{"id":1215,"date":"2021-06-29T12:32:27","date_gmt":"2021-06-29T12:32:27","guid":{"rendered":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/?page_id=1215"},"modified":"2021-06-29T13:02:58","modified_gmt":"2021-06-29T13:02:58","slug":"espelhos-e-mapas-a-poesia-em-itinerancia","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/espelhos-e-mapas-a-poesia-em-itinerancia\/","title":{"rendered":"Espelhos e mapas: a poesia em itiner\u00e2ncia"},"content":{"rendered":"\n<h4><strong>Sara Jona Laisse<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p><strong>Resumo:<\/strong> Com este texto pretendo contribuir com a constru\u00e7\u00e3o de linhas de significa\u00e7\u00e3o etnogr\u00e1ficas culturais, hist\u00f3ricas e antropol\u00f3gicas que podem ser interpretados a partir dos s\u00edmbolos representados na obra <em>Outras Fronteiras Fragmentos de Narrativas<\/em>, de Ana Mafalda Leite.&nbsp; A base te\u00f3rica desse exerc\u00edcio centra-se no preconizado por Moxey (1994), que defende a liberdade que o leitor tem de, mesmo reconhecendo que a linguagem codificada numa obra de arte \u00e9 uma mimesis da realidade e n\u00e3o a pr\u00f3pria realidade, poder apontar abertamente significados criados em fun\u00e7\u00e3o das suas expectativas sociais e pol\u00edticas, num processo de desconstru\u00e7\u00e3o da obra em an\u00e1lise.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong> na\u00e7\u00e3o, texto etnogr\u00e1fico, itiner\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<h3>Breves notas biogr\u00e1ficas sobre a autora<\/h3>\n\n\n\n<p>Ana Mafalda Leite nasceu em Portugal e cresceu em Mo\u00e7ambique. A sua publica\u00e7\u00e3o \u00e9 vasta e, para os prop\u00f3sitos deste trabalho, irei apenas deter-me na sua obra liter\u00e1ria, da qual destaco: <em>Em sombra acesa <\/em>(1984); <em>Can\u00e7\u00f5es de alba <\/em>(1989); <em>Mariscando luas <\/em>\u2013 em colabora\u00e7\u00e3o com Lu\u00eds Carlos Patraquim e Roberto Chichorro (1992); <em>Rosas da China <\/em>(1999); <em>Passaporte do cora\u00e7\u00e3o <\/em>(2002); <em>Livro das encanta\u00e7\u00f5es <\/em>(2005); <em>O amor essa forma de desconhecimento <\/em>(2010); <em>Livro das encanta\u00e7\u00f5es, Antologia<\/em>:1984-2005 (2010) e <em>Outras fronteiras: fragmentos de narrativas<\/em>, primeiro editado pela Kapulana no Brasil (2017), e em 2019 pela Cavalo do Mar, em Maputo. \u00c9 por causa destas obras e outras produzidas para enaltecer a literatura, para al\u00e9m do seu trabalho human\u00edstico, que a autora recebeu o pr\u00e9mio \u201cFemina Lusofonia de Literatura\u201d, edi\u00e7\u00e3o de 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda relativamente aos dados pessoais sobre Ana Mafalda, permito-me falar sobre a ambiguidade relativa \u00e0 nacionalidade da autora que, por vezes, tem sido questionada. Devo dizer que cientificamente a quest\u00e3o da nacionalidade \u00e9 indiscut\u00edvel, se nos ativermos aos pressupostos de defini\u00e7\u00e3o de na\u00e7\u00e3o secundados por Gra\u00e7a (2005), em refer\u00eancia a Fichte que na sua obra <em>Discursos \u00e0 Na\u00e7\u00e3o Alem\u00e3 <\/em>(1808), define este conceito utilizando dados objectivos e Renan, na sua obra <em>O Que \u00e9 a Na\u00e7\u00e3o? <\/em>(1882), define na\u00e7\u00e3o, com recurso a quest\u00f5es subjectivas. O primeiro segmento, o objectivo, que \u00e9 sobejamente conhecido por todos n\u00f3s e que considera o nativo de uma na\u00e7\u00e3o, aquele que nasceu num determinado espa\u00e7o geo-pol\u00edtico, \u00e9 portador do Bilhete de Identidade desse espa\u00e7o, no qual tamb\u00e9m cumpre com obriga\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. O segundo segmento, o subjectivo, defende que um cidad\u00e3o pode escolher, com recurso a determinada afinidade, sentir-se nativo de um certo lugar, e agir como algu\u00e9m desse ambiente.