{"id":1229,"date":"2021-06-29T13:13:05","date_gmt":"2021-06-29T13:13:05","guid":{"rendered":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/?page_id=1229"},"modified":"2021-06-29T13:13:06","modified_gmt":"2021-06-29T13:13:06","slug":"o-verbo-amar-se-anima-da-minha-eternidade","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/o-verbo-amar-se-anima-da-minha-eternidade\/","title":{"rendered":"O verbo amar se anima da minha eternidade"},"content":{"rendered":"\n<p><em><strong>Pref\u00e1cio de Silviano Santiago ao Livro O Amor essa forma de desconhecimento, de Ana Mafalda Leite.<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p>Enganam-se as po\u00e9ticas cl\u00e1ssicas quando nos levam a crer que o poeta, gra\u00e7as \u00e0s m\u00faltiplas e inesgot\u00e1veis flores da ret\u00f3rica, concretiza para o ouvinte ou leitor sentimentos e emo\u00e7\u00f5es que esclarecem e iluminam abstra\u00e7\u00f5es, cujo significado ati\u00e7a a imagina\u00e7\u00e3o alerta do ser humano, aqui e agora, sempre. As flores da ret\u00f3rica apenas obscurecem o sentido original de palavra ou de frase que t\u00eam seu significado autenticado e reconhecido pela experi\u00eancia ling\u00fc\u00edstica de cada um em seu cotidiano. Como assevera o poeta e romancista cubano Lezama Lima, fiador em\u00e9rito das flores da ret\u00f3rica, \u201csomente o dif\u00edcil \u00e9 estimulante; somente a resist\u00eancia que nos desafia \u00e9 capaz de assestar e manter nossa pot\u00eancia de conhecimento&#8230;\u201d (<em>Express\u00e3o americana<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p>De imediato, sentimentos e emo\u00e7\u00f5es materializados em imagens po\u00e9ticas apenas transportam ouvinte ou leitor \u2013 pelo vi\u00e9s da objetiva\u00e7\u00e3o ou da concretude \u2013 a dom\u00ednios obscuros da linguagem, ou seja, a uma <em>forma<\/em> subjetiva e sedutora que, nas boas hip\u00f3teses, convida o leitor ou o ouvinte a percorrer o caminho infatig\u00e1vel do conhecimento. De imediato, s\u00f3 s\u00e3o facilmente intelig\u00edveis e consum\u00edveis as flores da ret\u00f3rica que se tornaram lugar comum na j\u00e1 bem catalogada estocagem po\u00e9tica l\u00edrico-sentimental do Ocidente. S\u00f3 o banal \u2013 s\u00f3 o que ganhou status de topos na ret\u00f3rica cl\u00e1ssica &#8211; \u00e9 logo descodificado pelos ouvidos ou pelos olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 vestir o lobo de inesperada pele de tigre equivale a torn\u00e1-lo \u2013 de imediato &#8211; um animal desconhecido ao leitor ou ouvinte. A longo prazo, equivale a tornar estimulante e resistente a forma ling\u00fc\u00edstica <em>lobo<\/em> em sua nova roupagem de <em>tigre<\/em>. Por que tigre? \u00c9 preciso que a imagina\u00e7\u00e3o contra\u00edda e em polvorosa do leitor atravesse com os ouvidos ou os olhos atentos a inesperada e original espessura sem\u00e2ntica (pele de tigre) do voc\u00e1bulo <em>lobo<\/em>. O ancestral do c\u00e3o dom\u00e9stico se metamorfoseou em locu\u00e7\u00e3o estimulante e resistente. Se recobr\u00edssemos o ser humano com a pele de lobo \u2013 sabe-se \u2013, entrar\u00edamos de imediato no clich\u00ea que, desde os latinos at\u00e9 Thomas Hobbes, embala e adormece o imagin\u00e1rio humano &#8211; <em>Homo homini lupus<\/em>. N\u00e3o ser\u00e1 este o caso em teste na nova cole\u00e7\u00e3o de poemas de Ana Mafalda Leite, <em>O amor essa forma de desconhecimento<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos poemas recentes de Ana Mafalda, v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es dram\u00e1tico-po\u00e9ticas estar\u00e3o em jogo, uma delas j\u00e1 recoberta por nossos par\u00e1grafos de abertura. \u00c9 infinito e na maioria das vezes <em>previs\u00edvel<\/em> o elenco das imagens po\u00e9ticas que atestam a incontorn\u00e1vel experi\u00eancia humana do amor. No entanto, mais os poetas o <em>interpretam<\/em> (e \u00e9 disso que, no fundo, estamos falando, com a ajuda carinhosa do <em>Livro do fil\u00f3sofo<\/em>, de Nietzsche, <a href=\"#_ftn1\">[1]<\/a> e da leitura que Gilles Deleuze fez do pensador alem\u00e3o), mais o (objeto, sentimento, emo\u00e7\u00e3o, etc.) interpretado se distancia do mundo ling\u00fc\u00edstico de dom\u00ednio p\u00fablico para se tornar <em>terra ignota<\/em> da linguagem liter\u00e1ria. Por o <em>amor<\/em> se apresentar como <em>terra ignota<\/em> \u2013 na proposta po\u00e9tica de Ana Mafalda &#8211; \u00e9 que o leitor atende ao canto das sereias (isto \u00e9, ao canto das flores da ret\u00f3rica) e embarca no veleiro da leitura de <em>O amor essa forma de desconhecimento<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Recorde-se Carlos Drummond de Andrade: \u201cLeituras! Leituras! \/ Como quem diz: Navios&#8230; Sair pelo mundo \/ Voando na capa vermelha de Jules Verne\u201d (\u201cInicia\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria\u201d). Citem-se versos de Ana Mafalda: \u201cnavio em que partes quando chegas \/ em que ao chegar j\u00e1 vais partir\u201d. Ou estes outros: \u201co barco em que embarco desembarco sem porto\u201d. Ou finalmente: \u201ca espera \u00e9 a \u00fanica forma de chegar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Dizer que o amor \u00e9 uma forma de desconhecimento \u2013 lemos ao final do poema de abertura do novo livro de Ana Mafalda &#8211; \u00e9 atir\u00e1-lo para o limiar do n\u00e3o-consensual e do n\u00e3o-sabido pelo leitor. Tal opera\u00e7\u00e3o permite que, ao se tentar circunscrever o amor com imagens &#8211; circunscrev\u00ea-lo uma vez mais e sempre, esclare\u00e7a-se -, afigura-se a necessidade de avan\u00e7ar obscuros e inc\u00f3gnitos sentidos que, eventual e paradoxalmente, <em>esvaziar\u00e3o<\/em> o voc\u00e1bulo-chave do consensual e do sabido. A opera\u00e7\u00e3o visa a colocar o amor \u201cem estado de laborat\u00f3rio\u201d, como dizia Sarah Kofman ao se referir \u00e0s preliminares da interpreta\u00e7\u00e3o do \u201ccaso\u201d em Freud. Essa estranha e auspiciosa contabilidade po\u00e9tica \u2013 preencher para esvaziar &#8211; est\u00e1 apresentada e descrita em \u201cCora\u00e7\u00e3o adiado\u201d: \u201c\u00e9 tudo demais \/ mesmo o que \u00e9 de menos \/ est\u00e1 tudo errado \/ mesmo o que \u00e9 certo \/ \u00e9 incerto falar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1, pois, que se tomar o devido cuidado \u2013 no <em>incerto falar<\/em> de Ana Mafalda &#8211; com o peso e o sentido do verbo <em>esvaziar<\/em>. N\u00e3o significa necess\u00e1ria e obrigatoriamente retirar tudo o que estava contido, para deixar o continente vazio por dentro, oco. E por <em>cuidado<\/em> recomenda-se que se consulte T. S. Eliot e se leia o poema \u201cThe Hollow Men\u201d: \u201cLet me also wear \/ Such deliberate disguises \/ Rat\u2019s coat, crowskin, crossed staves \/ In a field \/ Behaving as the wind behaves\u201d. <a href=\"#_ftn2\">[2]<\/a> Em termos de linguagem po\u00e9tica contempor\u00e2nea, <em>esvaziar<\/em> significa que tudo o que at\u00e9 ent\u00e3o era dado como contido no reservat\u00f3rio imag\u00e9tico do sentimento <em>amor<\/em>, \u201csobra \/ est\u00e1 de fora\u201d &#8211; virou e \u00e9 disfarce, <em>pele de tigre<\/em>. O sentido <em>esvaziado<\/em> passa, ent\u00e3o, a perambular pela superf\u00edcie exterior do voc\u00e1bulo <em>amor<\/em>, \u201cbehaving as the wind behaves\u201d. Perambula de modo diasp\u00f3rico ou desterritorializado: \u201cem ex\u00edlio\u201d \u2013 continua o poema inicial do novo livro.