{"id":873,"date":"2020-05-31T12:32:18","date_gmt":"2020-05-31T12:32:18","guid":{"rendered":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/?page_id=873"},"modified":"2020-07-14T20:35:47","modified_gmt":"2020-07-14T20:35:47","slug":"um-universo-feminino-e-lirico","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/um-universo-feminino-e-lirico\/","title":{"rendered":"Um Universo Feminino e L\u00edrico"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Maria Augusta Silva, Entrevista in <em>Di\u00e1rio de Not\u00edcias<\/em> (2000)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p><strong>Chama para o seu novo livro <em>Rosas da China<\/em> nomes como os de Rilke e Florbela Espanca. Interioridade e sensualidade?<br><\/strong>Rilke, poeta da minha paix\u00e3o. Fala do universo feminino e da sensualidade. Em Florbela existe, tamb\u00e9m, a sensualidade e a procura.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sensualidade que leva Ana Mafalda Leite at\u00e9 Safo, poeta de antes de Cristo, transgressora que cantava o corpo?<br><\/strong>O esp\u00edrito vive com mais alegria quando o corpo \u00e9 feliz.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tem uma po\u00e9tica cheia de flores e luas, sem perda de est\u00e9tica. Retorno ao romantismo?<\/strong><br>Um percurso pr\u00f3prio. Um fasc\u00ednio pela natureza e pela est\u00e9tica que os sentidos proporcionam. Encanta-me a flora\u00e7\u00e3o que existe em Florbela e encontrei, tamb\u00e9m, na poesia do Oriente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O t\u00edtulo deste livro pretende homenagear a po\u00e9tica oriental?<br><\/strong>Passa por ele o imagin\u00e1rio de um Oriente que me chega sobretudo por meio da literatura, do cinema e, de certo modo, da viv\u00eancia mo\u00e7ambicana. <em>Rosas da China<\/em> surge mais por aquilo que a palavra evoca. A minha ideia sobre as rosas da China \u00e9 a de rosas enormes, com muitas folhas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Rosas sem espinhos..<\/strong>.<br>Bom seria que todas as rosas n\u00e3o tivessem espinhos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Porque d\u00e1<\/strong> <strong>a poemas deste livro t\u00edtulos que foram de Florbela: <em>Livro de M\u00e1goas<\/em>, <em>Livro de Soror Saudade<\/em>, <em>Charneca em Flor<\/em>?<br><\/strong>Uma forma de reler Florbela atrav\u00e9s do nosso tempo e de outros autores. Presto-lhe uma homenagem. Este meu livro procura, de alguma maneira, seguir um imagin\u00e1rio feminino e l\u00edrico. E considero Florbela Espanca a primeira grande voz feminina da l\u00edrica do nosso s\u00e9culo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Florbela mal entendida e pouco lida nas \u00faltimas d\u00e9cadas?<br><\/strong>Muito lida. Talvez um pouco esquecida nos circuitos acad\u00e9micos. N\u00e3o se pode ignorar essa figura-trave da nossa literatura.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O seu verso \u00e9 l\u00fadico, o de Florbela respira morte. Que empatia?<br><\/strong>Ser\u00e1 a minha forma de trazer Florbela para o universo da inf\u00e2ncia e do riso, onde o lado tr\u00e1gico se esbate.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mulher tamb\u00e9m de paix\u00f5es?<br><\/strong>Sou uma pessoa apaixonada, mas procuro n\u00e3o ser tr\u00e1gica. O amor \u00e9 uma aprendizagem, assim como a paix\u00e3o, e devem viver-se com o m\u00e1ximo de prazer e plenitude.Todo o tempo deve ser tempo de amor &#8211; a grande energia da vida. E a poesia \u00e9 esse espa\u00e7o l\u00fadico. Creio que a primeira fun\u00e7\u00e3o da literatura ser\u00e1 a de exorcizar esse lado da vida.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Busca a inoc\u00eancia? Ainda joga \u00e0 cabra-cega e ao berlinde?<br><\/strong>Ainda n\u00e3o deixei de jogar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como joga, hoje, esses jogos?<br><\/strong>Procurando o humor, a magia, a transfigura\u00e7\u00e3o, o l\u00fadico na minha poesia. Tento tamb\u00e9m jog\u00e1-los na vida, mas nem sempre \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Diz que &#8220;h\u00e1 para todas as mortes um tempo devido&#8221;. Qual \u00e9 o tempo para a morte?