{"id":409,"date":"2020-05-09T22:29:54","date_gmt":"2020-05-09T22:29:54","guid":{"rendered":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/?p=409"},"modified":"2020-05-09T22:47:13","modified_gmt":"2020-05-09T22:47:13","slug":"esta-experiencia-global-podera-levar-a-humanidade-a-reflectir-e-a-mudar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/esta-experiencia-global-podera-levar-a-humanidade-a-reflectir-e-a-mudar\/","title":{"rendered":"Esta experi\u00eancia global poder\u00e1 levar a humanidade a reflectir e a mudar"},"content":{"rendered":"\n<p>Entrevista a Ana Mafalda Leite, na Literatas (14 Abril 2020)<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ana Mafalda Leite \u00e9 ensa\u00edsta, docente e \u201cprincipalmente\u201d poeta, com mais de 30 anos de trajet\u00f3ria criando versos: seu primeiro livro de poemas, \u201cEm sombra acesa\u201d, foi publicado em 1984. Os seus livros \u201cO Amor essa forma de desconhecimento\u201d e \u201cLivro das Encanta\u00e7\u00f5es \u2013 Antologia (1984-2005)\u201d, ambos de poesia, s\u00e3o os que provavelmente mais circulam em Mo\u00e7ambique, uma vez que foram lan\u00e7ados por uma editora local. Todos por\u00e9m tratam-na de professora, visto que \u00e9 das que mais fez (e faz) estudos sobre a literatura, em especial a poesia mo\u00e7ambicana. A sua dimens\u00e3o humana, a poetisa, \u00e9 que mais fala nesta conversa que tentamos encontrar um alento neste tempo de caos, que talvez sirva para encontrar novos ou diferentes caminhos para a nossa humanidade\u2026<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>O fim do mundo \u00e9 sempre uma realidade poss\u00edvel ou fict\u00edcia?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O fim do mundo pode chegar a qualquer dia da semana. O fim do mundo \u00e9 todos os dias, quando pensamos que uma parte da humanidade vive com fome e sem condi\u00e7\u00f5es de dignidade social, como ter direito a trabalho, a casa, a saneamento, muitos sem p\u00e1tria, em nomadismo de sobreviv\u00eancia, em camps de refugiados, etc. As vis\u00f5es apocal\u00edpticas sempre acompanharam a humanidade, se pensarmos em Nostradamus at\u00e9 uma infinidade de profetas mais locais e virtuais, astr\u00f3logos, videntes, meteoros gigantes a chocar com a terra e alien\u00edgenas em descida colonial; no entanto os tempos que vivemos, com a deteriora\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica do planeta, a amea\u00e7a subliminar da guerra nuclear, e a violenta e fracturante hierarquia social de riqueza versus mis\u00e9ria, mostram uma possibilidade real de isso acontecer, a m\u00e9dio ou curto prazo. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O que est\u00e1 a acontecer actualmente com a pandemia talvez ensine aos homens de poder e os governantes que \u00e9 necess\u00e1rio investir mais em meios de cura, ci\u00eancia, hospitais, cultura e educa\u00e7\u00e3o, do que em material sofisticado de guerra, exibido em longos desfiles de bombas, m\u00edsseis, avi\u00f5es, que os pa\u00edses filmam para temor de todos n\u00f3s, os outros, como se de um jogo de crian\u00e7as se tratasse. Afinal de contas, perante esta \u201cguerra\u201d virol\u00f3gica onde est\u00e3o as armas de defesa, o arsenal necess\u00e1rio? Onde est\u00e3o os generais? Nos hospitais s\u00e3o os m\u00e9dicos que lideram aquilo que apelidaram de \u201cguerra\u201d, muitas vezes sem as armas necess\u00e1rias, porque at\u00e9 aqui elas n\u00e3o eram fundamentais&#8230;.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que \u00e9 mais triste na vida. O fim dela?