{"id":1036,"date":"2020-06-16T21:28:37","date_gmt":"2020-06-16T21:28:37","guid":{"rendered":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/?page_id=1036"},"modified":"2020-06-16T21:28:38","modified_gmt":"2020-06-16T21:28:38","slug":"paisagem-com-janela-dentro","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/paisagem-com-janela-dentro\/","title":{"rendered":"Paisagem com janela dentro"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Jane Tutikian<\/strong><a href=\"#_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p>Uma visada no panorama geral da poesia mo\u00e7ambicana \u00e9 o suficiente para a percep\u00e7\u00e3o de um n\u00famero reduzid\u00edssimo de mulheres.&nbsp; As raz\u00f5es s\u00e3o aquelas amplamente conhecidas e especialmente difundidas por aqueles que trabalham com as quest\u00f5es de g\u00eanero. Gosto, entretanto, muito da forma como a romancista Paulina Chiziane coloca a quest\u00e3o em uma entrevista concedida a Ingrid Fagundes, para a BBC Brasil (POP &amp; ARTE), em 30\/10\/2016. Ela vai direto ao ponto, de uma forma muito simples, ao falar da tradi\u00e7\u00e3o. Esclarece Chiziane que os chamados textos sagrados oprimem a mulher. Neles, o homem vai para o c\u00e9u, a mulher, para o inferno. Mais ainda,<\/p>\n\n\n\n<p>No n\u00edvel de tradi\u00e7\u00f5es e religi\u00f5es, j\u00e1 existe um menu daquilo que a mulher deve pensar. Pensar em cozinhar, em se pentear bem, mas ter liberdade para pensar outra coisa fora da casa e das obriga\u00e7\u00f5es familiares n\u00e3o \u00e9 muito comum. Muitas sociedades n\u00e3o permitem, e as mulheres acabam ficando confinadas nesse mundo pequeno. (CHIZIANE, 2016)<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1, por\u00e9m, aquelas que conseguem, como a pr\u00f3pria Chiziane na prosa, romper com os limites tradicional e socialmente impostos e o fazem com uma sensibilidade n\u00e3o raras vezes engajada e com muita qualidade. S\u00e3o todas mulheres fortes. No dom\u00ednio da poesia destaco tr\u00eas poetas na literatura mo\u00e7ambicana: No\u00e9mia de Sousa (1926-2002) Gl\u00f3ria de Sant\u2019Anna (1925-2009) e Ana Mafalda Leite (1956).<\/p>\n\n\n\n<p>Se o despertar para a consci\u00eancia nacional e a consequente luta pela liberta\u00e7\u00e3o nas, ent\u00e3o, col\u00f4nias de l\u00edngua portuguesa, tem sua origem na poesia, No\u00e9mia de Sousa est\u00e1 l\u00e1 (V. <em>Mensagem<\/em> da CEI <a href=\"#_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>)&nbsp; desde o in\u00edcio, vivendo, denunciando o drama africano e contando uma hist\u00f3ria de lutas pelo fim da opress\u00e3o, pela liberdade do povo em pleno colonialismo portugu\u00eas.&nbsp; A pris\u00e3o pol\u00edtica &#8211; No\u00e9mia era membro do PCP<a href=\"#_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> &#8211; com toda a degrada\u00e7\u00e3o humana que a envolve e a resist\u00eancia est\u00e3o na sua poesia.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;A mo\u00e7ambicanidade se confunde com a pr\u00f3pria poeta e a define. No poema \u201c Se me quiseres conhecer\u201d,&nbsp; sua cor e corpo s\u00e3o descritos pela tradi\u00e7\u00e3o art\u00edstica do lugar de origem, mas&nbsp; tamb\u00e9m se define&nbsp; na representa\u00e7\u00e3o ancestral das m\u00e1scaras e mais: \u201c Torturada e magn\u00edfica\/ altiva e m\u00edstica, \/ \u00c1frica da cabe\u00e7a aos p\u00e9s, \/\u2014 Ah! , essa sou eu.