanas de língua portuguesa (Portugal e Brasil)[4].

[3] AFRO-PORT. Afrodescendência em Portugal: sociabilidades, representações e dinâmicas socio-culturais e políticas. Um estudo na Área Metropolitana de Lisboa (FCT/PTDC/ SOC-ANT/30651/2017).
[4] Encontro Áfricas Contemporâneas. Do continente às diásporas, pensar o universal a partir dos arquivos afro-diaspóricos, USP,2019, São Paulo, 10-19 Outubro.

Trata-se assim de prosseguir a análise dos processos, organização e às condições que presidem à realização das mobilidades africanas contemporâneas, estabelecendo as relações entre deslocações, processos identitários e narrativas de pertença aos lugares. Neste sentido, a investigação compromete-se com aprofundamento da problematização dos conceitos teóricos que inspiram os Estudos das Migrações, das Mobilidades e Diásporas, os Black Studies, bem como com a reflexão em torno das Identidades, as Categorizações Étnico-raciais ou a Mudança Social.

Atenção particular continuará a ser dada às perspetivas e narrativas sobre as mobilidades e identidades enquanto produções próprias dos africanos e suas diásporas, em sintonia com o pensamento africano e afrodiaspórico plural e livre, comprometido com o empreendimento de “descolonização mental”. Assim, o trabalho de investigação, situando-se para além das abordagens que, tradicionalmente, consagram a denominada “questão do migrante africano”, nas Américas, Ásia ou Europa, privilegia as temáticas em torno da afrodescendência, um termo que reúne as múltiplas denominações atribuídas aos descendentes de africanos, cidadãos de diversos países do mundo: afroeuropeus, afropeus, amefricanos, afroamericanos, entre outros.

Os investigadores sustentam a sua atenção às perspetivas que encaram as dinâmicas de enraizamento das diásporas africanas, sobretudo na Europa, tendo em conta os seus fundamentos e a sua dimensão histórica, como importantes indicações dos processos sociais em vigor, no que tange às reconfigurações identitárias em curso, nos diferentes países europeus, resultantes dos processos de descolonização e seus efeitos nas ex-metrópoles. Neste campo, a reflexão situa-se em torno das contribuições dos afrodescendentes e das diásporas africanas para o alargamento da participação da Europa na globalização, nos âmbitos económico, cultural e social. Para além do mais, uma atenção particular é dirigida à presença afrodiaspórica na construção de uma cidadania globalizada e “entre lugares” e à confirmação da contribuição da África-Mundo na produção do conhecimento e do pensamento universais.

Investigadores:
Iolanda Évora, Isabel Castro Henriques, Simone Amorim, Redy Lima e Odair Varela.


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