{"id":869,"date":"2020-05-31T12:25:31","date_gmt":"2020-05-31T12:25:31","guid":{"rendered":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/?page_id=869"},"modified":"2020-07-14T20:35:13","modified_gmt":"2020-07-14T20:35:13","slug":"enumeracao-declinada-da-rosa","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/enumeracao-declinada-da-rosa\/","title":{"rendered":"Enumera\u00e7\u00e3o Declinada da Rosa"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Lu\u00eds Carlos Patraquim<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p><strong>Na poesia de Ana Mafalda Leite surge uma obstinada \u201cguardadora da inf\u00e2ncia\u201d num puro e perverso jogo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Onde fica a nacionalidade de um autor, de algu\u00e9m \u2013 um ser de palavras \u2013 que, ainda por cima, \u00e9 poeta, varia\u00e7\u00e3o infinita, combinat\u00f3ria inaugural de outra realidade para al\u00e9m da casa e do mundo. Ou, qual \u00e9 a casa do poeta que a palavra diz, nomeando-a, \u00fanica, estritamente aquela e n\u00e3o obstante plural? A l\u00edngua \u00e9 a nacionalidade como quer a estafada \u2013 e mal compreendida \u2013 frase de Bernardo Soares, o escritur\u00e1rio cansado?<\/p>\n\n\n\n<p>Em \u201cRosas da China\u201d, Ana Mafalda Leite opera uma desloca\u00e7\u00e3o de sentido. Nascida em Portugal mas desde de tenra idade a viver em Mo\u00e7ambique (prov\u00edncia de Tete), toda a sua mundiviv\u00eancia se faz no espa\u00e7o do \u00cdndico, n\u00e3o obstante a sua obra n\u00e3o denotar \u201cexplicitamente\u201d, ao gosto dos estudiosos africanistas, nenhum sinal onde, desde logo e por decreto, lhe poderia ser outorgado \u201cpassaporte\u201d liter\u00e1rio mo\u00e7ambicano. Mas \u00e9 de um cosmopolitismo, bem na respira\u00e7\u00e3o de alguma da melhor poesia da terra, que a sua proposta se vem inscrevendo embora n\u00e3o se pretenda, aqui, persistir no equ\u00edvoco dessa outorga, porventura pouco imaginativa. Et pur, paralelamente ao seu percurso po\u00e9tico, a autora de \u201cCan\u00e7\u00f5es de Alba\u201d vem trilhando um coerente esfor\u00e7o de honesto estudo sobre as literaturas africanas de l\u00edngua portuguesa, com destaque para Jos\u00e9 Craveirinha, mas tamb\u00e9m Rui Knopfli ou Pepetela. E nessa s\u00f3 aparente disjun\u00e7\u00e3o algo de misterioso ocorre \u2013 se vem vindo plasmando \u2013 sobretudo desde o poema \u201cNoivas\u201d, inclu\u00eddo em \u201cMariscando Luas\u201d \u2013 (des)glosa em contraponto com a pintura de Roberto Chichorro \u2013 numa esp\u00e9cie de ritual, dan\u00e7a, louva\u00e7\u00e3o nupcial em direc\u00e7\u00e3o a uma mesti\u00e7agem integrando, num erotismo inici\u00e1tico, tanto a perten\u00e7a vivencial afro-europeia quanto um mais amplo quadro de refer\u00eancias po\u00e9tico-liter\u00e1rias. N\u00e3o por acaso, essa aproxima\u00e7\u00e3o se reitera em \u201cRosas da China\u201d tanto na \u201cCarta\u201d, substituindo pref\u00e1cio, do mo\u00e7ambicano Eduardo White, ex\u00edmio e obsessivo descobridor de pontos de fuga, mapas da carne inaugural do mundo, como na calculada deriva de vozes que este livro convoca em obsessiva