\u201d (SOUSA, 2001, p.49)<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;No\u00e9mia ficou conhecida, a partir da observa\u00e7\u00e3o de Zeca Afonso (autor de \u201cGr\u00e2ndola Vila Morena\u201d) como \u201ca m\u00e3e dos poetas mo\u00e7ambicanos,\u201d e trouxe, de fato, \u00e0 cena a poesia feminina de Mo\u00e7ambique, protestando, inclusive, contra opress\u00e3o exercida sobre as mulheres naquela, ent\u00e3o, col\u00f4nia. Seu \u00fanico livro, publicado no Brasil em 2016, \u00e9 <em>Sangue Negro<\/em> e foi organizado, em 1988, pela Associa\u00e7\u00e3o dos Escritores Mo\u00e7ambicanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em outra perspectiva do fazer po\u00e9tico, com uma poesia l\u00edrica fortemente centrada no eu, a grande poeta \u00e9 Gl\u00f3ria de Sant\u2019Anna, portuguesa que viveu&nbsp; em Mo\u00e7ambique&nbsp; de 1951&nbsp; a 1974,&nbsp; e deixou uma obra significativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a poeta, a ess\u00eancia da vida e das coisas \u00e9 \u201csenti-las ta\u0303o densas e t\u00e3o clara\/ que na\u0303o possam conter-se por completo\/ nas palavras\u201d (SAN\u2019ANNA, 1965, p.43),&nbsp; ou seja, importa mais o sil\u00eancio, o n\u00e3o-dito.&nbsp; Isto porque \u00e9 nele que reside a essencialidade do ser, do ser poeta e da dial\u00e9tica estabelecida entre a interioridade e a exterioridade e a busca da harmonia entre ambas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo ao falar da guerra (\u201cSoldadinho\u201d) ou do preconceito racial, h\u00e1 o filtro da emo\u00e7\u00e3o: \u201cE ambas estamos certas\/ &#8211; tu, negra e eu, branca -\/ que \u00e9 dentro dos nossos ventres\/ que germina a esperan\u00e7a\u201d.&nbsp; (SANT\u2019ANNA, 1965, p.16)&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Gl\u00f3ria de Sant\u2019Anna \u00e9 a melhor express\u00e3o do intimismo da poesia feminina mo\u00e7ambicana.<\/p>\n\n\n\n<p>Ana Mafalda Leite, por sua vez, pertence \u00e0 linhagem das duas grandes poetas, traz consigo a for\u00e7a da terra de No\u00e9mia de Sousa e a sensibilidade em busca da ess\u00eancia de Gl\u00f3ria de Sant\u2019Anna, com quem compartilha, tamb\u00e9m, sua viv\u00eancia em Mo\u00e7ambique, em Moatize, Tete. \u201c Portugal \u00e9\u201d &#8211; para Ana Mafalda &#8211;&nbsp; \u201cber\u00e7o e campo acolhedor de suas pesquisas, e Mo\u00e7ambique \u00e9 seu ch\u00e3o emocional e cultural, fonte de inspira\u00e7\u00e3o po\u00e9tica.\u201d (LEITE, 2017, p.78). \u00c9 importante que se diga, entretanto, que Leite percorre seu caminho sem abrir m\u00e3o, em momento algum, de seu registro po\u00e9tico, de seu estilo fortemente individuado.&nbsp; E \u00e9, fundamentalmente, neste excelente livro O<em>utras Fronteiras fragmentos de narrativas <\/em>(2017) que Ana Mafalda chega \u00e0 maturidade po\u00e9tica.&nbsp; Neste livro me detenho.<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, O<em>utras Fronteiras fragmentos de narrativas <\/em>come\u00e7ou a ser gestado h\u00e1 muitos anos, talvez toda uma vida.&nbsp; Ele est\u00e1, de forma embrion\u00e1ria, nas obras anteriores: <em>Em Sombra Acesa <\/em>(1984), <em>Can\u00e7\u00f5es de Alba <\/em>(1989), <em>Mariscando Luas <\/em>(1992, em colabora\u00e7\u00e3o com Roberto Chichorro e Lu\u00eds Carlos Patraquim), <em>Rosas da China <\/em>(1999), <em>Passaporte do Cora\u00e7\u00e3o <\/em>(2002),&nbsp; <em>Livro das Encanta\u00e7\u00f5es <\/em>(2005), <em>O amor essa forma de desconhecimento <\/em>(2010)&nbsp; <em>e Livro das Encanta\u00e7\u00f5es &#8211; Antologia (1984-2005), <\/em>editada em &nbsp;2010.&nbsp; Em seu estudo sobre a poesia de Ana Mafalda Leite \u201cUma p\u00e1tria chamada poesia\u201d (2014) a estudiosa de literaturas africanas Carmen L\u00facia Tind\u00f3 Secco, ao analisar este \u00faltimo livro, d\u00e1 conta de um percurso identit\u00e1rio e existencial e observa que, em<em> Rosas da China, \u201c<\/em>Sentimentos e travessias insulares balizam o lado oriental, apontando para a Ilha de Mo\u00e7ambique, lugar matricial de encruzilhadas identit\u00e1rias do h\u00edbrido contexto-hist\u00f3rico cultural mo\u00e7ambicano [&#8230;] (SECCO, 2014, p. 6).