<br><\/strong>Quando a magia acaba.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Porque traz igualmente a estes poemas o <em>Livro do Desassossego<\/em>?<\/strong><br>Sinto a vida como um desassossego. O desassossego \u00e9 fundamental \u00e0 criatividade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Escreve em tempo de emo\u00e7\u00f5es?<br><\/strong>Prefiro escrever em per\u00edodo de calma<strong>,<\/strong> quando estou satisfeita.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os momentos menos felizes s\u00e3o exclu\u00eddos da sua escrita?<br><\/strong>Est\u00e3o presentes, mas filtrados.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A poesia n\u00e3o sai de rompante?<br><\/strong>Surge quase independentemente de mim. Depois, vou-a trabalhando, depurando.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>N\u00e3o emana do Eu?<br><\/strong>\u00c9 uma voz que est\u00e1 simultaneamente dentro e fora de mim. Quase me ultrapassa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Que chuva cai dentro de si?<\/strong> <strong><em>(A chuva corre-me toda por dentro&#8230;)<\/em><br><\/strong>Pode ser uma chuva de estrelas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Poema <em>Vozes de Alice<\/em><\/strong>:<strong> a voz mais \u00edntima de Ana Mafalda Leite?<br><\/strong>Alice representa o mundo onde tudo \u00e9 poss\u00edvel, onde a perfei\u00e7\u00e3o reside na possibilidade da transforma\u00e7\u00e3o cont\u00ednua. Dir-se-ia o lado m\u00e1gico, vision\u00e1rio, o dos sonhos. Alice, a inf\u00e2ncia e o adulto.Um di\u00e1logo, ainda, com Florbela, provavelmente comigo, provavelmente com todo o ser humano.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Que incenso atravessa todos os seus jardins?<br><\/strong>O do sonho com que tento respirar ao olhar as coisas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ainda sonha com fadas?<br><\/strong>Passa por a\u00ed o universo da inf\u00e2ncia. Um universo onde os equil\u00edbrios s\u00e3o mais perfeitos e onde a magia existe. As figuras femininas que percorrem os contos de fadas t\u00eam o seu encanto.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mesmo as bruxas..<\/strong>.<br>At\u00e9 as bruxas!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como se lembra o futuro?<br><\/strong>Lembrando o desejo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um desejo?<br><\/strong>Continuar a escrever muitos livros e viver muitos anos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Aos 42 anos<\/strong> <strong>ainda \u00e9 cedo para temer a velhice?<br><\/strong>N\u00e3o penso nela. A velhice, mesmo daqui a mais 20 anos, n\u00e3o ser\u00e1 apenas um estado f\u00edsico, h\u00e1 a juventude interior.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As pessoas idosas marginalizadas conseguir\u00e3o essa juventude?<br><\/strong>Ser\u00e1 muito dif\u00edcil.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Algum dia sonhou ser borboleta?<br><\/strong>Gostava de voar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>At\u00e9 onde?<br><\/strong>At\u00e9 \u00e0 Lua.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Continua a olhar para a Lua e a brincar com ela?<br><\/strong>Tenho pena de n\u00e3o a poder agarrar.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p><strong>PERCURSOS DE UMA SENSIBILIDADE AFRO-EUROPEIA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tem-se dedicado \u00e0s literaturas africanas, inclusive como professora universit\u00e1ria. Jos\u00e9 Craveirinha, Pr\u00e9mio Cam\u00f5es, \u00e9 o seu poeta africano eleito?<br><\/strong>Dediquei-lhe a minha primeira tese e grande parte da minha carreira acad\u00e9mica centra-se no estudo das literaturas africanas. Tem sido, ao mesmo tempo, uma reflex\u00e3o sobre a poesia, sobre a literatura, sobre a cultura de uma terra que tamb\u00e9m \u00e9 a minha, Mo\u00e7ambique. At\u00e9 para entender melhor um percurso que fiz at\u00e9 aos 20 anos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mo\u00e7ambique continua a viver dentro de si?