<\/p>\n\n\n\n<p>Tal como Jo\u00e3o Paulo Borges Coelho, escritor mo\u00e7ambicano, n\u00e3o discute a sua nacionalidade, eu n\u00e3o discuto a de Ana Mafalda; lembrando ainda que muitos mo\u00e7ambicanos, nascidos na \u00c1frica do Sul ou na Tanz\u00e2nia e que, por viverem em Mo\u00e7ambique, t\u00eam que se identificar como mo\u00e7ambicanos, muitas das vezes, v\u00eaem-se na ambiguidade de se assumirem como perten\u00e7a do local no qual nasceram, por motivos t\u00e3o fortes quanto o facto de terem o n\u00facleo familiar ou os antepassados do outro lado da fronteira, portanto, nesses pa\u00edses \u201cestrangeiros\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Lendo este \u00faltimo livro de poemas de Ana Mafalda, deparamo-nos com enigmas, chamo-lhes assim, porque \u00e9 preciso estar-se atento para entender o sujeito po\u00e9tico num texto que utiliza m\u00e1scaras, imagens ou fantasia para passar a sua mensagem. Existem, nesta obra em an\u00e1lise, muitos tr\u00e2nsitos, tanto temporais quanto hist\u00f3rico-geogr\u00e1ficos e culturais. H\u00e1 muitas fronteiras por ultrapassar e a reflectir, entre as quais, quem n\u00e3o tem passaporte n\u00e3o as transp\u00f5e. Refiro-me especialmente aos c\u00f3digos culturais e hist\u00f3ricos ligados ao <em>nyau, <\/em>representados por Ana Mafalda neste livro e que devem ser lidos \u00e0 luz de conhecimento hist\u00f3rico-antropol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p>Tratarei ent\u00e3o de derivar sentidos ou conceber uma rede deles, lembrando Barthes (1966:43-70); para isso, irei socorrer-me dos quatro momentos que comp\u00f5em o&nbsp; livro, a saber: \u201cComo se a manh\u00e3 do tempo despertasse\u201d; \u201cPoemas de Moatize\u201d; \u201cOutras fronteiras: fragmentos de narrativas\u201d e \u201co \u00cdndico em Marrakesh\u201d. Assim para estudar cada uma das partes vou organizar e desenvolver o meu texto em quatro partes\/ t\u00edtulos que sistematizam o conte\u00fado de&nbsp; cada&nbsp; uma&nbsp; delas,&nbsp; nomeadamente&nbsp; 1)&nbsp; Espelhos&nbsp; e&nbsp; mapas:&nbsp; questionamentos&nbsp; e&nbsp; revela\u00e7\u00f5es; 2) M\u00e1scaras, mem\u00f3rias e sonhos: da inf\u00e2ncia e da Humanidade; 3) Mapas e viagens: Hist\u00f3ria e Antropologia; 4) Viagens e itiner\u00e2ncia: sonhos e tratados er\u00f3ticos.<\/p>\n\n\n\n<h4>Espelhos e mapas: questionamentos e revela\u00e7\u00f5es<\/h4>\n\n\n\n<p>O livro come\u00e7a com o poema \u201cComo se a manh\u00e3 do tempo despertasse\u201d, em que h\u00e1&nbsp;&nbsp; um sujeito po\u00e9tico que indaga e procura: <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><\/p><cite>Saberei porventura os lugares de onde fala esta voz? Os\/ enigm\u00e1ticos espelhos de (onde se olha)? (p.13)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m da pergunta em si, h\u00e1 um s\u00edmbolo, neste verso, <em>o espelho, <\/em>que inevitavelmente transporta consigo significa\u00e7\u00f5es sobre identidade, auto-conhecimento, imagem de si. No mesmo poema, podem ser encontrados<\/p>\n\n\n\n<p>mais s\u00edmbolos com um sentido similar, nomeadamente: <em>sonho, cegueira, surpresa, <\/em>propondo-se talvez o sujeito dramatizar a no\u00e7\u00e3o do ser, num desdobramento de si como personagem: <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><\/p><cite>pareces uma paisagem com uma janela dentro, <em>contas<\/em>&#8230; (p.13)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, s\u00e3o referidas partes do corpo humano no poema, com o prop\u00f3sito de despertar sensa\u00e7\u00f5es. S\u00e3o elas: os olhos, o nariz, as m\u00e3os, a boca e o cora\u00e7\u00e3o. Estas partes do corpo s\u00e3o algumas vezes representadas pelos respectivos sentidos: vis\u00e3o, olfacto, tacto, paladar; quando n\u00e3o mencionados objectivamente, s\u00e3o transmitidos por imagens que os substituem, tal como no verso <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><\/p><cite>pelo ar corre uma secreta \u00e2nsia<br>talvez de <br><em>beber <\/em>inteira, (os it\u00e1licos s\u00e3o meus) (p.13).