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Esvaziar<\/em> significa, pois, exigir do leitor que se desvencilhe das v\u00e1rias camadas interpretativas \u2013 devida ou indevidamente <em>interiorizadas<\/em> pela tradi\u00e7\u00e3o \u2013 no voc\u00e1bulo <em>lobo<\/em>, a fim de que se chegue a conhecer com propriedade e riqueza a <em>pele de tigre<\/em> que, esvaziado o conte\u00fado banalizado pelo correr dos s\u00e9culos, passou a recobrir o que \u201cest\u00e1 de fora\u201d do <em>lobo<\/em>. \u201cLet me also wear \/ Such deliberate disguises\u201d. Assim como a pele de tigre enfeita ou enfeiti\u00e7a o corpo esvaziado \u2500 <em>hollow<\/em> \u2500 do lobo, o amor, se <em>in deliberate disguises<\/em>, enfeita ou enfeiti\u00e7a os olhos do leitor, j\u00e1 que se lhe aparece de modo \u201cestimulante\u201d e \u201cresistente\u201d, para retomar a palavra de Lezama Lima: \u201c\u00e9 estrangeiro \/ \u00e9 estranho\u201d. Ou como est\u00e1 dito no poema \u201cEstrangeira condi\u00e7\u00e3o\u201d: \u201caqui estou eu fora de mim \/ [&#8230;] fora das fronteiras \/ fora das esferas\/ [&#8230;] fora de tudo\u201d. Na estranha e auspiciosa contabilidade po\u00e9tica de Ana Mafalda, noves fora, o sujeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Esvaziado, o amor pouco se explica pelos sentimentos, sensa\u00e7\u00f5es ou emo\u00e7\u00f5es do sujeito que julga cont\u00ea-lo \u2013 sentimentos, sensa\u00e7\u00f5es e emo\u00e7\u00f5es ditos <em>\u00edntimos<\/em>. Repita-se: o sujeito est\u00e1 <em>fora<\/em> de si, fora das fronteiras estabelecidas pelo lugar comum da linguagem cotidiana, <em>fora<\/em> das esferas terrestres que enfeitam por enfeitar, <em>fora<\/em> de tudo. N\u00e3o \u00e9 aconselh\u00e1vel acercar-se da <em>intimidade<\/em> do sentimento ou da emo\u00e7\u00e3o do <em>amor<\/em> pelo vi\u00e9s da palavra substantiva ou adjetivamente privada. A ingenuidade e a espontaneidade do escritor \u2013 o gorgolejar ininterrupto das entranhas em poema \u2500 sempre traiu a escrita sobre o amor, embora sejam elas bem-vindas nas rid\u00edculas cartas de amor. \u201cAs cartas de amor, se h\u00e1 amor, \/ T\u00eam de ser rid\u00edculas\u201d (Fernando Pessoa).<\/p>\n\n\n\n<p>O poema de abertura da nova cole\u00e7\u00e3o de Ana Mafalda diz, e com clareza, que o amor existe \u201cfora de ti\u201d. O gargarejar do \u00edntimo pode ser ou \u00e9 <em>for\u00e7a<\/em> vital (cf. \u201ctu a for\u00e7a animal a conduzir o sol\u201d), mas n\u00e3o \u00e9 <em>forma <\/em>po\u00e9tica e muito menos \u00e9 <em>entendimento<\/em>, j\u00e1 que \u201co amor caminha cego \/ \u00e9 um perdido \/\/ n\u00e3o sabe caminhos \/ nem mapas\u201d. Regressemos em pedido de socorro a \u201cThe Hollow Men\u201d: \u201cShape without form, shade without colour \/ Paralysed force, gesture without motion\u201d. <a href=\"#_ftn3\">[3]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>A experi\u00eancia por que passa o poeta l\u00edrico ao enfrentar o amor como forma de desconhecimento \u00e9 semelhante \u00e0 perda da b\u00fassola por parte do capit\u00e3o do navio. Sem a seguran\u00e7a dos mapas e dos caminhos de h\u00e1 muito tra\u00e7ados e palmilhados pelos antigos aventureiros da linguagem, a informa\u00e7\u00e3o dada pelo instrumento n\u00e1utico se torna infecunda. H\u00e1 que se arriscar em novas e audaciosas perambula\u00e7\u00f5es, a esmo. O amor como forma de desconhecimento \u00e9 mat\u00e9ria da desorienta\u00e7\u00e3o em busca de oriente. Desde o <em>Livro das Encanta\u00e7\u00f5es<\/em> (2005), Ana Malfada Leite insinua: Que o ocidente se oriente! O jogo de palavras nos faz lembrar n\u00e3o s\u00f3 da can\u00e7\u00e3o de Gilberto Gil (\u201cSe oriente, rapaz\u201d) como tamb\u00e9m de parte da poesia ocidental no momento da descoberta californiana do Oriente (a de Gary Snyder, por exemplo) e, ainda, os poemas de Ana Mafalda banhados pelo oceano \u00cdndico, que costeia a Mo\u00e7ambique de fala cultural predominantemente atl\u00e2ntica. <a href=\"#_ftn4\">[4]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Releiamos os versos que vimos lendo passo a passo. S\u00e3o os finais do poema de abertura de <em>O amor essa forma de