{"id":683,"date":"2020-05-29T15:58:30","date_gmt":"2020-05-29T15:58:30","guid":{"rendered":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/?page_id=683"},"modified":"2020-07-14T20:33:06","modified_gmt":"2020-07-14T20:33:06","slug":"metaformoses","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/metaformoses\/","title":{"rendered":"Metamorfoses"},"content":{"rendered":"\n<h1>Literaturas Africanas e Formula\u00e7\u00f5es P\u00f3s-Coloniais<\/h1>\n\n\n\n<p><strong>Russell G. Hamilton<\/strong><a href=\"#_ftn1\">[1]<\/a><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p>O volume sob considera\u00e7\u00e3o inclui 11 ensaios em que Ana Mafalda Leite analisa as de autores da \u00c1frica lus\u00f3fona, especificamente de Mo\u00e7ambique e de Angola. N\u00e3o obstante o destaque das literaturas africanas de l\u00edngua portuguesa, a base te\u00ad\u00f3rica, o processo cr\u00edtico e o contexto s\u00f3cio-hist\u00f3rico e cultural, que constituem a abordagem metodol\u00f3gica de Ana Mafalda Leite, d\u00e3o f\u00e9 ao t\u00edtulo do volume. De fato, um dos m\u00e9ritos mais salientes do livro \u00e9 que em termos conceituais Ana Mafalda<\/p>\n\n\n\n<p>Leite coloca as literaturas africanas de l\u00edngua portuguesa no contexto mais amplo das literaturas africanas em geral. Em todos os quatro cap\u00edtulos ou divis\u00f5es que constituem o volume, a autora faz refer\u00eancias relevantes \u00e0s literaturas da \u00c1frica franc\u00f3fona e angl\u00f3fona. No seu texto, Leite cita, portanto, tais estudos essenciais como <em>Litt\u00e9ratures d&#8217;Afrique noire de langue fran\u00e7aise<\/em>, por Jacques Chevrier, e <em>The African &#8216;Experience in Literature and ldeology,<\/em> da autoria de Abiola Irele.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como o livro \u00e9 fiel \u00e0 primeira parte do seu t\u00edtulo, Literaturas Africanas&#8230;, o conte\u00fado do discurso tamb\u00e9m confirma a segunda parte do t\u00edtulo, &#8230;e Formula\u00e7\u00f5es P\u00f3s-Coloniais. E em \u00abLiteraturas Africanas e P\u00f3s-Colonialismo\u00bb, seu cap\u00edtulo introdu\u00adt\u00f3rio, no primeiro par\u00e1grafo da subse\u00e7\u00e3o titulada \u00abP\u00f3s-colonialismo, um caminho cr\u00edtico e te\u00f3rico\u00bb, Ana Mafalda Leite assevera que \u00ab(f]alar de p\u00f3s-colonialismo e lusofonia ou da adequa\u00e7\u00e3o das teorias p\u00f3s-coloniais \u00e0s literaturas africanas de l\u00edngua portuguesa ainda \u00e9 \u00e1rea n\u00e3o muito concep\u00adtualizada.\u00bb (p. 11). Ela logo afirma [n]\u00e3o sendo nosso intuito clarificar todas as problem\u00e1ticas inerentes \u00e0 j\u00e1 relativamente longa dura\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica neste campo, tentarei situar algumas quest\u00f5es respeitantes aos conceitos de origem anglo-sax\u00f3nica e seu interesse, adequa\u00e7\u00e3o, e formula\u00e7\u00e3o relativamente aos estudos liter\u00e1rios africanos lus\u00f3fonos.