<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>No segundo poema, a dimens\u00e3o interrogativa continua e sugere algumas das revela\u00e7\u00f5es do <em>espelho<\/em>. Al\u00e9m de ser apresentado como algo que nos questiona, \u00e9 colocado <em>como revelador<\/em>, atrav\u00e9s do recurso a cores e a luzes:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><\/p><cite>v\u00eas? Estendo aqui a paisagem. Para que v\u00e1s comigo at\u00e9 l\u00e1,<br>f\u00e1tuo inc\u00eandio astrol\u00e1bio<br>breve passagem<br>\u00e9 uma janela que se abre<br> em fogo queimada ao longe ardendo<br>noite cheia de estrelas iluminada noite acesa<br>obscuro mundo festa<br>(LEITE, 2019, p.17-18)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>H\u00e1 imagens de uma esp\u00e9cie de cenografia ou palco, em que uma janela \u00e9 poeticamente a abertura para a nova paisagem, que se d\u00e1 a ver e que se faz ouvir, ou que permite a entrada em espa\u00e7os outros, que se iluminam e acendem. \u00c9 a mesma voz aludida no poema anterior e que neste come\u00e7a a ser revelada.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o estando explicitamente presente o espelho, no terceiro poema, h\u00e1 imagens e temas que o representam, ao apresentar-se o conhecimento inicial das cores, o nascimento da vis\u00e3o&nbsp; e dos tr\u00e2mites que irizam as paisagens da inf\u00e2ncia. Assim, surge um tratado de cores e leia-se nesta linha de pensamento as p\u00e1ginas 19 e 20 <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><\/p><cite>newton escreveu Que a luz<br>consiste em pequeninas partes de mat\u00e9ria que saem de um<br>corpo l\u00facido em todas as direc\u00e7\u00f5es [&#8230;];<br>[&#8230;] caem os raios da luz maior \u00e9 a<br>refrac\u00e7\u00e3o.<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Estas passagens refor\u00e7am, no fundo, a fun\u00e7\u00e3o de revela\u00e7\u00e3o e de auto-revela\u00e7\u00e3o do sujeito e do espa\u00e7o, a que me referi anteriormente.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m, nesta primeira parte do livro, imagens do planeta azul e da ozonosfera com as suas diferentes cores luminosas, incluindo o preto do buraco negro, um conhecimento que surge da inf\u00e2ncia, em que a paisagem se torna escola e sonho. H\u00e1 viagens e tr\u00e2nsitos entre o c\u00e9u, a terra e as minas de Moatize, que nos permitem reflectir sobre a forma\u00e7\u00e3o das cores, com \u00eanfase no azul e a alus\u00e3o a Newton, por ter sido ele quem descobriu o espectro vis\u00edvel. Leiam-se ainda os seguintes versos no poema \u201cEstudando o mapa estelar em Moatize no princ\u00edpio fomos todos azuis\u201d, (p.22), diz-se:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><\/p><cite>o Virg\u00edlio dizia negra azul eu digo somos todos azuis<br>mas interessa saber a cor do universo?<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A refer\u00eancia ao t\u00edtulo do poeta Virg\u00edlio de Lemos, parodiza as distin\u00e7\u00f5es demasiado plenas, subvertendo o esquematismo das diferen\u00e7as das cores, e porventura tamb\u00e9m raciais, e apela \u00e0 iriza\u00e7\u00e3o do olhar enquanto diferen\u00e7a e amplitude cultural.<\/p>\n\n\n\n<p>No poema \u201cEstudando o mapa estelar em Moatize: no princ\u00edpio fomos azuis\u201d, n\u00e3o estando claramente mencionado o espelho, encontramos um derivativo com similares fun\u00e7\u00f5es, <em>o mapa, <\/em>que orienta, situa, guia, revela, mostra, ou integra a imagem\/identidade no espa\u00e7o. A t\u00f3nica dos poemas que se seguem \u00e9 a mesma, a do interrogar e a do revelar, h\u00e1 lexemas e express\u00f5es indicadoras desse processo de revela\u00e7\u00e3o entre sujeito e espa\u00e7o, e embora haja a refer\u00eancia \u00e0 noite, ela surge iluminado-se, e as palavras e express\u00f5es de for\u00e7a, nesses versos, s\u00e3o os que convidam ao despertar e \u00e0 vis\u00e3o\/ revela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h4>M\u00e1scaras, mem\u00f3rias e sonhos: da inf\u00e2ncia e da Humanidade<\/h4>\n\n\n\n<p>O segundo momento deste livro socorre-se do recurso \u00e0 mem\u00f3ria. H\u00e1 tentame de reconstitui\u00e7\u00e3o da inf\u00e2ncia e de mitos de origem da Humanidade. Em \u201cPoemas de Moatize\u201d encontramos um sujeito po\u00e9tico que, continua a questionar a origem, mas, desta feita, pretende ser guiado em parte pela