<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;J\u00e1 em 1997, na apresenta\u00e7\u00e3o de Ana Mafalda Leite em uma palestra no Col\u00f3quio \u201cO papel da Mulher na Cultura Mo\u00e7ambicana na&nbsp; segunda&nbsp; metade do s\u00e9culo XX\u201d <a href=\"#_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>,&nbsp;&nbsp; na&nbsp; Universidade&nbsp; Pedag\u00f3gica &#8211;&nbsp; CCP,&nbsp;&nbsp; em Maputo,&nbsp; o livro <em>Outras Fronteiras fragmentos de narrativas<\/em>&nbsp; j\u00e1&nbsp;se anunciava fortemente:<\/p>\n\n\n\n<p>Venho reflectindo j\u00e1 h\u00e1 alguns anos sobre heran\u00e7as. N\u00e3o materiais, mas culturais. As reconhec\u00edveis, as irreconhecidas, as irreconhec\u00edveis. Atrav\u00e9s da literatura e da vida, os trilhos cruzando-se, vou encontrando, pelas diferen\u00e7as, quantas vezes tamb\u00e9m, as mais pr\u00f3ximas identidades. [\u2026] Tradi\u00e7\u00e3o e reconstru\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria, longo o caminho, onde os olhos para distinguirem se fazem plenos de aparente cegueira. Porque tradi\u00e7\u00e3o se faz pelo presente do passado, o mais acalentado sonho a vir.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma casa primordial, um lugar, onde cheguei em estado ainda de pura lact\u00eancia. \u00c9 no &nbsp;norte, perto de Tete. Moatize. Cheguei ignorante de pensamentos e palavras no fim da d\u00e9cada de cinquenta. O meu \u201cpoema da Inf\u00e2ncia Distante\u201d para roubar um t\u00edtulo \u00e0 No\u00e9mia, s\u00e3o os grandes espa\u00e7os de uma terra escura do min\u00e9rio, t\u00f3rrida na sua bebedeira de sol zumbindo os dias, os grandes sil\u00eancios de noites povoadas de hist\u00f3rias de animais, de sons alteados&#8230; (LEITE, 1997)<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m no bel\u00edssimo texto po\u00e9tico \u201cFronteiras, de que lado pergunto-me\u201d (MUCAVELE, 2013) inclu\u00eddo na Antologia Po\u00e9tica <em>A Arqueologia da Palavra e a Anatomia da L\u00edngua <\/em>repousa uma parte embrion\u00e1ria e importante da mais recente obra po\u00e9tica de Ana Mafalda Leite: \u201cOnde ter\u00e1 come\u00e7ado a fronteira do dia com a noite? A fronteira da \u00e1gua com a terra? A do azul com lil\u00e1s?\u201d [\u2026]&nbsp; e mais adiante:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>sou austral e sou oriente a baunilha de mad\u00e1gascar exala-me devagar muitos desertos apetec\u00edveis sou ocidente e morde-me na boca um papiro de apagada escrita alexandria?&nbsp; atravesso-me nos c\u00e9us a sul um cometa que passa: ano nyenyeza dizes-me &nbsp;foi quando? a luz irrompe em m\u00faltiplos lugares estranhos estou em casa sempre<\/p><p>[\u2026] por isso na areia desenho rotas ruas endere\u00e7os que n\u00e3o existem procuro as montanhas sagradas da ang\u00f3nia as pedras gigantes que sobem as escarpas do interior de outros \u00fateros ainda mais rec\u00f4nditos (LEITE, 2017, 35, 36)<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Importam essas coloca\u00e7\u00f5es porque, heran\u00e7as, mitos, ritos, mem\u00f3ria, casa primordial, identidades fronteiri\u00e7as e encontro comp\u00f5em o substrato dos fragmentos de narrativas de <em>Outras Fronteiras<\/em>. Substrato expresso e consolidado pelo talento e a qualidade que caracterizam a po\u00e9tica de Ana Mafalda Leite.