{"id":1040,"date":"2020-06-16T21:39:05","date_gmt":"2020-06-16T21:39:05","guid":{"rendered":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/?page_id=1040"},"modified":"2020-06-16T21:39:06","modified_gmt":"2020-06-16T21:39:06","slug":"a-poesia-como-forma-de-encantamento","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/a-poesia-como-forma-de-encantamento\/","title":{"rendered":"A Poesia Como Forma de Encantamento"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Marcelo Panguana<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p>O lan\u00e7amento de dois livros de poesia, logo no come\u00e7o de um novo ano, pode ser um significativo pren\u00fancio para uma literatura t\u00e3o nova, a precisar ainda \u00a0de autores que a estimulem e a fa\u00e7am conhecer atrav\u00e9s deste nosso Pa\u00eds imenso e belo e tamb\u00e9m pelo mundo fora, onde a nossa literatura, infelizmente, continua sendo uma grande inc\u00f3gnita<strong>.\u00a0 <\/strong>Se estas duas obras que hoje temos o privil\u00e9gio de partilhar a sua apresenta\u00e7\u00e3o pertencem a uma escritora\u00a0 de reconhecido m\u00e9rito como a Ana Mafalda Leite, professora universit\u00e1ria, investigadora, ensa\u00edsta e poetisa, nada nos pode fazer duvidar que os deuses se prestam para transformar este ano, em termos de publica\u00e7\u00e3o, o melhor de todos os anos<strong>.<\/strong> N\u00e3o se trata de uma simples coincid\u00eancia o facto da cor verde, a tal cor que se diz ser de esperan\u00e7a, decorar o \u201cLivro das Encanta\u00e7\u00f5es\u00bb, como tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 por mero acaso que na capa do mesmo livro, o luar de Tete, prenunciadora de todas as abund\u00e2ncias, sobrevoa imponente \u00a0as \u00e1guas do Zambeze \u00a0e deixa sobre elas um lastro dourado. N\u00e3o \u00e9 por mera coincid\u00eancia que o livro tenha como pano de fundo a imagem\u00a0\u00a0 feminina de admir\u00e1vel \u00a0sensualidade se despindo impudica ao mundo, tal e qual como a literatura mo\u00e7ambicana se deve despir, sem preconceitos, nos palcos de todo o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>A Ana Mafalda Leite apresenta-nos, naquilo que posso considerar um golpe de mestre, duas obras\u00a0: o \u00abLivro das Encanta\u00e7\u00f5es e outros Poemas\u00bb e \u00abO Amor essa Forma de Desconhecimento\u00bb. Ao primeiro livro decidiu-se designar antologia. Suponho que uma antologia seja como um filho que nasce duas ou mais vezes recolhido do \u00fatero de outros livros. Quer dizer, pode se definir como sendo uma forma de ressuscitar os textos mais significativos que se encontram registadas nas obras de um determinado autor. \u00a0Penso que o \u00ab\u00a0Livro das Encanta\u00e7\u00f5es\u00bb n\u00e3o foge a essa meticulosa selec\u00e7\u00e3o dos textos po\u00e9ticos que devem ter marcado a traject\u00f3ria da Ana Mafalda Leite, obviamente recolhidos nas obras\u00a0: \u00abEm Sombra Acesa\u00bb (1984)\u00a0; \u00abCan\u00e7\u00f5es de Alba\u00bb\u00a0(1989); \u00abMariscando Luas\u00bb (1992)\u00a0; \u00abRosas da China\u00bb( 1999\u00a0); \u00abPassaporte do Cora\u00e7\u00e3o\u00bb (2002)\u00a0; \u00abLivro das Encanta\u00e7\u00f5es\u00bb(2005\u00a0)\u00a0.Como se pode verificar\u00a0 j\u00e1 \u00a0vai um pouco longo o percurso da Ana Mafalda, um percurso que n\u00e3o temos vindo a acompanhar com a aten\u00e7\u00e3o que seria de dispensar a uma autora que ao longo dos \u00faltimos tempos tem prestigiado a nossa literatura, quer atrav\u00e9s da poesia, como atrav\u00e9s dos estudos sobre a literatura mo\u00e7ambicana que tem vindo a publicar.