mem\u00f3ria. H\u00e1 representa\u00e7\u00f5es da sua inf\u00e2ncia matriz, desse espa\u00e7o identit\u00e1rio (procurado nas cenografias do espelho em muta\u00e7\u00e3o) em revela\u00e7\u00e3o\/vis\u00e3o. H\u00e1 tamb\u00e9m imagens desfocadas por recuperar, da\u00ed afirmarmos que h\u00e1 um recurso \u00e0 mem\u00f3ria. Os dados observados s\u00e3o fragmentados, tal como a narrativa que os \u201cconta\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Sen\u00e3o vejamos: no primeiro poema, \u201cMoatize: onde tudo come\u00e7a\u201d, a origem, o g\u00eanesis pessoal \u00e9 afirmado, a\u00ed o sujeito po\u00e9tico d\u00e1 in\u00edcio a tudo aquilo em que ele se vai tornar; no segundo poema, \u201cMoatize: campo de t\u00e9nis\u201d h\u00e1 um sonho, uma imagem de movimento e tr\u00e2nsito simbolizadas pelo saltar da bola de t\u00e9nis: [\u2026] \u201cAi eu de um lado para o outro sou jogada\/Ai eu que me olho a ir e a vir [\u2026]\u201d (p.30); ainda no poema \u201cMoatize: casa sem n\u00famero ou inumer\u00e1vel casa\u201d h\u00e1 a confirma\u00e7\u00e3o de que esta parte do texto aborda a inf\u00e2ncia: \u201cmisturo tudo nesta inf\u00e2ncia sem tr\u00e9gua\u201d (p.31), permitindo-nos entender a interpenetra\u00e7\u00e3o dos fragmentos da mem\u00f3ria dessa inf\u00e2ncia, actualizada nos textos.<\/p>\n\n\n\n<p>O poema \u201cRio Moatize\u201d traz-nos imagens de uma sensa\u00e7\u00e3o que se tem, quando se \u00e9 crian\u00e7a, como correr ao lado de um rio ou de uma \u00e1rvore, fica-se com a percep\u00e7\u00e3o de que estes espa\u00e7os e paisagens correm \u00e0 medida que o sujeito corre, no entanto h\u00e1 a indica\u00e7\u00e3o da perman\u00eancia de alguns elementos como o imbondeiro e o da muta\u00e7\u00e3o e passagem como o do rio e do pr\u00f3prio sujeito. Veja-se o verso: [&#8230;] \u201cele e o crocodilo conhecem o sortil\u00e9gio do tempo\/ n\u00e3o correm como eu e o pequeno rio moatize\u201d (p.32). Na verdade, o apelo \u00e0 meninice come\u00e7a no agrupamento anterior, no qual o poema da p.25, intitulado \u201cEm Moatize um primeiro caderno: o livro dos azuis\u201d e o ritmo sugerido \u00e9 o de brincadeira de crian\u00e7as, pelo brincar experimental e l\u00fadico com as palavras e com as cores.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta \u00e9 a parte do texto que essencialmente representa o passado, n\u00e3o apenas do sujeito po\u00e9tico, relativamente a algo que tenha vivido, mas tamb\u00e9m o da Humanidade, leiam-se os versos que seguem dos poemas intitulados \u201cA lenda da cria\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cQuando o camale\u00e3o e deus deixaram a terra\u201d e \u201cPoemas do Nyau, a grande dan\u00e7a\u201d , p.33, 35 e 36, respectivamente que dizem: <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p> <\/p><cite>as rochas ainda mostram as antigas pegadas, uma cesta uma enxada e um pil\u00e3o<br>em harmonia sagrada [&#8230;]<br>O homem sentado brincou com as varetas<br>e delas surgiu o fogo&#8230;<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O apelo ao antanho e \u00e0 mem\u00f3ria s\u00e3o essencialmente met\u00e1fora de viagem pelo conhecimento cultural de uma mem\u00f3ria do lugar, e \u00e9 isso que a terceira parte do texto aborda, retoma-se&nbsp;o passado, acrescentando-se-lhe elementos que permitam a reconstitui\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria e da antropologia deste lugar matricial, vivenciado pelo sujeito po\u00e9tico.<\/p>\n\n\n\n<p>No que respeita \u00e0 Antropologia, por exemplo, o sujeito po\u00e9tico, recorre \u00e0 dramatiza\u00e7\u00e3o das falas das m\u00e1scaras, algumas das quais nos remetem \u00e0 discuss\u00e3o sobre uma sociedade igualit\u00e1ria, em termos de g\u00e9nero. H\u00e1, por exemplo, a refer\u00eancia ao <em>nyau<\/em>, que \u00e9, na vida real, uma dan\u00e7a de uma sociedade secreta de homens, que em 2005, foi elevada a Patrim\u00f3nio Cultural e Imaterial da Humanidade. \u00c9 uma dan\u00e7a feita com recurso a diferentes m\u00e1scaras. Os homens dan\u00e7am, por v\u00e1rias raz\u00f5es referidas em Manjate (2014, p.15-21), que refere que o <em>nyau <\/em>tem tr\u00eas aspectos que o explicam: a exibi\u00e7\u00e3o do poder pol\u00edtico, a fome e as brincadeiras infantis.