desconhecimento<\/em>:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><\/p><cite>amor n\u00e3o est\u00e1 aqu\u00e9m<br>n\u00e3o est\u00e1 al\u00e9m<br>sobra<br>est\u00e1 de fora<br>em ex\u00edlio<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00e9 estrangeiro<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00e9 estranho<br>fora de ti<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 o amor caminha cego<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00e9 um perdido<br>n\u00e3o sabe caminhos<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 nem mapas<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Fora de ti, o amor se semantiza nas leituras do pr\u00f3prio poeta, ou seja, em textos po\u00e9ticos alheios que ser\u00e3o devidamente domesticados pela pele de tigre, de que valer\u00e1 Ana Mafalda em seu novo livro. Voltemos ao poema de abertura:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><\/p><cite>Nas tuas m\u00e3os se lembra<br>Por isso escreves<br>N\u00e3o \u00e9 dom<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 d\u00e1diva que recebes<br>Agora que me ouves<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ao ouvir<br>O mundo<br>Um livro se abre<br>P\u00e1gina a p\u00e1gina o vento o escreve e dita<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A pergunta sobre o que seja o amor como forma de desconhecimento \u2013 e a resposta correspondente \u2013 est\u00e3o entre par\u00eanteses em outro poema do livro e, pelo vi\u00e9s da met\u00e1fora selecionada pelo poeta, atestam a favor da mulher como objeto do desejo masculino:<\/p>\n\n\n\n<p>(o amor? essa evid\u00eancia da m\u00e3o brotando rosas de fogo&#8230;).<\/p>\n\n\n\n<p>Em termos de leitura, ou de erudi\u00e7\u00e3o, h\u00e1 uma <em>evid\u00eancia<\/em> po\u00e9tica incontorn\u00e1vel &#8211; da m\u00e3o que escreve o amor em letra masculina brotar\u00e3o rosas de fogo, \u201crosasderosas\u201d. N\u00e3o h\u00e1, pois, como n\u00e3o ter como primeira pedra no meio do caminho \u2013 isto \u00e9, n\u00e3o h\u00e1 como n\u00e3o repetir em O amor essa forma de <em>desconhecimento<\/em> &#8211; o poema greco-latino de Ricardo Reis: \u201cAs rosas amo do jardim de Ad\u00f4nis\u201d. Do amor que se l\u00ea e que Ricardo Reis <em>re-escreve<\/em> se diz que ele, o amor, como as rosas do jardim de Ad\u00f4nis, vive o espa\u00e7o duma manh\u00e3. <a href=\"#_ftn5\">[5]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Do poema de Ricardo Reis, Ana Mafalda retira a ep\u00edgrafe de poema seu, que lhe cai como pele de tigre: \u201cessas volucres, L\u00eddia, rosas&#8230;\u201d. O poema de Ana Mafalda enfatiza o adjetivo <em>volucres<\/em>, ef\u00eameras, e determina com precis\u00e3o L\u00eddia como interlocutora do poeta\/homem, at\u00e9 porque em L\u00ed<em>dia<\/em> j\u00e1 est\u00e1 inscrito o \u201cdia\u201d, espa\u00e7o temporal em que vivem as rosas.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a tradi\u00e7\u00e3o e Ricardo Reis &#8211; este esp\u00e9cie de pele de tigre do lobo Fernando Pessoa -, se muito se sabe do <em>dia<\/em> das rosas, nada se sabe de seu lado noturno: \u201cque em o dia em que nascem, \/ em esse dia morrem \/ a luz para elas \u00e9 eterna, porque \/ nascem nascido j\u00e1 o sol, e acabam \/ antes que Apolo deixe o seu curso vis\u00edvel\u201d. A favor do poeta\/homem, o amor tem batalhado pela beleza feminina (da\u00ed a imagem-clich\u00ea da ess\u00eancia das <em>rosas<\/em> &#8211; a beleza) e contra o imp\u00e9rio da noite em seu percurso-guilhotina pelo mundo. Para as rosas, isto \u00e9, para a jovem e bela mulher enquanto objeto do amor masculino, a noite \u00e9 morte e, ao findar na aurora seguinte, \u00e9 possibilidade de ressurrei\u00e7\u00e3o. H\u00e1 noite antes e ap\u00f3s o existir das <em>rosas<\/em>, h\u00e1 morte antes e ap\u00f3s o nascimento do <em>amor<\/em>, h\u00e1 noite antes e ap\u00f3s o existir do amor para a mulher, se objeto do homem. Floresc\u00eancia e assassinato \u2013 <em>Achtung<\/em>! Que as rosas sejam precavidas e atrevidas! <em>Seize <\/em><em>the Day<\/em> \u2013 como diz o t\u00f3pos em ingl\u00eas, a ser endossado pela mulher voluptuosa e vol\u00favel, que se torna aberra\u00e7\u00e3o do t\u00f3pos.