{"id":847,"date":"2020-05-31T12:01:37","date_gmt":"2020-05-31T12:01:37","guid":{"rendered":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/?page_id=847"},"modified":"2020-07-14T20:34:04","modified_gmt":"2020-07-14T20:34:04","slug":"das-rosas-da-china-aos-bicos-de-lacre","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/das-rosas-da-china-aos-bicos-de-lacre\/","title":{"rendered":"Das rosas da China aos bicos de lacre"},"content":{"rendered":"\n<p>Ana Mafalda Leite, Rosas da China, Lisboa, Quetzal (1999)<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Maria Armandina Maia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p>Numa espera sem tempo nem lugar, Ana Mafalda Leite colhe, com aprumo de mestre, velhas li\u00e7\u00f5es para o seu \u201cbouquet\u201d de rosas, por sua vez colhido de entre os mais ricos odores, quase bordado na mem\u00f3ria da autora, em tecidos preciosos, di\u00e1fanos v\u00e9us evocadores de um territ\u00f3rio para l\u00e1 da transpar\u00eancia,&nbsp; zona por onde esvoa\u00e7am sentidos e segredos inaud\u00edveis ao comum dos mortais, os que n\u00e3o guardam nas caixinhas de m\u00fasica sussurros e murm\u00farios, nem p\u00e1ram para escutar os sinais, a luz da lua cheia, a origem das \u00e1guas que correm, as vozes que perpassam nos corredores fundos e luminosos, e que sempre nos conduzem a um outro lado, onde a vontade e o desejo, harmoniosamente, se confundem, tornando amena a espera.<\/p>\n\n\n\n<p>A felicidade com que se \u201cabre\u201d o texto, com \u201cos rios de luz que correm a terra\u201d, deixa imediatamente entrever a firme inten\u00e7\u00e3o da poeta se reconciliar com o mundo, arrastando consigo os outros, numa roda mesti\u00e7a nas origens, nas suas cores e nos seus sons, atrav\u00e9s da dif\u00edcil arte de reafirmar conciliar valores, reafirmando a sua unicidade, fiel \u00e0 ambival\u00eancia entre o \u00cdndico e o Atl\u00e2ntico que lhe correm nas veias, ou, mais em profundidade, entre a terra e os mares que a rodeiam, sempre:&nbsp; \u201cTenho o mundo inteiro correndo neste rio em que\/ te sou barco e levo-te no tempo ao \/cora\u00e7\u00e3o da \u00e1gua\/ \u00e0 alma do mundo \u00e0 aura da terra\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Toda a sem\u00e2ntica do texto remete para um encontro t\u00e3o precioso que ocupa as m\u00e3os, os gestos e a mente da amada, a encontrar nichos, onde guardar um amor t\u00e3o raro, que a obriga a polvilhar o ar de p\u00e9talas e a fazer brilhar o ch\u00e3o com pedrinhas de brilhantes, para mostrar o caminho e o aliviar de toda a dificuldade no seu achamento. Por isso as rosas dever\u00e3o estar imaculadamente limpas de espinhos, perfeitas e belas para serem colhidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Debru\u00e7ada est\u00e1 a princesa, na sua encena\u00e7\u00e3o sobre os preparativos do leito nupcial, onde s\u00f3 repousar\u00e1 o herdeiro das mem\u00f3rias guardadas pelas suas \u201cfalas de princesa\u201d, detentor dos mist\u00e9rios da sedu\u00e7\u00e3o&nbsp; e da pureza original &#8211; \u201cserei princesa de um pr\u00edncipe que me mere\u00e7a\u201d- desdobrando as dobras dos len\u00e7\u00f3is de uma alcova perfeita, onde a sensualidade trespassa a cada s\u00edlaba, e cada verso vai ganhando for\u00e7a no caminho, um irresist\u00edvel apelo \u00e0s sensa\u00e7\u00f5es todas, sem reservas, com a atitude de entrega que se exige de uma prepara\u00e7\u00e3o inici\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>O estado de abandono s\u00f3 permite ao poema ganhar seguran\u00e7a, pelo que a pr\u00f3pria poeta beneficia deste estado de gra\u00e7a, que aflora numa esp\u00e9cie de aura virginal, vis\u00edvel no comedimento de tudo o que diz, e no pr\u00f3prio \u00eaxtase que nesse dizer perpassa. Por isso, os Bicos de Lacre incendeiam a escrita de Ana Mafalda Leite, que desfolha