<\/p>\n\n\n\n<p>No que se refere ao poder pol\u00edtico, esta dan\u00e7a \u00e9 considerada como a que se sup\u00f5e tenha surgido na altura da forma\u00e7\u00e3o do Estado Undi, por volta do s\u00e9c. XVI, com a supremacia dos Undi sobre os Kafula. Quanto \u00e0 quest\u00e3o da fome, o autor refere que ter\u00e1 sido a escassez de alimentos que criou uma cis\u00e3o na harmonia social entre as mulheres e os homens. Elas, que controlavam o poder pela comida, pedindo aos homens que fossem \u00e0 procura de alimentos. Eles, inspirando-se na lenda <em>kaphirintiwa<\/em>, faziam-se passar por animais, para assustarem as mulheres e terem o que comer. Encontramos na p\u00e1gina 36 uma representa\u00e7\u00e3o deste aspecto que vale a pena citar: <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><\/p><cite>dan\u00e7o a noite toda Venho assustar os dias Venho assustar as<br>mulheres Roubar-lhes a comida<br>elas fogem espavoridas chegaram os monstros, os esp\u00edritos dos animais, dos homens misturados<br>centauros quizumbas&#8230;<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>No que diz respeito \u00e0 vers\u00e3o sobre as brincadeiras, a dan\u00e7a surge inserida nos ritos\u00a0de iniciac\u00e3o, atrav\u00e9s dos quais s\u00e3o transmitidas normas sociais de v\u00e1ria \u00edndole (religi\u00e3o, os mitos, a m\u00fasica e a dan\u00e7a, tradicionais, leis, sexualidade, restri\u00e7\u00f5es \u00e0 vida sexual ligada a rituais f\u00fanebres, administra\u00e7\u00e3o de recursos, etc.). Ao fazer a representa\u00e7\u00e3o do <em>nyau <\/em>e das m\u00e1scaras,\u00a0 o texto nos remete para a quest\u00e3o ligada \u00e0 passagem de conhecimento, por via dos ritos de inicia\u00e7\u00e3o, na sociedade chewa: <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><\/p><cite>olha os meus trejeitos ouve a minha voz e segue-me<br>os meus olhos fa\u00edscam e trazem luz eu sou a m\u00e1scara <em>kapoli<\/em>\/ esp\u00edrito antigo<br> que dan\u00e7a ensina e adormece (p.35)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A p.37 \u00e9 tamb\u00e9m representa\u00e7\u00e3o de uma brincadeira de crian\u00e7as que pode ser integrada nesta categoria do <em>nyau &#8211; <\/em>rito de inicia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A autora deste livro deixou nestes poemas tamb\u00e9m um mapa cultural que nos ajuda a trilhar o caminho para o conhecimento de parte da cultura dos grupos \u00e9tnicos do Complexo Zambeze e Marave.<\/p>\n\n\n\n<h4>Mapas e viagens: Hist\u00f3ria e antropologia<\/h4>\n\n\n\n<p>Em <em>Outras fronteiras: fragmentos de narrativas <\/em>somos convidados a fazer uma reflex\u00e3o sobre os tratados e marcos hist\u00f3ricos que dividiram o mundo: o tratado Tordesilhas e o mapa cor-de-rosa s\u00e3o os referentes que nos levam de viagem para outras \u00e9pocas do passado hist\u00f3rico e para a quest\u00e3o da demarca\u00e7\u00e3o de fronteiras hist\u00f3rico-pol\u00edticas, sobretudo \u00e0s demarca\u00e7\u00f5es das fronteiras de Mo\u00e7ambique. Como sabemos, n\u00e3o obedecendo a quest\u00f5es culturais, houve com o colonialismo a cria\u00e7\u00e3o de fronteiras artificiais que fizeram a separa\u00e7\u00e3o de culturas e de grupos \u00e9tnicos, que sendo os mesmos, do ponto de vista socio-cultural, passaram a ser distinguidos por demarca\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-hist\u00f3ricas. E o poema \u201cFronteiras, de que lado pergunto-me\u201d, ajuda-nos a compreender a sugest\u00e3o acabada de dar:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><\/p><cite>em ponto p\u00e9 de roseta ziguezague em duplo n\u00f3s elos em cadeia raiz quadrada<br>noves fora sempre indago a matem\u00e1tica sem resultado ser\u00e1 que \u00e9 ind\u00edgena?<br>ser\u00e1 que \u00e9 alien\u00edgena? Ser\u00e1 que \u00e9? [&#8230;] d\u00e1diva nas m\u00e3os em concha vem uma mudan\u00e7a no tempo alimentar o esp\u00edrito<br>diz a sua boca nyau que me fala atrav\u00e9s das pedras.