{"id":695,"date":"2020-05-29T16:14:38","date_gmt":"2020-05-29T16:14:38","guid":{"rendered":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/?page_id=695"},"modified":"2020-07-14T20:33:22","modified_gmt":"2020-07-14T20:33:22","slug":"ana-mafalda-leite-uma-borboleta-na-vidraca","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/ana-mafalda-leite-uma-borboleta-na-vidraca\/","title":{"rendered":"Ana Mafalda Leite: uma borboleta na vidra\u00e7a"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Vera Maqu\u00eaa<\/strong> <a href=\"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-admin\/post-new.php?post_type=page#_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p>Uma linhagem de intelectuais contempor\u00e2neos &#8211; nos lembram Edward Said e Homi Bhabha -, tem representado a pessoa fora do lugar, que vivendo entre dois mundos, ocupa uma terceira margem. S\u00e3o os intelectuais na di\u00e1spora. Mas existe uma outra linhagem, a dos viajantes por vontade, por inquieta\u00e7\u00e3o, estes que navegam na alegria de visitar o outro, de experimentar no outro o seu pr\u00f3prio ser. A esta linhagem pertence Ana Mafalda Leite, uma das mais vigorosas intelectuais do nosso tempo. Sua vida intelectual \u00e9 partilhada numa diversidade de a\u00e7\u00f5es, cuja experi\u00eancia de haver morado em Mo\u00e7ambique at\u00e9 os quase 20 anos de idade torna mais rica suas perspectivas de trabalho com a linguagem, com a literatura e com a cultura.<\/p>\n\n\n\n<p>Seus estudos iniciados na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, foram conclu\u00eddos em Lisboa, na faculdade de Filologia Rom\u00e2nica da Universidade de Letras de Lisboa, em 1979, e desde ent\u00e3o \u00e9 professora na mesma universidade. Se naquela \u00e9poca o mundo n\u00e3o tinha fronteiras intranspon\u00edveis para a jovem estudante, muito menos o teria depois: deu aulas no Brasil, Estados Unidos, Alemanha, Cabo Verde. Mo\u00e7ambique, Zimbabwe, Senegal. Comparece sempre, numa atividade ininterrupta, a encontros de poetas e simp\u00f3sios em v\u00e1rios paises do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong><strong>A tradutora<\/strong>: quem circula muito pelo mundo descobre que precisa traduzir e, por vezes, ser traduzido. Ana Mafalda assumiu a tradu\u00e7\u00e3o na sua ampla significa\u00e7\u00e3o, como podemos ler em toda sua obra e enfrentou o desafio do trabalho literal do tradutor, escolhendo aqueles para quem a linguagem \u00e9 tamb\u00e9m frui\u00e7\u00e3o. Entre as tradu\u00e7\u00f5es que Ana Mafalda realizou para o portugu\u00eas, encontram-se &nbsp;os importantes livros <em>Li\u00e7\u00e3o,<\/em> de Roland Barthes, Lisboa: Ed.70, 1979; <em>S\/Z<\/em>, tamb\u00e9m de Roland Barthes (em colabora\u00e7\u00e3o), Lisboa: Ed.70,1980; <em>Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Cultura Africana<\/em> de Alpha Sow, Honorat Aguessy e Path\u00e9 Diagne ( em colabora\u00e7\u00e3o), Lisboa: Ed.70, 1980 e <em>Os G\u00e9neros do Discurso,<\/em> de Tzvetan Todorov, Lisboa: Ed.70, 1981.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <strong>A ensa\u00edsta<\/strong>: a escrita afinada com o presente, atual e cr\u00edtica da literatura, re\u00fane rigor e leveza e mostra que sentido est\u00e9tico e esp\u00edrito cient\u00edfico&nbsp; caracterizam a combina\u00e7\u00e3o perfeita da produ\u00e7\u00e3o intelectual de Ana Mafalda. Seu estudo sobre <em>A Po\u00e9tica de Jos\u00e9 Craveirinha<\/em>, Lisboa: Vega, 1991 &#8211; o trabalho mais completo e vertical escrito at\u00e9 hoje sobre o poeta mo\u00e7ambicano -, \u00e9 uma refer\u00eancia inestim\u00e1vel para os estudiosos da obra de Craveirinha e da poesia mo\u00e7ambicana. <em>Modaliza\u00e7\u00e3o \u00c9pica nas Literaturas Africanas<\/em>, Lisboa, Vega, 1995, abre novas perspectivas para o estudo das literaturas