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A vida \u00e9 o momento presente, o dia-a-dia, e o fim est\u00e1 sempre presente, a todo o momento, como no caminho da bailarina sobre o fio suspenso no v\u00e1cuo, ou a dan\u00e7a da trapezista audaz tentando alcan\u00e7ar a vertigem do malabarismo, em art\u00edstica devo\u00e7\u00e3o. Nascemos com o fim \u00e0s costas, como um caracol que leva a sua casa presa ao corpo, alguns at\u00e9 morrem ao nascer&#8230;N\u00e3o sei se podemos falar de tristeza, ou de aceita\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o de ser vivo.<\/p>\n\n\n\n<p>A vida gere-se pelo princ\u00edpio da incerteza, que hoje em dia \u00e9 muitas vezes esquecido, porque alguns de n\u00f3s se habituou a ter tudo o que quer, e de forma f\u00e1cil. E para qu\u00ea preocuparmo-nos com a morte? Se a vida tem tantos problemas que temos de resolver primeiro, como diria Conf\u00facio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que fazer quando a morte bater \u00e0 porta?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sair pela porta com a dignidade poss\u00edvel, acreditando que valeu a pena, que fizemos&nbsp; dessa arte do malabarismo vivente, um of\u00edcio com eleg\u00e2ncia, o mais individual e socialmente \u00edntegro. E esperar que n\u00e3o sejamos confrontados com a not\u00edcia de uma morte anunciada. De sermos empurrados \u00e0 for\u00e7a para a porta. Porque o conhecimento antecipado pode ser um prolongamento inevit\u00e1vel da dor de partir. Ou como diria ironicamente Voltaire, aproximamo-nos do momento mais linear poss\u00edvel, em que a riqueza, a notoriedade, o conhecimento, a honraria, se anulam em p\u00f3 terrestre ou sideral: \u201cAproximo-me suavemente do momento em que os fil\u00f3sofos e os imbecis t\u00eam o mesmo destino.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Perante os acontecimentos contempor\u00e2neos, v\u00ea alguma beleza no mundo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O mundo \u00e9 de uma beleza extraordin\u00e1ria, e tamb\u00e9m de uma feiura equivalente, \u00e9 uma sintonia de contr\u00e1rios. Um aut\u00eantico milagre, uma d\u00e1diva, para utilizar uma linguagem entre religiosa e &nbsp;cient\u00edfica. O que fazer? Passo a citar: \u201cTrabalha como se vivesses para sempre. Ama como se fosses morrer hoje\u201d (S\u00e9neca).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Se sim, quais s\u00e3o essas belezas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para as descrever teria de escrever de novo as narrativas das&nbsp;<em>Mil e Uma Noites<\/em>. Ou viver uma nova profiss\u00e3o que ambiciono, ser astr\u00f3noma, e escrever sobre a infinitude do universo e a poeira que s\u00e3o as gal\u00e1xias nesta aventura da mat\u00e9ria sideral.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas talvez, a maior beleza, seja a do amor, que nos d\u00e1 e ilumina a vida. A fugacidade e mutabilidade de tudo, o sopro da luz e do vento, o poder olhar e ver as cores maravilhosas de tudo o que nos rodeia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quando n\u00e3o resta mais nada al\u00e9m de ficar em casa, o que fazer da vida<\/strong>?<\/p>\n\n\n\n<p>Eu gosto imenso de estar em casa, de poder ler, meditar, n\u00e3o pensar em nada, ter tempo livre de contempla\u00e7\u00e3o, usufruir de um \u00f3cio contr\u00e1rio \u00e0 l\u00f3gica tenaz das obriga\u00e7\u00f5es, faz isto, acaba aquilo, corre para o prazo, n\u00e3o durmas h\u00e1 hor\u00e1rio a cumprir, etc. Ou seja adoro gerir o meu tempo no interior de mim e da casa. A vida dentro de uma casa pode ser uma vida dentro do nosso cosmos, quando nele temos o que precisamos, livros, m\u00fasica, canetas, paisagens, tranquilidade, paragem das urg\u00eancias e da celeridade do tempo actual.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>E quando, finalmente, tiver de sair, para onde ir\u00e1?