<br>(LEITE, 2019, p.44- 45)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A demarca\u00e7\u00e3o que constitui as fronteiras \u00e9 t\u00e3o question\u00e1vel que o sujeito po\u00e9tico, neste poema, preferiu consultar os oss\u00edculos divinat\u00f3rios, foi \u201cbater pedras\u201d, tal como se tem dito em linguagem popular, para saber que mist\u00e9rio norteou a divis\u00e3o de \u00c1frica ou do mundo.&nbsp;Os primeiros versos do poema s\u00e3o disso uma ilustra\u00e7\u00e3o: <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><\/p><cite>Onde ter\u00e1 come\u00e7ado a fronteira do dia e da noite? a fronteira da \u00e1gua com a terra? A do azul com o lil\u00e1s? Porque t\u00e3o dividido&#8230; (p.43).<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da demarca\u00e7\u00e3o territorial de \u00c1frica e de Mo\u00e7ambique, os poemas de Ana Mafalda Leite nos remetem para a reflex\u00e3o sobre o mapeamento do ouro nesse pa\u00eds que, sugestivamente, o sujeito po\u00e9tico refere ter sido realizado num momento em que as popula\u00e7\u00f5es em Tete se deliciavam ao ritmo de tambores e embebecidos pelo pombe:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><\/p><cite>Em 1798 em Tete olhando as estrelas Lacerda e Almeida\/ pensava [&#8230;]<br>Sentado e expectante meditava as dif\u00edceis caminhadas que o levariam at\u00e9 kambeze<br>a reinos desconhecidos, a outros povos e costumes<br>Ouvia os tambores tocando noites sem fim, o pombe enlangescendo os corpos.<br>Os vultos do sil\u00eancio caminhando<br>Entontecido com milho fermentado<br>apenas o cora\u00e7\u00e3o de Lacerda de almeida<br>se ouvia&#8230;<br>(LEITE, 2019, p.46)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m um convite para o conhecimento de quest\u00f5es antropol\u00f3gicas que permitem extrapolar ideias sobre como \u00e9 que alguns africanos se ter\u00e3o livrado das amarras dos colonos. O poema \u201cOutras viagens, outras fronteiras\u201d faz-nos essa sugest\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><\/p><cite>os caminhos s\u00e3o sempre outros, bocas l\u00ednguas pombeiros sertanejos informantes<br>desapareceram nos caminhos<br>zuartes, missangas e espelhos<br>os escravos fumavam mbangui e\u00a0 entram\u00a0 em\u00a0 debandada<br>outras\u00a0 margens se mostram com esp\u00edritos locais\u00a0 que\u00a0 se\u00a0 levantavam\u00a0 abruptos&#8230;<br>(LEITE, 2019, p.50-51).<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Continuando nessa regi\u00e3o habitada pelo designado grupo \u00e9tnico Complexo-Zambeze, a quest\u00e3o antropol\u00f3gica mencionada n\u00e3o termina por a\u00ed, pela maneira como eram e viviam as popula\u00e7\u00f5es da regi\u00e3o de Tete. Ana Mafalda leva-nos a uma outra viagem para o cruzamento entre a Hist\u00f3ria e a Antropologia. \u00c9 assim, que qual b\u00fassola, a nossa imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 levada ao norte do rio, onde havia prazos e prazeiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Desta feita, o grupo \u00e9tnico Marave \u00e9 destacado de forma curiosa, pouco comum, relativamente aos outros grupos \u00e9tnicos mo\u00e7ambicanos. Diz o poema:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><\/p><cite>dos Marave guardo a import\u00e2ncia dessa&nbsp; \u00e0&nbsp; linhagem&nbsp; das&nbsp; mulheres<br>S\u00e3o minhas ainda as terras de fatiota chipasse bomboe nhancoma pande e insufa (&#8230;)<br>casei muitas vezes e muitas outras enviuvei, j\u00e1 nem me lembro bem quantas<br>os meus fios brancos entranham na cabe\u00e7a muitas est\u00f3rias\u201d&nbsp; [&#8230;]<br>Possuo mais de dois mil escravos em trabalho dom\u00e9stico, agr\u00edcola<br>nas actividades de defesa na seguran\u00e7a das minhas terras<br>a perder de vista &#8230;<br>(LEITE, 2019, p.54)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>E no final da obra, na sua quarta parte, designada \u201cO \u00cdndico em Marrakesh\u201d h\u00e1 um outro conjunto de tr\u00e2nsitos e de deslocamentos de e para diferentes lugares: Marrakesh, Ponta do Ouro, Ibo, Quirimbas.