<\/p>\n\n\n\n<p>As dedicat\u00f3rias que se podem observar em alguns dos poemas inseridos no \u00ab\u00a0Livro das Encanta\u00e7\u00f5es\u00a0\u00bb permitem aquilatar \u00a0a \u00a0dimens\u00e3o dos la\u00e7os de afecto e de cumplicidade que a Ana Mafalda Leite foi tecendo ao longo dos tempos, cumplicidades que se estendem a um M\u00e1rio Botas, recordando o Gulamo Khan ou \u00e0 memoria da Helena, \u00e0 S\u00f3nia Sultuane, ao Jo\u00e3o Paulo Borges Coelho, Idasse, Armando Artur,\u00a0 Ana Magaia, Jaime Santos e Louren\u00e7o de Rosario\u00a0; ao Andre, ao Jota, ao Marco, \u00e0 Sara, ao Paulo e \u00e0 Joana. E tamb\u00e9m o Francisco Noa, a Ana Paula Tavares, o Lopito e sem esquecer o Kandjimbo. E ainda \u00e0 tantos outros. Devem ter sido cumplicidades fantasticas. Porque a Ana Mafalda Leite nunca soube de que lado estava o desamor. Mas soube, desde sempre, de que lado estava a ternura, o que me leva a acreditar que ela sabia que a poesia, incluindo a sua, poderia alimentar essa ternura. Por isso a Ana Mafalda Leite, atrav\u00e9s da sua poesia, se despiu perante os seus leitores, porque tal como o Manuel Laranjeira, porque acredita \u00ab\u00a0que quando a alma do artista se p\u00f5e nua diante do p\u00fablico, \u00e9 com uma nudez orgulhosamente casta\u00bb.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Se quisermos dar um m\u00e9rito a esta antologia, esse ser\u00e1, em minha opiniao, o de tra\u00e7ar um percurso po\u00e9tico e de escrita rica no seu equilibrio. Um percurso onde podemos encontrar os sentimentos que\u00a0 a tem acompanhado\u00a0 e as grandes interroga\u00e7\u00f5es e contradi\u00e7\u00f5es que esses mesmos sentimentos despertaram em si. \u00a0Pode-se verificar, tamb\u00e9m, \u00a0que compareceram neste livro momentos de grande ternura, assim como momentos de enorme desencanto. A poesia da Ana Mafalda \u00e9, se quisermos, pacifica e pacifista. Em nenhum momento atira pedras. N\u00e3o grita nem insulta. Ela surpreende pela forma como procura ser solidaria, como procura o amor. No \u00abLivros das Encanta\u00e7\u00f5es e Outros Poemas\u00bb n\u00e3o encontramos nenhum poema que atira \u00abmolotoves\u00bb, um poema incendi\u00e1rio ou em estado de greve, se consideramos que em determinado momento a literatura deve ser uma express\u00e3o da crise e o escritor em crise produz uma literatura \u00a0denunciante, cr\u00edtica. Mafalda envereda por um outro caminho\u00a0: o da ternura!<\/p>\n\n\n\n<p>\u00abO Livro de Encanta\u00e7\u00f5es\u00bb parece-me ser, sobretudo, uma tentativa de reflex\u00e3o sobre o homem, o amor e sobre os lugares. Uma tentativa de reflex\u00e3o sobre as afectividades. Quer elas se situem dentro e fora do universo familiar, dentro e fora do universo dos Pa\u00edses que constituem o epicentro da sua poesia.