\u00bb (p. 11). Com respeito \u00e0 suposta origem anglo-sax\u00f3nica d9 p\u00f3s-colonialismo, muitos acham que Orientalism, o conhecido livro da autoria de Edward Said, deu origem \u00e0 teoria p\u00f3s-colonial. O j\u00e1 cl\u00e1ssico Orientalism foi pu\u00adblicado em 1979 e o rec\u00e9m-falecido Edward Said, embora um professor numa universidade norte-americana, era natural da Palestina. Outros, concordando, por\u00e9m, com a asser\u00e7\u00e3o da origem anglo-sax\u00f3nica do conceito, acreditam que o primeiro texto a elaborar uma teoria p\u00f3s-colonial \u00e9 <em>The Empire Writes Back: Theory and Practice in Post-Colonial Literatures<\/em>, publicado em 1989 por Bill Ashcroft, um professor brit\u00e2nico, Gareth Griffiths e Helen Tiffin, professores australianos. Ali\u00e1s, Ana Mafalda Leite cita e parafraseia tanto o livro de Said como o de Ashcroft, et aI. Seja qual f\u00f4r a origem da teoria, Leite demonstra um conhecimento profundo do conceito, e ao abordar as relevantes quest\u00f5es te\u00f3ricas ela coloca o seu processo cr\u00edtico das literaturas africanas lus\u00f3fonas no devido contexto de formula\u00e7\u00f5es p\u00f3s-coloniais.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de seguir pelo caminho da teoria e cr\u00edtica p\u00f3s-coloniais, com discernimento Leite tamb\u00e9m aborda formula\u00e7\u00f5es com respeito \u00e0s literaturas africanas, com uma \u00eanfase, naturalmente, nas de l\u00edngua portuguesa da p\u00f3s-independ\u00eancia. No seu segundo cap\u00edtulo, \u00abConfigura\u00e7\u00f5es Textuais da Oralidade no C\u00e2none Mo\u00e7ambicano\u00bb, a estudiosa analisa os g\u00eaneros orais repre sentados em Terra Son\u00e2mbula, a obra prima de Mia Couto, sendo ele um dos melhores e mais prol\u00edferos contadores de hist\u00f3rias, ou, melhor, de est\u00f3rias, da \u00c1frica lus\u00f3fona p\u00f3s-colonial. Tamb\u00e9m analisada no cap\u00edtulo 11, no \u00e2mbito da oratura e dos contadores de hist\u00f3rias, \u00e9 a obra de Paulina Chiziane. Devido, em particular, a Niketche, Uma Hist\u00f3ria de Poligamia, a sua obra mais recente, Paulina Chiziane j\u00e1 ocupa um lugar bem merecido ao lado do seu patr\u00edcia Mia Couto e outros conceituados ficcionistas de Mo\u00e7ambique da p\u00f3s\u00ad-independ\u00eancia. Ana Mafalda Leite fez bem por ter optado analisar a obra de Mia Couto e Paulina Chiziane, pois as suas es\u00adt\u00f3rias s\u00e3o representativas, at\u00e9 a quinta-es\u00ads\u00eancia, da oralidade e da genologia, isto sendo a ci\u00eancia dos g\u00eaneros liter\u00e1rios. Ultimamente, a converg\u00eancia da oralidade com a literatura, resultando na oratura, tem sido um assunto de muita import\u00e2ncia entre escritores dos Palop e estudiosos que se dedicam \u00e0s literaturas africanas de l\u00edn\u00adgua portuguesa.<\/p>\n\n\n\n<p>Em \u00abQuestiona\u00e7\u00e3o do C\u00e2none His\u00adt\u00f3rico Colonia!\u00bb, o seu terceiro cap\u00edtulo, Leite tamb\u00e9m escolheu bem quando optou analisar A Gloriosa Fam\u00edlia. Esta obra, por Pepetela, o conceituado e prol\u00edfero escri\u00adtor angolano, \u00e9 um dos melhores exemplos da fic\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Outra obra que Leite analisa desde a perspectiva da re-escrita e re-leitura da hist\u00f3ria colonial \u00e9 A Lenda dos Homens do Vento, da autoria de Fer\u00adnando Fonseca Santos. Confesso que antes de ler a avalia\u00e7\u00e3o feita por Ana Mafalda Leite, eu n\u00e3o sabia da exist\u00eancia dessa obra em particular de Santos, um escritor nas\u00adcido em Angola e que atualmente mora em Portugal. Tamb\u00e9m confesso, por\u00e9m, que aquilo que Leite escreveu sobre essa narra\u00adtiva hist\u00f3rica me motivou a adquirir e ler os dois volumes desse dram\u00e1tico tratamen\u00adto ficcional, mas convincente e estetica\u00admente gratificante, de eventos hist\u00f3ricos decorridos no Sul de Angola na primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo xx.