<\/p>\n\n\n\n<h4>Viagens e itiner\u00e2ncia: sonhos e tratados er\u00f3ticos<\/h4>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma voz, no in\u00edcio da obra, que se questiona e \u00e9 procurada pelo sujeito po\u00e9tico: <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><\/p><cite>Saberei porventura os lugares de onde fala esta voz? (p.13)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ao ler-se o poema \u201cVisita\u00e7\u00e3o do \u00cdndico em Marrakesh\u201d (p.67-68), fica-se com a sensa\u00e7\u00e3o de se ter encontrado de novo a procurada voz. Entretanto, no discorrer do poema, percebe-se que h\u00e1 uma esp\u00e9cie de enigma sobre o lugar de onde vem a voz, porque ela, parece estar em Marrakesh, ou antes no \u00cdndico, em simult\u00e2neo nos dois espa\u00e7os, num tr\u00e2nsito que nos despista.<\/p>\n\n\n\n<p>Parece ser uma voz do al\u00e9m ou do infinito, espiritualizada, a julgar pelos versos que se seguem: <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><\/p><cite>V\u00eas, vejo, entretanto come\u00e7o a ver, vejo entre o azul a <br>revela\u00e7\u00e3o a voz sem som talvez uma palavra um azul intenso<br>um c\u00e9u sem nuvens ou um \u00edndico oceano? Que anuncia este<br>trilho para o deserto\/um o\u00e1sis no caminho de um sonho de pura verdade&#8230; (p.68).<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>&nbsp; N\u00e3o se sabe, portanto de onde vem essa voz que, para al\u00e9m de enigm\u00e1tica, \u00e9 itinerante. \u00c9 uma voz m\u00faltipla no espraiamento pelos espa\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>Do que se pode depreender, na verdade, \u00e9 que toda esta \u00faltima parte do livro \u00e9 um tratado do amor e do erotismo; a linguagem utilizada socorre-se de sensa\u00e7\u00f5es, hip\u00e9rboles e met\u00e1foras, levando o leitor a compreender a dimens\u00e3o de mestria da autora do livro em enla\u00e7ar o corpo nos enredos amorosos do erotismo, num espa\u00e7o m\u00faltiplo em que a matriz \u00edndica se revela \u201cespelhada\u201d em todos os outros lugares.<\/p>\n\n\n\n<p>A alus\u00e3o ao \u201cC\u00e2ntico dos C\u00e2nticos\u201d sugere a reflex\u00e3o sobre o facto de que o amor mais puro, mais genu\u00edno, carnal ou lascivo poder ser exaltado de modo elegante e sedutor. Sobre as sensa\u00e7\u00f5es, vale recordar os versos que nos remetem \u00e0 paix\u00e3o e uma das suas consequ\u00eancias imagin\u00e1rias, a viagem o reencontro dos in\u00edcios, das origens, amorosas, que se fundem e se espalham pelo espa\u00e7o m\u00faltiplo, deserto e\/ou mar, calor e\/ou frio, figura\u00e7\u00e3o da intemporalidade, como se l\u00ea na p\u00e1gina 67:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><\/p><cite>em Marakesh diz-me o meu amor<br>que o c\u00e9u sem nuvens anuncia o deserto. Olho para o azul<br>intenso e para as montanhas que debruam a paisagem ao\/ longe, cobertas de neve e sinto<br>como o sol arde\/ arde o cora\u00e7\u00e3o com ele o c\u00e9u imperturb\u00e1vel no seu azul<br>mir\u00edfico espraia-se sem fim\/ olho para os teus olhos e vislumbro o deserto longe<br>uma viagem prof\u00e9tica? Um desejo<br>que ondula com as areias sem<br>fim encontrar-me sem onde<br>encontrar-me no tempo de muitos anos, areias sopradas&#8230;<br>(LEITE, 2019, p.67)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Os dois poemas que seguem e que se encontram entre as p\u00e1ginas 69 e 71 v\u00e3o na linha do que acabei de referir: <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><\/p><cite>aqui em sossego alagoada<br>dizes-me que o sol queima. \u00c9 verdade, tanto como aquela\/ neve mais atr\u00e1s<br>escondemo-nos sob a sombra das oliveiras e a sombra<br> escalda ainda<br>aquele pavilh\u00e3o seria o lugar perfeito<br> para nos teus l\u00e1bios a \u00e1gua escorrer de desejo&#8230;<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A celebra\u00e7\u00e3o do amor \u00e9 em especial significada atrav\u00e9s de um poema do g\u00e9nero epital\u00e2mio, um hino para celebrar o casamento, intitulado \u201co chamamento (Azaan)\u201d, cujos versos, mais do que