e declinada enumera\u00e7\u00e3o: Florbela Espanca, Carroll, Sophia, Mariana Alcoforado, Pessoa\/Bernardo Soares, dissemina\u00e7\u00e3o de imagens em livre cita\u00e7\u00e3o para uma outra combinat\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao cosmopolitismo atr\u00e1s referido se pode acrescentar, em estesia, tens\u00e3o, t\u00e9nue fio de Ariadne desdobrando-se em desconcertante proposta, a recorrente imagem da menina-noiva-princesa-amante-\u00e0-espera, onde se move uma obstinada \u201cguardadora da inf\u00e2ncia\u201d num puro e perverso jogo de absoluta e primeva inoc\u00eancia. Algo tamb\u00e9m recorrente, se em toda a poesia do vasto mundo, tamb\u00e9m na mo\u00e7ambicana. \u201cHabitante da velha casa da linguagem\u201d a poeta feiticeira \/ fada (boa? m\u00e1?) se interpela em \u201cas vozes de Alice\u201d: \u201cboa noite bom dia sempre menina flor \/ como tens passado \u2013 v\u00e3o os ventos v\u00eam as ondas \/ o sol brilha \/ tens ainda pouca idade e o tempo n\u00e3o passa nunca \/ chega ao p\u00e9 de ti como se fosse a eternidade \/ vou-te oferecer um ursinho e tamb\u00e9m vou brincar \/ contigo \/ agora \u00e9 o esconde esconde outro dia ser\u00e1 a ver se \/ me agarras \/ cabra cega cabra cega adivinha quem n\u00e3o v\u00eas \/ adivinha quem n\u00e3o sabes no centro do \/ mundo h\u00e1 um rosto vendado que olha para ti \/\/ (\u2026)\u201d. \u00c9 para desvendar essa esfinge, esse rosto que somos e que nos v\u00ea em labir\u00edntico reflexo de espelhos que existe a Rosa: \u201ceu sou a rosa na rosa \/ rosa rodada rodando rosas \/ te quero rosa-mundo rosa dos ventos \/ outra rosa n\u00e3o quero \/ de ramo em ramo \/ o cora\u00e7\u00e3o traz inteiro \/ o ramo das rosas todas centradas no centro \/ de te ser \/ rosa (\u2026)\u201d at\u00e9 ao remate da \u201crosa floribunda odoratissima\u201d. Na organiza\u00e7\u00e3o do volume surgem, depois, \u201cAs Falas da Princesa\u201d, \u201cA Voz Aparecida\u201d e \u201cAs Belas Acordadas\u201d. Segue, assim, este livro de Ana Mafalda Leite por v\u00e1rios caminhos que se bifurcam, entrela\u00e7am, recome\u00e7am e invocam uma pluralidade simb\u00f3lica, dual, onde a dimens\u00e3o amorosa\/er\u00f3tica busca sua luminesc\u00eancia absoluta. \u201cEm Sombra Acesa\u201d, \u201cCan\u00e7\u00f5es de Alba\u201d e agora \u201cRosas da China\u201d, n\u00e3o sendo tr\u00edptico, assumem-se como varia\u00e7\u00f5es por enumera\u00e7\u00e3o\/declina\u00e7\u00e3o para uma \u201cplenitude, de algum modo, platonizante\u201d, como escreveu Jo\u00e3o Rui de Sousa no pref\u00e1cio a \u201cCan\u00e7\u00f5es de Alba\u201d, um \u201cprendre sens d\u2019un l\u2019insens\u00e9\u201d, como dizia \u00c9luard, mais depurado, mais simples, aproximando-se de um dizer, ora denso, quase rarefeito, ora de verso largo, por vezes coloquial ou beirando uma esp\u00e9cie de odor\u00edfera sensualidade em livre jogo de transfigurada cita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lu\u00eds Carlos Patraquim Na poesia de Ana Mafalda Leite surge uma obstinada \u201cguardadora da inf\u00e2ncia\u201d num puro e perverso jogo. 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