<\/p>\n\n\n\n<p>Em \u00abPercursos P\u00f3s-Coloniais da Poesia Mo\u00e7ambicana\u00bb, o quarto e \u00faltimo cap\u00edtulo do seu livro, Leite recorre a temas te\u00f3ricos e processos cr\u00edticos relevantes. Referindo-se \u00e0 obra de v\u00e1rios poetas mo\u00ad\u00e7ambicanos, mas efetuando an\u00e1lises mais detalhadas da poesia inovadora de Lu\u00eds Cados Patraquim e Armando Artur, Leite aborda a quest\u00e3o de diversas formula\u00e7\u00f5es p\u00f3s-coloniais. Vale a pena notar que al\u00e9m de ser uma cr\u00edtica liter\u00e1ria estabelecida, Ana Mafalda Leite \u00e9 uma poeta talentosa, com pelo menos dois volumes de poemas publicados, o \u00faltimo sendo Passaporte do Cora\u00e7\u00e3o. \u00c9 com certeza o seu reconhecimento do poder de palavras e do ritmo inerente em linguagem que leva Leite a escrever numa forma t\u00e3o esclarecedora sobre tais temas com as converg\u00eancias entre o tradicional e o moderno na obra de Lu\u00eds Cados Patraquim, Armando Artur, Eduar\u00addo White e outros poetas mo\u00e7ambicanos, e tamb\u00e9m ficcionistas como Mia Couto e Paulina Chiziane, do per\u00edodo p\u00f3s-colonial contempor\u00e2neo.<\/p>\n\n\n\n<p>Igualmente discernente e cativante, no \u00e2mbito do processo cr\u00edtico, \u00e9 \u00abPo\u00e9ticas do Imagin\u00e1rio Elemental na Poesia Mo\u00ad\u00e7ambicana &#8211; entre Mar&#8230; e C\u00e9u\u00bb, a subse\u00ad\u00e7\u00e3o final do cap\u00edtulo IV. Tamb\u00e9m quero me referir \u00e0 pr\u00e9-pen\u00faltima subse\u00e7\u00e3o em que Leite analisa alguns poemas que metafo\u00adrizam a Ilha de Mo\u00e7ambique, uma \u00e1rea geogr\u00e1fica algo id\u00edlica no Norte do pa\u00eds. A respeito de metaforizar a ilha, Leite assevera, de modo percpetivo, que \u00ab&#8230;0 pro\u00adcesso de mitifica\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria da Ilha de Mo\u00e7ambique tem vindo a ser actualizado, e amplificado, nos \u00faltimos anos, com maior insist\u00eancia na obra de v\u00e1rios autores, concretizando percursos alternativos a uma po\u00e9tica, e de cariz ideol\u00f3gico, conferindo uma outra amplitude aos imagin\u00e1rios po\u00e9\u00adticos, e actualizando uma &#8216;heran\u00e7a&#8217; e tra\u00addi\u00e7\u00e3o liter\u00e1rias, muito antigas.\u00bb (p. 137).<\/p>\n\n\n\n<p>Concluo por asseverar que a leitura deste \u00faltimo livro de Ana Mafalda Leite deveria ser um requisito para qualquer um que se interesse pelas literaturas de l\u00edngua portuguesa. Al\u00e9m de ser um estudo infor\u00admativo e discernente, Literaturas Africanas e Formula\u00e7\u00f5es P\u00f3s-Coloniais constitui uma leitura agrad\u00e1vel, pois a escrita da pro\u00adfessora Ana Mafalda Leite exprime uma erudi\u00e7\u00e3o instrutiva e intelectualmente estimulante numa linguagem que reflete as sen\u00adsibilidades verbais normalmente atribu\u00eddas aos poetas.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Russell G. Hamilton \u00e9 Professor Em\u00e9rito de Literatura da \u00c1frica Lus\u00f3fona, Brasileira e Portuguesa da Universidade de Vanderbilt, EUA. Ele \u00e9 autor de Literatura Afri\u00adcana, Literatura Necess\u00e1ria: VoI. I &#8211; An\u00adgola; VoI. II- Mo\u00e7ambique, Cabo Verde, Guin\u00e9-Bissau, S\u00e3o-Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe (1981 e 1983).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Literaturas Africanas e Formula\u00e7\u00f5es P\u00f3s-Coloniais Russell G. 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