africanas, ao observar o corte das narrativas grandiosas que, nas marcas da diferen\u00e7a, atravessa romances como <em>Mayombe<\/em>, de Pepetela.Ana Mafalda colaborou no importante volume <em>The Postcolonial Literature of Lusophone Africa<\/em>, London: Hurst, 1996, organizado por Patrick Chabal. Quando seu livro&nbsp;&nbsp; <em>Oralidades &amp; Escritas<\/em> <em>nas Literaturas Africanas<\/em>, Lisboa: Colibri, 1988, foi publicado, provocou uma discuss\u00e3o sobre um problema latente nas literaturas africanas, que \u00e9 a forte tradi\u00e7\u00e3o da oralidade nestas literaturas. Ana Mafalda se apresentava cada vez mais entranhada nas discuss\u00f5es cr\u00edticas, com an\u00e1lises inovadoras e provocativas, desenhando um percurso cr\u00edtico de tal modo articulado aos estudos destas literaturas que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais possivel pensar as literaturas africanas, sobretudo as de lingua portuguesa, sem considerar os estudos dessa voraz pesquisadora. Num de seus \u00faltimos livros, <em>Literaturas Africanas e Formula\u00e7\u00f5es P\u00f3s-Coloniais<\/em>, Lisboa: Colibri, 2003, essa perspectiva da teoria e da pr\u00e1tica critica se consolida como um dos pensamentos mais l\u00facidos do nosso tempo sobre a literatura de modo geral, e de modo particular, a literatura escrita em lingua portuguesa.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <strong>A poeta<\/strong>: o am\u00e1lgama do rigor anal\u00edtico com a leveza da escrita s\u00e3o elementos da cr\u00edtica que se insinuam na veia po\u00e9tica de Ana Mafalda. Em 1984, numa antologia feita em colabora\u00e7\u00e3o com Jos\u00e9 Manuel Lopes, <em>Cem haiku<\/em>, Lisboa: Vega, Ana Mafalda estr\u00e9ia na poesia e no mesmo ano publica, solo, <em>Em Sombra Acesa<\/em>, Lisboa, Vega. Em 1990 recebe a Men\u00e7\u00e3o Honrosa E\u00e7a de Queiroz pelo excelente <em>Can\u00e7\u00f5es de Alba<\/em>, Lisboa: Vega, publicado no ano anterior. Com dois grandes nomes, Roberto Chichorro e Luis Carlos Patraquim, Ana Mafalda publica em 1992 o <em>Mariscando Luas<\/em>, Lisboa, Vega.&nbsp; <em>Rosas da China<\/em>, Lisboa: Quetzal, sai em 1999 e em 2002, o belo e denso <em>Passaporte do Cora\u00e7\u00e3o<\/em>, Lisboa: Quetzal. Na revista \u201cPoesia Sempre\u201d, da Biblioteca Nacional, n. 23 -2006, numa carta a Rui Knopfli Ana Mafalda resume o seu labor po\u00e9tico com poesia: \u201cChamem-se europ\u00e9ia ou africana, que fazer sen\u00e3o calar? Meus versos livres, livres xingombelas, livres pomos, voam sem ch\u00e3o, neste ch\u00e3o que trago por dentro da casa m\u00f3vel que me atravessa o sonho.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <strong>A pessoa: <\/strong>seria mesmo poss\u00edvel desdobrar algu\u00e9m ao infinito? pergunto-me eu, j\u00e1 tomada da poesia de Ana Mafalda. Certa disto n\u00e3o posso estar, quando Ana Mafalda Morais Leite, com sua generosidade intelectual e com a simplicidade dos que s\u00e3o s\u00e1bios vem para perto de todos n\u00f3s para ensinar aquilo que n\u00e3o pode ser ensinado sen\u00e3o dividindo a palavra na sua insufici\u00eancia e excesso. \u00c9 quando ela se torna Ana Mafalda, oferecendo a cada um de seus leitores, reflex\u00f5es sobre a opacidade do mundo como uma borboleta voando toda a transpar\u00eancia da vidra\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> &#8211; Prof\u00aa. da Universidade do Estado de Mato Grosso e doutora em Estudos Comparados de Literaturas de L\u00edngua Portuguesa, pela Universidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vera Maqu\u00eaa [1]\u00a0 Uma linhagem de intelectuais contempor\u00e2neos &#8211; nos lembram Edward Said e Homi Bhabha -, tem representado a pessoa fora do lugar, que vivendo entre dois mundos, ocupa uma terceira margem. 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