<\/p>\n\n\n\n<p>No espa\u00e7o de tempo do <em>durante<\/em> (perdurante o dia) \u2013 masculina \u00e9 a luz sob o signo de Apolo e eterna o \u00e9 sob o signo de Ad\u00f4nis. A beleza feminina, no entanto, \u00e9 ef\u00eamera, pass\u00edvel de ser eliminada pela guilhotina criminosa e m\u00e1scula da noite. Ela dura e perdura na perda intermitente do olhar masculino, isto \u00e9, ela s\u00f3 perdura enquanto houver a possibilidade do retorno da luz (\u201ctu a for\u00e7a animal a conduzir o sol\u201d). Se a intermit\u00eancia situa a mulher (<em>as rosas rubras do jardim de Ad\u00f4nis<\/em>) na plenitude de cada <em>durante<\/em>, ela tamb\u00e9m ativa \u2013 pela negatividade &#8211; o lado escuro e obscuro do amor que <em>\u00e9<\/em> de mulher. Da perspectiva masculina, o amor tem a forma e a cor dadas pelo sol (Apolo). A face escura do amor, face obscura, s\u00f3 \u00e9 palp\u00e1vel, palmilh\u00e1vel, pelos olhos femininos que perscrutam em v\u00e3o o universo ao \u201cluar da terra<em>\u201d<\/em> \u2013 ao <em>clair de terre<\/em>, como escreveu Andr\u00e9 Breton, brincando com o <em>clair de lune<\/em> simbolista.<\/p>\n\n\n\n<p>No livro que se abre, o t\u00f3pos \u00e9, pois, cl\u00e1ssico (<em>colligo rosae<\/em>). N\u00e3o haveria por que Ana Mafalda repeti-lo \u00e0 moda de Ricardo Reis, a n\u00e3o ser pelo lado <em>obsessivo<\/em> da linguagem po\u00e9tica feminina, que recha\u00e7a a f\u00f4rma latina e autorit\u00e1ria de justapor voc\u00e1bulos na frase. Recha\u00e7a a sintaxe latina e as alus\u00f5es cl\u00e1ssicas para acatar e trabalhar a alitera\u00e7\u00e3o \u2013 vale dizer, a repeti\u00e7\u00e3o <em>desrespeitosamente <\/em>feminina do c\u00e2none &#8211; como estrat\u00e9gia po\u00e9tica que acentua\/resolve o enigma da retomada do amor como experi\u00eancia da noite (ou do obscurecimento do sol, Ad\u00f4nis).<\/p>\n\n\n\n<p>No poema de Ana Mafalda, as letras V e L se esgueiram atrav\u00e9s do adjetivo <em>volucres<\/em> e do nome de <em>L\u00eddia<\/em> e rezam uma ladainha pag\u00e3, sem fim, mas que pouco arreda o p\u00e9 do que a ep\u00edgrafe e o poema de Ricardo Reis reclamam como modo de re-circula\u00e7\u00e3o do amor na poesia lus\u00f3fona. A forma <em>rosas<\/em>, as rosas se tornam <em>doentias<\/em> \u2013 se me permitem o exagero &#8211; \u201ccontagiantes<em>\u201d<\/em> e \u201ccontaminosas<em>\u201d<\/em>. Leiamos:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><\/p><cite>volucres vol\u00fateis<br>voluptuosas rosas<br>l\u00fabricas lucilantes<br>luc\u00edfluas luminescentes<br>[&#8230;]<br>luc\u00edvagas vagam<br>vogam lucentes<br>as rosas iluminadas<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>As rosas, que foram colhidas no jardim de Ad\u00f4nis, passam a ser <em>iluminadas<\/em> \u2013 \u00e0 semelhan\u00e7a da lua ou das estrelas &#8211; pela alitera\u00e7\u00e3o de V e de L, obsessiva, que percorre, semanticamente, toda uma gama de aprecia\u00e7\u00f5es do <em>amor<\/em>, que o leitor ter\u00e1 de descodificar a partir da leitura atenta de cada voc\u00e1bulo aliterado.<\/p>\n\n\n\n<p>Pelo jogo V\/L, como n\u00e3o se lembrar da defini\u00e7\u00e3o de Roland Barthes, em <em>S\/Z<\/em>, do que seja uma obra de arte cl\u00e1ssica (ainda) pass\u00edvel de ser re-escrita. Pergunta ele \u2013 e Ana Mafalda: \u201cquais s\u00e3o os textos que eu aceitaria escrever (re-escrever), desejar, impor como uma for\u00e7a nesse mundo que \u00e9 o meu?