<\/p>\n\n\n\n<p>O conhecimento do oficio, isto \u00e9, da arte de fazer poesia, apesar dum percurso que a evidenciou como uma importante estudiosa, potenciou esta antologia. Ana Mafalda Leite conhece as grandes hesita\u00e7\u00f5es do escritor, as suas perturba\u00e7\u00f5es, o desespero perante a folha branca, a inevit\u00e1vel perplexidade do escritor perante o silencio da critica que retarda o reconhecimento da sua obra; por isso ela escreve da maneira como escreve, por isso a sua sensibilidade critica a fez escolher para \u00abO Livro das Encanta\u00e7\u00f5es e Outros Poemas\u00bb os poemas que escolheu e que tornam esta antologia um verdadeiro espelho do que de mais belo escreveu esta poetisa de cabelos de fogo e olhos cheios de mar. \u00a0\u00c9 uma poesia cheia de elementos marcantes\u00a0: a lua, as \u00e1rvores, a agua, o fogo, um barco com uma permanente vontade de empreender uma viagem, de partir. E a Mafalda \u00a0junta a tudo isso as missangas da sua terra, as rosas da china, as vozes dos mantras, o tufo, o canto das casuarinas, e todas as paisagens ainda por vir. Os poemas da Ana Mafalda Leite se recusam a ter uma P\u00e1tria, viajam por territorios desconhecidos, pisam terras, conhecem novas gentes, adoptam novas falas, assimilam novas culturas. \u00c9 por essa raz\u00e3o que,\u00a0 embora pousando no ch\u00e3o da sua terra e se perfumando do h\u00famus do seu Indico, a poesia que encontramos no \u00abLivro das Encanta\u00e7\u00f5es\u00bb veste-se\u00a0 de imenso universalismo. Talvez por essa raz\u00e3o, na carta-poema dirigida ao Rui Knopfli, a Ana Mafalda escreveria\u00a0: \u00ab\u00a0p\u00e1tria minha, passaporte, naturalidade, s\u00f3 uma, a poesia\u00a0\u00bb. Palavras que acabam sendo quase as mesmas que o poeta Calane da Silva deixaria ficar no bel\u00edssimo posf\u00e1cio sobre essa forma ap\u00e1trida de ser da Mafalda, que embora\u00a0 \u00ab\u00a0transportando nos olhos-alma\u00a0 o luar de Tete e as aguas do Zambeze, as praias do Indico e o cheiro da chuva mo\u00e7ambicana, tem tamb\u00e9m no espirito-iris a caricia de uma primavera lusitana, o alumbramento de velas no altar de uma catedral g\u00f3tica. Uma pessoa que tem, sobretudo, um cora\u00e7\u00e3o-barco navegando sem fronteiras, uma escrita-passaporte para todas as paisagens-emo\u00e7\u00f5es do universo da poesia\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>Temos, hoje, o privil\u00e9gio de assistir tamb\u00e9m a apresenta\u00e7\u00e3o p\u00fablica de um outro livro da Ana Mafalda Leite:\u00a0 \u201cO amor essa forma de desconhecimento\u201d, que posso considerar como sendo uma longa interroga\u00e7ao sobre o amor, uma interroga\u00e7\u00e3o que come\u00e7ou nos distantes tempos em que ainda n\u00e3o haviam nascido os antepassados que haveriam, por sua vez, de serem os tetrav\u00f3s dos av\u00f3s da Ana Mafalda, uma interroga\u00e7\u00e3o sobre o amor, dizia, que se arrasta at\u00e9 aos nossos dias. Deve ser o livro da Ana Mafalda Leite mais dif\u00edcil de abordar, qu\u00e3o complexas s\u00e3o as mat\u00e9rias que envolvem o amor, qu\u00e3o intang\u00edveis s\u00e3o os fen\u00f3menos emocionais que envolvem o homem e a mulher quando o amor lhes bate a porta. Ou quando n\u00e3o lhes bate porta nenhuma\u00a0! \u00a0Deve ser, tamb\u00e9m, a mais pura e verdadeira declara\u00e7\u00e3o de amor que a Ana Mafalda Leite teve a ousadia de pronunciar publicamente utilizando a met\u00e1fora e os s\u00edmbolos po\u00e9ticos para nos falar do amor\u00a0 ou da sua perca, ou para nos indicar a direc\u00e7\u00e3o \u00a0do \u00ab\u00a0seu oriente\u00a0\u00bb, onde o amor se faz e acontece<strong>. <\/strong>Dizia o Silviano Santiago, no interessante prefacio que escreveu para este livro que \u00abA experi\u00eancia por que passa o poeta l\u00edrico ao enfrentar o amor como forma de desconhecimento \u00e9 semelhante\u00a0 \u00e0 perda da b\u00fassola por parte do capit\u00e3o do navio. Sem a seguran\u00e7a dos mapas e dos caminhos\u00a0 de h\u00e1 muito tra\u00e7ados e palmilhados pelos antigos aventureiros da linguagem, a informa\u00e7\u00e3o dada pelo instrumento n\u00e1utico se torna infecunda. H\u00e1 que se riscar em novas e audaciosas preambula\u00e7\u00f5es, a esmo. O amor como forma de desconhecimento \u00e9 mat\u00e9ria da desorienta\u00e7\u00e3o em busca do oriente\u00a0\u00bb, concluiria Silviano Santiago.