nos sugerirem aspectos ligados \u00e0 f\u00e9 e \u00e0 reza mul\u00e7ulmana e cat\u00f3lica romana, nos recordam o C\u00e2ntico de Salom\u00e3o, o \u201cC\u00e2nticos dos C\u00e2nticos\u201d, que aparece no poema sobre forma de imagens:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><\/p><cite>\u00c9 hora de rezar<br>\u00e9 hora de kutub, o livro<br>\u00e9 hora de reler o manuscrito do tempo<br>\u00e9 hora de olharmos um para o outro, aqui, precisamente<br>neste lugar que nos trouxe de longe t\u00e3o perto<br>(eu sou do eu amado seu desejo o traz at\u00e9 mim\u2026)<br>a um outro chamamento, estranho chamamento, prece<br>encantamento<br>aazan do cora\u00e7\u00e3o&#8230;<br>(LEITE, 2019, p.73)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Para terminar diria que a poesia de <em>Outras Fronteiras Fragmentos de Narrativas <\/em>\u00e9 feita de enigmas, de viagens e de sonhos. Os quatro momentos que comp\u00f5em o livro interrogam-nos sobre as origens, as identidades e o amor, entrela\u00e7ando as tem\u00e1ticas. Sobretudo, est\u00e1 contada a representa\u00e7\u00e3o de Mo\u00e7ambique, com a men\u00e7\u00e3o a nomes concretos de lugares e de grupos \u00e9tnicos e culturais, lugar matriz da autora. Do ponto de vista cultural o pa\u00eds \u00e9 exaltado com recurso ao seu patrim\u00f3nio imaterial da humanidade, o <em>nyau, <\/em>por exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 ainda a indica\u00e7\u00e3o de acervos hist\u00f3ricos que provavelmente possam ser os mapas para descortinar a divis\u00e3o territorial realizada nesse espa\u00e7o geogr\u00e1fico, que \u00e9 actualmente a na\u00e7\u00e3o pol\u00edtica mo\u00e7ambicana, e a refer\u00eancia do que ter\u00e1 facilitado a entrada dos portugueses no pa\u00eds. H\u00e1 alus\u00e3o a documentos que podem ser consultados para reconstituir determinados fragmentos hist\u00f3ricos sugeridos, nomeadamente o Tratado de Tordesilhas, o Di\u00e1rio de Lacerda de Almeida, bem como a quest\u00e3o hist\u00f3rico-cultural sobre os prazeiros.<\/p>\n\n\n\n<p>A obra est\u00e1 envolta de cita\u00e7\u00f5es in(directas) sobre a Hist\u00f3ria, que s\u00e3o reveladas a partir do pano de fundo da mem\u00f3ria da inf\u00e2ncia do sujeito po\u00e9tico, e da reconstitui\u00e7\u00e3o de uma hist\u00f3ria de amor id\u00edlico, atrav\u00e9s do ponto de vista do sujeito po\u00e9tico que a conta. Puro amor, que se procura, pela inf\u00e2ncia, pela terra e pelo corpo, que se tornam mapas, mar, desertos e sonho.<\/p>\n\n\n\n<p>E porque uma hist\u00f3ria ou mem\u00f3ria n\u00e3o s\u00e3o completas, existe o alerta, atrav\u00e9s do t\u00edtulo, que nos indica que leremos parte de uma riqueza que ainda pecisa de ser desvendada, ou seja, temos fragmentos daquilo que se deve saber sobre a Hist\u00f3ria e Antropologia de Mo\u00e7ambique. H\u00e1 questionamentos e algumas revela\u00e7\u00f5es, ficam-nos os mapas para seguir alguns trilhos e criar outros, como, por exemplo, a leitura aqui realizada.<\/p>\n\n\n\n<ol><li>Texto publicado na Revista Mulemba. Consultar em <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.35520\/mulemba.2019.v11n21a27697\">https:\/\/doi.org\/10.35520\/mulemba.2019.v11n21a27697<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sara Jona Laisse Resumo: Com este texto pretendo contribuir com a constru\u00e7\u00e3o de linhas de significa\u00e7\u00e3o etnogr\u00e1ficas culturais, hist\u00f3ricas e antropol\u00f3gicas que podem ser interpretados a partir dos s\u00edmbolos representados na obra Outras Fronteiras Fragmentos de Narrativas, de Ana Mafalda Leite.&nbsp; A base te\u00f3rica desse exerc\u00edcio centra-se no preconizado por Moxey (1994), que defende a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1215"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1215"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1215\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1227,"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1215\/revisions\/1227"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1215"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}