\u201d Pelo vi\u00e9s da tradi\u00e7\u00e3o lusitana, Ana Mafalda re-escreve o poema re-escrito de Ricardo Reis faz parte. Pelo vi\u00e9s da contemporaneidade (des)compromissada com a no\u00e7\u00e3o de g\u00eanero (<em>gender<\/em>), o outro poema que Ana Mafalda re-escreve est\u00e1 assinado pelo poeta ingl\u00eas W. H. Auden.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Bye bye<\/em> Ad\u00f4nis e Apolo. As rosas e o amor passam a ser <em>iluminados<\/em> pela noite, pela lua, pelo <em>clair de terre<\/em> \u2013 \u201cgosto do cair da tardenoite\u201d, \u201ceu procuro ainda o princ\u00edpio da noite\u201d, \u201cgosto de me cobrir da noite \/ e lenta espalhar\/ a luz da minha lua crescente\u201d, \u201cincandesce a lua\u201d, \u201ca noite cobre-me \/ lenta em seu len\u00e7ol de murm\u00farios\u201d:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><\/p><cite>O que olhava tinha a face do amor<br>Face intoc\u00e1vel e presente lua nova lua cheia<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O segundo dos textos que convida Ana Mafalda \u00e0 re-escritura, o de Auden, \u00e9 alheio \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o neolatina e se escreveu originalmente nos meandros anglo-sax\u00f4nicos da dic\u00e7\u00e3o cotidiana, <em>low profile<\/em>, elementar, palp\u00e1vel por um e todos, dic\u00e7\u00e3o reverenciada por Jacques Pr\u00e9vert em seus poemas cantados e falados e pelos poetas modernistas brasileiros na fase 1920\/1940, poemas bem humorados e iconoclastas. <a href=\"#_ftn6\">[6]<\/a> Estamos nos referindo ao poema \u201cO tell me the truth about Love\u201d, que \u2013 pelos versos \u201cSome say that love\u2019s a little boy \/ And some say it\u2019s a bird\u201d, em ep\u00edgrafe ao texto de Ana Mafalda, &#8211; inaugura os 27 poemas que, juntos, comp\u00f5em a parte da cole\u00e7\u00e3o de poemas obrigatoriamente intitulada \u201cEstrangeira condi\u00e7\u00e3o\u201d. Leiam-se os dois primeiros versos do poema 8: \u201cEstrangeira condi\u00e7\u00e3o \/ diz Ela\u201d.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><\/p><cite>junto a ti amor invento uma p\u00e1tria<br>e n\u00e3o tem nenhuma l\u00edngua porque as tem a todas.<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O segundo jogo intertextual proposto por <em>O amor essa forma de desconhecimento <\/em>\u00e9 interling\u00fc\u00edstico &#8211; \u201cn\u00e3o tem nenhuma l\u00edngua porque as tem todas\u201d. Deste poema, salta \u00e0 vista na ep\u00edgrafe escolhida por Ana Mafalda uma not\u00e1vel <em>aquisi\u00e7\u00e3o<\/em> para a l\u00edngua portuguesa e para os poemas at\u00e9 ent\u00e3o escritos pela autora. Refiro-me ao pronome <em>it<\/em>. Usado como sujeito de verbo, o pronome <em>it<\/em> \u2013 segundo a <em>Enciclop\u00e9dia Brit\u00e2nica<\/em> &#8211; \u00e9 empregado em refer\u00eancia a algo sem vida (uma casa), a uma planta (uma roseira), a um animal (um gato) ou a uma pessoa cujo sexo \u00e9 desconhecido ou desconsiderado (<em>don\u2019t know who it is<\/em>), ou a uma entidade abstrata (a beleza, ou o amor).<\/p>\n\n\n\n<p>No jogo interling\u00fc\u00edstico, tudo se conjuga para que a domin\u00e2ncia do que signifique o amor e a beleza \u2013 e outras abstra\u00e7\u00f5es &#8211; seja recoberta pelo pronome <em>it<\/em>, que v\u00e1rias vezes se intromete na constru\u00e7\u00e3o do longo poema de Ana Mafalda, a lembrar, na condi\u00e7\u00e3o de sucessivas cita\u00e7\u00f5es de Auden, de sua exist\u00eancia inapel\u00e1vel em todas as l\u00ednguas. A domin\u00e2ncia do pronome ingl\u00eas obriga Ana Mafalda a explicitar \u2013 em portugu\u00eas &#8211; os pronomes sujeitos da l\u00edngua de Ricardo Reis, no momento de suas responsabilidades. N\u00e3o \u00e9 estranho, pois, que os pronomes sujeitos apare\u00e7am na p\u00e1gina po\u00e9tica lus\u00f3fona com definida marca de <em>g\u00eanero<\/em>: Ele e Ela. <a href=\"#_ftn7\">[7]<\/a> Em ingl\u00eas, <em>it<\/em>: \u201cI looked inside the Summer-house \/ It [o amor] wasn\u2019t there\u201d (Auden). O amor (<em>it<\/em>) depende do est\u00e1gio do corpo em lit\u00edgio com o corpo desafiante. N\u00e3o h\u00e1 pedras marcadas pela tradi\u00e7\u00e3o po\u00e9tica (\u201cn\u00e3o h\u00e1 mem\u00f3ria que recorde\u201d), ou se as houver, elas ser\u00e3o imediatamente classificadas pela fala respectiva (des)compromissada com o <em>g\u00eanero<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><\/p><cite>Diz Ele [&#8230;]<br>Algures no tempo Ela, a voz dizia [&#8230;]<br>diz Ele<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ou diz Ela [&#8230;]<br>Diz Ele<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ou Ela? [&#8230;]<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>E assim <em>ad infinitum<\/em>. Nos 27 poemas, as marcas de <em>g\u00eanero<\/em> s\u00e3o precisas e o leitor ter\u00e1 de acompanh\u00e1-las por todo o longo percurso para o melhor entendimento da originalidade po\u00e9tica de Ana Mafalda.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 porque interceder a favor de um (Ele) ou da outra (Ela), de uma (Ela) ou do outro (Ele), n\u00e3o h\u00e1 porque interceder a favor do <em>it<\/em>. Nesse momento da escrita po\u00e9tica interling\u00fc\u00edstica, tudo se passa num equilibrado tabuleiro de xadrez verbal. No lit\u00edgio corporal que acontece na p\u00e1gina, os voc\u00e1bulos t\u00eam gosto e t\u00eam sust\u00e2ncia, embora cada palavra, cada pedra em jogo n\u00e3o tenha \u2013 em si &#8211; a pr\u00f3pria ess\u00eancia discern\u00edvel pela intelig\u00eancia. Pelo uso obsessivo do verbo <em>dizer<\/em>, h\u00e1 um tagarelar do Ele e do Ela, que perpassa distintamente as figuras do <em>it<\/em>, colorindo-o, multicolorindo-o lusofonicamente. (\u201cpreciso de uma terra onde pernoitar as cores que tanto exclamam\u201d). O amor sabe a, sem saber se sabe se.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><\/p><cite>gosto de ti e tu n\u00e3o sabes<br>gostei de um outro e ele n\u00e3o soube<br>gostei gostei<br>e agora lembro que talvez esse gosto n\u00e3o fosse verdade.<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>\u201cNesta cegueira de n\u00e3o ser\u201d, no gostar que talvez n\u00e3o seja verdade, o amor sacia, \u00e9 apetitoso e \u00e9 aliment\u00edcio, embora a nenhum caminho leve, a n\u00e3o ser \u00e0s n\u00fapcias do prazer, onde se oferecem ao paladar a comida que martiriza os sentidos em rebeldia ao modo opressivo da imagina\u00e7\u00e3o incandescente, que a tudo indaga. \u201cOh tell me the truth about Love\u201d.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><\/p><cite>quem sabe? vou achar conchas ressoando<br>aquilo de que n\u00e3o sei o nome<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Embora vision\u00e1rio, o amor n\u00e3o \u00e9 vis\u00e3o: \u201co caminho sem rumo \/ secreta magia\u201d. \u00c9 tato, \u00e9 olfato, \u00e9 audi\u00e7\u00e3o, \u00e9 paladar \u00e0 espreita. Movimento, volteio, cor, sensualidade, \u00eaxtase. Associado ao <em>it<\/em>, o amor se desanda (precipita-se impetuosamente) feminina e masculinamente no verbo <em>amar<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><\/p><cite>\u00e9 pelo infinitivo presente que se chega ao verbo amar<br>diz Ele quando lembra outra coisa<br>para al\u00e9m do nome<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O substantivo <em>amor<\/em> &#8211; at\u00e9 ent\u00e3o designado pelo <em>it<\/em> &#8211; perde o contorno rigoroso da distin\u00e7\u00e3o por <em>g\u00eanero<\/em>, se abstratiza ainda mais no infinitivo presente, que traz em si \u2013 apenas como possibilidade &#8211; ser <em>conjugado<\/em> em diferentes modos, tempos, pessoas e formas nominais.