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para o mar, para caminhar sentindo a \u00e1gua molhando os meus p\u00e9s e sentir as nuvens a correr em todo o seu esplendor, as ondas a rolarem com o som maravilhoso de casuarinas e pinheiros, ou ent\u00e3o ir para os campos, para sentir na caminhada a terra e os cheiros das flores, a vivacidade das cores, ou ainda se poss\u00edvel para uma viagem a uma ilha paradis\u00edaca, se voltarmos a viajar como antes. Sou bastante buc\u00f3lica e gosto de lugares pequenos, que me aproximam mais rapidamente da no\u00e7\u00e3o de infinitude e de liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>O poeta \u00e9 um fingidor.\/ Finge t\u00e3o completamente \/ Que chega a fingir que \u00e9 dor \/ A dor que deveras sente.&nbsp;<\/em><\/strong><strong>Fernando Pessoa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Se n\u00e3o tivesse que fingir, sobre quais verdades escreveria?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Eu acho que nunca fingi, escrevo sempre sobre as minhas verdades, que s\u00e3o, naturalmente distor\u00e7\u00f5es subjectivas e dramatiz\u00e1veis do que vi ou senti ou pensei. O fingimento \u00e9 essa pequena varia\u00e7\u00e3o com que eu escrevo\/penso\/sinto a minha vers\u00e3o da verdade. Por isso sentimos tudo e t\u00e3o completa e intensamente e de todas as maneiras&#8230;.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Supondo que um mundo novo exista, como ele seria?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A haver uma aprendizagem com esta experi\u00eancia de confinamento, poderemos utopicamente? pensar num mundo mais humanizado, numa esp\u00e9cie de nova ordem mundial; ou ent\u00e3o, caso a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o leve a transforma\u00e7\u00f5es sociais profundas, v\u00e3o regressar ou agudizar-se os nacionalismos, as fronteiras&#8230;. as desigualdades e as diferen\u00e7as entre os homens e pa\u00edses v\u00e3o tornar-se ainda mais violentas e ferozes e o direito a viver e a morrer dignamente vai ser cada vez mais dif\u00edcil.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Paz, Guerra, Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas, Aquecimento Global, Bomba Nuclear, V\u00edrus, Corrup\u00e7\u00e3o, Viol\u00eancia s\u00e3o algumas das palavras que se repetem todos os dias\u2026 ser\u00e1 a&nbsp;<em>vida uma causa perdida<\/em>?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sei. Espero que n\u00e3o, o homem sempre teve possibilidade de se superar e espero que isso aconte\u00e7a. Esta experi\u00eancia global do confinamento e da \u201cdemocratiza\u00e7\u00e3o da morte\u201d &#8211; perdoem-me a express\u00e3o, que roubei parcelarmente ao fil\u00f3sofo camaron\u00eas Achille Mbembe &#8211; &nbsp;poder\u00e1 ser uma forma de levar a humanidade a reflectir e a mudar. N\u00e3o h\u00e1 economia, nem poder, que sobreviva a esta for\u00e7a devastadora, a esta praga que atinge todos, sem olhar a classe, origem, ra\u00e7a, religi\u00e3o. Ao afastar-nos, estar\u00e1 possivelmente a fazer-nos intuir na import\u00e2ncia da ideia de colectivo, de solidariedade e da imperativa necessidade de nos unirmos. Provavelmente estar\u00e1 a lembrar-nos, ao impedir-nos usufruir da natureza, da necessidade de cuidarmos mais e muito melhor dela, em vez de a destruir. Ao contaminar o nosso corpo a fazer-nos ver que ele \u00e9 uma amea\u00e7a para os outros se n\u00e3o o cuidarmos, e apesar de n\u00e3o ser uma arma, o corpo metaforicamente se transformar uma esp\u00e9cie de granada ambulante.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Que livros ler neste tempo de crise? Que m\u00fasicas ouvir? Que filmes ver?