<\/p>\n\n\n\n<p>E eu digo: Nao ter amor \u00e9 como nao ter uma massala para comer. Ou o Indico para amainar o cansa\u00e7o dos nossos olhos. Nao ter amor \u00e9 como nao poder saborear as saborosas tangerinas de inhambane que o mestre Jos\u00e9 Craveirinha tanto gostava. Fora do amor ha desconhecimento. Ha escuridao. Cegueira. Paisagens tristes. Homens e mulheres cabisbaixos\u00a0.\u00a0 Nao ter amor \u00e9 o nao ter um espa\u00e7o geografico por habitar. Por isso, Mafalda nos diz\u00a0: \u00ab\u00a0 amor meu territorio, \u00a0junto \u00e0 ti amor invento uma patria\u00a0\u00bb\u00a0. Nao ter amor \u00e9 nao ter um corpo para aprender a gemer nas ocasioes de ternura porque o amor, como escreveria a Natalia Correia, \u00e9\u00a0 o fulcro de todo o dinamismo humano e s\u00f3 atinge a plenitude do seu poder genesiaco pela sacraliza\u00e7ao da carne\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>No livro \u00abO Amor essa Forma de Desconhecimento\u00bb\u00a0a autora as vezes se afasta da riqueza da met\u00e1fora e do rigor da palavra. Quando isso acontece o seu discurso torna os sentimentos e cen\u00e1rios mais claros e evidentes e a poesia se assemelha as aguas calmas onde a autora pode matar a sede dos seus sentimentos<strong>\u00a0:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Um sabor a tangerina<\/p><p>O perfume<\/p><p>Um sabor a tangerina<\/p><p>Faz calor<\/p><p>Fecho os olhos<\/p><p>Gomo a gomo\u00a0 a tua boca me sente<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>N\u00e3o me considero um estudioso da poesia da Ana Mafalda Leite. A sua escrita foi me chegando nos intervalos de tempo. Desde entao tenho sorvido os gomos que a sua poesia me tem oferecido e deixado me fascinar pela sua maturidade. &nbsp;Apesar desse conhecimento incipiente que tenho dos escritos da Ana Mafalda, &nbsp;me permito afirmar, sem nenhuma hesita\u00e7ao, &nbsp;que os seus livros teem vindo a enriquecer a literatura deste pa\u00eds que nunca deixou de lhe pertencer, apesar dessa sua diaspora que ja vai longa. \u00c9 a essa mulher sem p\u00e1tria, viajante de todas as utopias, que desejo uma vida longa de amor e cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marcelo Panguana O lan\u00e7amento de dois livros de poesia, logo no come\u00e7o de um novo ano, pode ser um significativo pren\u00fancio para uma literatura t\u00e3o nova, a precisar ainda \u00a0de autores que a estimulem e a fa\u00e7am conhecer atrav\u00e9s deste nosso Pa\u00eds imenso e belo e tamb\u00e9m pelo mundo fora, onde a nossa literatura, infelizmente, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1040"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1040"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1040\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1042,"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1040\/revisions\/1042"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1040"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}