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><\/p><cite>\u00e9 talvez lugar de sonho<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>amar<\/p>\n\n\n\n<p>Resta \u00e0 Ela e ao infinitivo presente do verbo <em>amar<\/em> (apenas) o consolo companheiro de um adv\u00e9rbio (<em>sempre<\/em>, por exemplo), que far\u00e1 o <em>amar<\/em> perdurar num universo noturno, escuro e obscuro, destitu\u00eddo de todas as amarras circunstanciais que lhe foram, s\u00e3o e ser\u00e3o impostas pelas flores da ret\u00f3rica masculina. A forma de desconhecimento do amor se escreve pelo infinitivo presente do verbo <em>amar<\/em>, que se <em>anima<\/em> do adv\u00e9rbio <em>sempre<\/em> e da <em>eternidade<\/em> (beleza) dita pela Mulher.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><\/p><cite>devagar reflicto<br>no verbo e no tempo<br>e n\u00e3o sei em que tempo me conjugar<br>ser\u00e1 que o esp\u00edrito se anima de um adv\u00e9rbio<br>sempre?<br>amar \u00e9 estar sempre em todos os tempos?<br>assim escrevendo o verbo amar se anima da minha eternidade<br>diz Ela<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p><strong>Silviano Santiago, Mar\u00e7o 2009<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> \u201cAcreditamos saber alguma coisa das pr\u00f3prias coisas quando falamos de \u00e1rvores, de cores, de neve e de flores e, no entanto, apenas possu\u00edmos met\u00e1foras das coisas, que n\u00e3o correspondem de modo algum \u00e0s entidades originais\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> Na tradu\u00e7\u00e3o de Ivan Junqueira: \u201cQue eu possa trajar ainda \/ Esses t\u00e1citos disfarces \/ Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas \/ E comportar-me num campo \/ Como o vento se comporta\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a> \u201cF\u00f4rma sem forma, sombra sem cor, \/ For\u00e7a paralisada, gesto sem vigor\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\">[4]<\/a> A respeito do <em>Livro das Encanta\u00e7\u00f5es<\/em>, escrevi: \u201cOs poemas de Ana Mafalda Leite nos convidam a costear o continente africano pela banda oriental, a fim de desbravar o \u2018\u00edndico interior\u2019 daquela que se cala ao ser inquirida se europ\u00e9ia ou se africana. Silencia-se diante da sali\u00eancia alheia porque h\u00e1 muito adotou como p\u00e1tria a \u2018l\u00edngua b\u00edfida e em fogo\u2019, esta que \u2018acasala seres bifrontes, monstros de um hermes ap\u00e1trida\u2019\u201d. <em>Jornal do Brasil<\/em>, \u201cSuplemento Id\u00e9ias\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\">[5]<\/a> Alus\u00e3o, por sua vez, aos conhecidos versos de Fran\u00e7ois de Malherbe e assim infinitamente: \u201cEt Rose elle a v\u00e9cu ce que vivent les Roses, \/ L\u2019espace d\u2019un matin\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\">[6]<\/a> Apenas a t\u00edtulo de lembran\u00e7a cite-se o curt\u00edssimo poema de Oswald de Andrade: \u201cAmor \/ humor\u201d (<em>Primeiro caderno do alumno de poesia Oswald de Andrade<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\">[7]<\/a> Tanto o pronome masculino quanto o feminino, quando se referem a seres humanos, aparecem sempre em mai\u00fascula no texto. Et pour cause&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pref\u00e1cio de Silviano Santiago ao Livro O Amor essa forma de desconhecimento, de Ana Mafalda Leite. Enganam-se as po\u00e9ticas cl\u00e1ssicas quando nos levam a crer que o poeta, gra\u00e7as \u00e0s m\u00faltiplas e inesgot\u00e1veis flores da ret\u00f3rica, concretiza para o ouvinte ou leitor sentimentos e emo\u00e7\u00f5es que esclarecem e iluminam abstra\u00e7\u00f5es, cujo significado ati\u00e7a a imagina\u00e7\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1229"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1229"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1229\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1230,"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1229\/revisions\/1230"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1229"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}