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Filme: lembrei-me dos anjos, personagens que sempre me acompanharam no meu percurso de escrita e de leitura, e evoco um filme de Wim Wenders,&nbsp;<em>Der Himmel uber Berlin<\/em>&nbsp;de 1987 (<em>As Asas do Desejo,<\/em>&nbsp;encontra-se na internet traduzido<em>),&nbsp;<\/em>que muito me impressionou e do qual guardo imagens muito fortes. &nbsp;Quando&nbsp;<em>Asas do Desejo<\/em>&nbsp;\u00e9 realizado ainda estamos sob a separa\u00e7\u00e3o da cidade de Berlim, da Alemanha, do mundo, em dois blocos que configuram a Guerra Fria. Ningu\u00e9m poderia prever que pouco mais de dois anos depois da premi\u00e8re do filme a hist\u00f3ria daria uma dessas reviravoltas que nos deixam at\u00f4nitos, e o Muro cairia. Com ele, toda uma maneira de ver o mundo. Foi como viajante, e n\u00e3o como turista, que Wenders escolheu Berlim, para realizar um filme que \u00e9 sobre ela, mas, mais que isso, sobre um tempo, uma hist\u00f3ria e uma utopia. O tema dos anjos foi encontrado, conta W.W., ao caminhar pela cidade, depois de ter considerado a possibilidade de muitas outras abordagens. Ele diz ter visto anjos por toda parte, em monumentos, fontes, est\u00e1tuas &#8230;.<\/p>\n\n\n\n<p>M\u00fasica: &nbsp;Alegria e vida intensamente orquestrada com Mozart, em&nbsp;<em>A Flauta M\u00e1gica<\/em>, tamb\u00e9m se encontra no&nbsp;<em>youtube<\/em>&nbsp;com tradu\u00e7\u00e3o do texto da \u00f3pera.<\/p>\n\n\n\n<p>Livro:&nbsp;<em>O Profeta<\/em>&nbsp;do poeta liban\u00eas Khalil Gibran (tamb\u00e9m poss\u00edvel de ler pela internet).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>E antes de morrermos todos. Valeu a pena ter vivido? Porqu\u00ea?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Se valeu, viver \u00e9 uma experi\u00eancia \u00fanica e maravilhosa, experimentar o amor e o encantamento, a luta, o inebriamento pelas emo\u00e7\u00f5es, a viagem e a contempla\u00e7\u00e3o, o dom de poder imaginar, voar, transformar os bra\u00e7os em asas, conhecer, desconhecer, aprender, enfim, viver \u00e9 de menos, saber\u00e1 sempre a pouco, gostaria de ser como Matusal\u00e9m e viver centenas de anos&#8230;.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mas e se n\u00e3o morr\u00eassemos valeria ainda assim a pena a vida?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o me importava de aceder \u00e0 imortalidade&#8230;. e transmitir o que aprendi. E aprender tudo aquilo que em muitas vidas seria necess\u00e1rio reiniciar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A arte ainda pode salvar o mundo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Pode transformar o esp\u00edrito dos homens e dar-lhes for\u00e7a an\u00edmica, emocional e espiritual para tornar mais intensa e transformadora a experi\u00eancia da vida.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma frase para as civiliza\u00e7\u00f5es que chegar\u00e3o depois de n\u00f3s para que saibam quem fomos e o que fizemos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A aprendizagem leva \u00e0 mudan\u00e7a. Cultive-se a paz e o conhecimento. O amor e a cultura s\u00e3o as maiores armas do homem.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/literatasmz.org\/post-detail\/5353#disqus_thread\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Fonte<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista a Ana Mafalda Leite, na Literatas (14 Abril 2020) Ana Mafalda Leite \u00e9 ensa\u00edsta, docente e \u201cprincipalmente\u201d poeta, com mais de 30 anos de trajet\u00f3ria criando versos: seu primeiro livro de poemas, \u201cEm sombra acesa\u201d, foi publicado em 1984. 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