o poema com a conten\u00e7\u00e3o er\u00f3tica de aprendiza de um&nbsp; Mestre, que lhe ensinou as velhas e s\u00e1bias li\u00e7\u00f5es da arte da sedu\u00e7\u00e3o, enquanto o seu corpo, o seu verso, parece dispor-se \u00e0 entrega, ao seu senhor, ao poema, que na sua posse h\u00e1-de adivinhar-lhe os desejos adiados, presentes, numa intemporalidade que s\u00f3 acentua as certezas desta amante: \u201c vagueio-lhe o corpo em lua\/ desapare\u00e7o-me em bruma\/ adorme\u00e7o alta\/ quando acordo sei que vir\u00e1s de novo \/ sempre\/ luz no interior das \u00e1guas sonhei\/ obscuras dentro\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A luz do luar, ou o brilho do sol, favorecem a apari\u00e7\u00e3o de fadas e outros entes, cuja sensibilidade e do\u00e7ura perpassam o poema como lan\u00e7as que n\u00e3o ferem mas, momentos h\u00e1, em que \u201cescurecendo o horizonte\u201d,&nbsp; assomam vultos \u201cvestidos da noite longamente\u201d. Aqui comparecem, inevitavelmente, os medos que sempre nos acompanham e a inquieta\u00e7\u00e3o de algumas vozes trespassadas pelo eco da&nbsp; dor e da aus\u00eancia: \u201croda e torna a rodar este tempo\/ imposs\u00edvel de recusar\/ roda e torna a rodar\/ para que no centro p\u00e1re\/ este abra\u00e7o abra\u00e7ado por abra\u00e7ar\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Se o nome de Florbela se \u201cl\u00ea\u201d com maior nitidez, a autora traz at\u00e9 ao texto, na sua prolongada escuta, a evoca\u00e7\u00e3o de muitos outros que a trouxeram at\u00e9 ali e, por isso, temos a impress\u00e3o de folhear, de vez em quando, neste poema,&nbsp; uma p\u00e1gina que parece fora do seu lugar. Mas s\u00f3 na apar\u00eancia isto acontece, porque o todo do poema \u00e9 feito da lembran\u00e7a e da evoca\u00e7\u00e3o de mestres, como de resto bem sabe a aprendiza, que \u00e9 a princesa, mestra por sua vez de outras sabedorias,&nbsp; como a da oralidade, da tradi\u00e7\u00e3o popular, cuja sombra \u00e9 permanente no conto que aqui se conta.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre a inoc\u00eancia de esposa e o erotismo da cortes\u00e3, este corpo po\u00e9tico e textual deixa-se enfaixar por v\u00e9us que pressup\u00f5em a doce descoberta da nudez. Nada nos \u00e9 dito do seu rosto, e da sua voz sabemos s\u00f3 o que ela nos anuncia, voz aparecida, cumprindo-se, assim, a fun\u00e7\u00e3o de mist\u00e9rio e de densidade que a autora parece ter desenhado para o seu cen\u00e1rio, que nos deixa \u00e0 espera de mais textos como este, em que o sonho voe t\u00e3o alto, sem qualquer concess\u00e3o no que respeita \u00e0 enorme qualidade liter\u00e1ria que &#8211; curiosamente, como dizia h\u00e1 dias um senhor num encontro de poesia &#8211; pousa no poema com tal simplicidade que fala dos e aos sentimentos. N\u00e3o sei se pode querer mais ben\u00e7\u00e3os para uma m\u00e3o que contou um conto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De fadas, j\u00e1 se v\u00ea.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Mafalda Leite, Rosas da China, Lisboa, Quetzal (1999) Maria Armandina Maia Numa espera sem tempo nem lugar, Ana Mafalda Leite colhe, com aprumo de mestre, velhas li\u00e7\u00f5es para o seu \u201cbouquet\u201d de rosas, por sua vez colhido de entre os mais ricos odores, quase bordado na mem\u00f3ria da autora, em tecidos preciosos, di\u00e1fanos v\u00e9us [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","meta":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/847"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=847"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/847\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1136,"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/847\/revisions\/1136"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=847"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}