<br><\/strong>Sempre. Nasci numa terra (Aveiro) e houve outra terra que me nasceu (cresci em Tete, a norte de Mo\u00e7ambique). Reivindico estes dois mundos. H\u00e1 uma sensibilidade forjada nesta mistura afro-europeia, em que me sinto inteira. Ecom outros pa\u00edses africanos tenho igualmente uma rela\u00e7\u00e3o afectiva, at\u00e9 pelo facto de trabalhar no dom\u00ednio de estudos africanos (na Faculdade de Letras, em Lisboa). Em dados momentos, sou tomada, sem d\u00favida, por algum cepticismo quanto \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o de certos caminhos naqueles pa\u00edses. Mas acho que \u00c1frica \u00e9 realmente um continente muito poderoso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Talvez por isso as guerras n\u00e3o acabem&#8230;<br><\/strong>(&#8230;)<\/p>\n\n\n\n<p><strong>J\u00e1 voltou a Mo\u00e7ambique?<br><\/strong>Algumas vezes, conciliando f\u00e9rias, congressos, confer\u00eancias e aulas. Desejava viver meio ano em Portugal e outro meio em Mo\u00e7ambique.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A literatura est\u00e1 a ser incentivada na cultura de uma \u00c1frica que desde sempre contou com uma forte criatividade liter\u00e1ria? Ou vive-se num impasse?<br><\/strong>N\u00e3o me parece que se esteja num impasse. Houve uma gera\u00e7\u00e3o de escritores que surgiu em finais dos anos 80 e tem hoje nomes feitos, com diversas publica\u00e7\u00f5es, como Mia Couto, Eduardo White. Um conjunto de poetas e prosadores n\u00e3o muito significativo em termos num\u00e9ricos, no entanto, marcante na qualidade. As conhecidas circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas, especialmente em Angola e Mo\u00e7ambique, agravaram as dificuldades na produ\u00e7\u00e3o intelectual e art\u00edstica. Mas damo-nos conta de que aparecem novas obras todos os anos em Angola e chegam de Mo\u00e7ambique muitos originais \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o de Escritores Mo\u00e7ambicanos. Acredito que, nos pr\u00f3ximos anos, aparecer\u00e1 mais gente nova a escrever.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>No seu <em>Rosas da China<\/em><\/strong>,<strong> h\u00e1 uma tend\u00eancia para o verso alongado, mas<\/strong>,<strong> surpreendentemente, o leitor n\u00e3o se cansa, tal o ritmo das palavras. Inclina\u00e7\u00e3o para as cantigas de amor? Influ\u00eancia da oralidade africana?<\/strong><br>\u00c9 a tal voz que ou\u00e7o dentro de mim e com ela escrevo. E admito que vou buscar muito desse ritmo e musicalidade \u00e0 poesia africana que marcou a minha juventude. H\u00e1 uma procura de lirismo cujas ra\u00edzes se fundam numa grande simplicidade &#8211; ou numa aparente simplicidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Outros poetas que a tenham marcado?<br><\/strong>Os da literatura medieval. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Gostaria de libertar-se do ensino e ser apenas poeta?<br><\/strong>Sou professora h\u00e1 20 anos e gosto de ensinar. Se tivesse, contudo, a possibilidade de viver s\u00f3 da escrita, seria muito bom. Acho dif\u00edcil, em particular para um poeta. Mas&#8230; quem dera!<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>Aquando da apresenta\u00e7\u00e3o do livro &#8220;Rosas da China&#8221;, de Ana Mafalda Leite, por Eug\u00e9nio Lisboa, que lan\u00e7ou, tamb\u00e9m, a sua &#8220;Mat\u00e9ria Intensa&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Augusta Silva, Entrevista in Di\u00e1rio de Not\u00edcias (2000) Chama para o seu novo livro Rosas da China nomes como os de Rilke e Florbela Espanca. Interioridade e sensualidade?Rilke, poeta da minha paix\u00e3o. Fala do universo feminino e da sensualidade. Em Florbela existe, tamb\u00e9m, a sensualidade e a procura. Sensualidade que leva Ana Mafalda Leite [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/873"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=873"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/873\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1140,"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/873\/revisions\/1140"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=873"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}