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA manh\u00e3 do tempo\u201d \u00e9 o pr\u00f3prio despertar. O poema de abertura, \u201cComo se a manh\u00e3 do tempo despertasse\u201d (LEITE, 2017, p.10), oferece ao leitor os ind\u00edcios das marcas cartogr\u00e1ficas percorridas pelo sujeito l\u00edrico em <em>Outras fronteiras fragmentos de narrativa<\/em>, para onde ele, o leitor, \u00e9 levado.<\/p>\n\n\n\n<p>O verso \u201csaberei porventura os lugares de onde fala essa voz?\u201d (Idem.Ibidem) corrobora o entendimento de Bachelard, em sua <em>Po\u00e9tica do espa\u00e7o<\/em> (2005), de que os lugares \u00e9 que ret\u00eam o tempo comprimido. Indo al\u00e9m, se a mem\u00f3ria n\u00e3o registra a dura\u00e7\u00e3o completa, e estou pensando na dura\u00e7\u00e3o bergsoniana (1998), uma vez que n\u00e3o h\u00e1 como reviver as dura\u00e7\u00f5es abolidas, ent\u00e3o, o inconsciente permanece nos lugares de onde fala essa voz.<\/p>\n\n\n\n<p>Perceber a paisagem e abrir sua \u201cjanela dentro\u201d, atrav\u00e9s da poesia, \u00e9 revivificar e ressignificar pela est\u00e9tica \u201ca paisagem antiga nesse lugar do cora\u00e7\u00e3o.\u201d N\u00e3o raramente, esse lugar \u00e9 lugar e origem.<\/p>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>[\u2026]&nbsp;Meu Pa\u00eds dentro.<\/p><p>Um navio navega-me longe. Costeiro. Procurando uma rua que me leve at\u00e9 ti.<\/p><p><em>Nada lhes digo. E para que serviria se para eles n\u00e3o podes ser vis\u00edvel<\/em>?<\/p><p>H\u00e1 nesse lugar do cora\u00e7\u00e3o uma paisagem antiga<\/p><p>sempre presente<\/p><p>uma flor de frangipani ou de buganv\u00edlia?&nbsp; branca rosa vermelha amarela lil\u00e1s<\/p><p>que nunca morre<\/p><p><em>H\u00e1 uma paisagem antiga nesse lugar do cora\u00e7\u00e3o <\/em>[\u2026] <\/p><p>(LEITE, 2017,11)<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>H\u00e1, entretanto, mais: a abertura da \u201cjanela dentro\u201d se d\u00e1 atrav\u00e9s de um ser aparentemente cindido. Aparentemente, h\u00e1, na poesia de Ana Mafalda Leite, a cis\u00e3o entre sujeito emp\u00edrico e sujeito l\u00edrico. A pr\u00f3pria Ana \u00e9 nominada: \u201crespiro-te Ana como se respiram as manh\u00e3s\u201d (Idem. p.12) ou \u201cO que fazes a\u00ed Ana?\u201d&nbsp; (Idem. Ibidem). Acontece que o sujeito l\u00edrico \u00e9 grande demais, ele tudo pode e, o seu criador, apenas senti-lo. Como a po\u00e9tica de Ana Mafalda quer mais, e o sujeito l\u00edrico \u00e9 que tem os lugares, d\u00e1-se a transfigura\u00e7\u00e3o dentro do pr\u00f3prio fazer po\u00e9tico: o sujeito que se quer emp\u00edrico torna-se, no ato da escrita, tamb\u00e9m sujeito l\u00edrico, na medida em que o primeiro deles estende a Ana a<em> <\/em>paisagem<em>: <\/em><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><em>V\u00eas? Estendo aqui a paisagem. Para que v\u00e1s comigo at\u00e9 l\u00e1<\/em><\/p><p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; f\u00e1tuo inc\u00eandio astrol\u00e1bio<\/p><p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; breve&nbsp; passagem<\/p><p><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c9 uma janela que se abre<\/em><\/p><p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; em fogo queimada ao longe ardendo<\/p><p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; noite cheia de estrelas iluminada noite acesa<\/p><p><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; obscuro mundo em festa<\/em><\/p><p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; desmesurado o cora\u00e7\u00e3o estremece e atravessa paisagem<\/p><p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O cora\u00e7\u00e3o pulsa sem medida. Sentes?<\/p><p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; cintilando<\/p><p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;reverbera no centro da minha testa<\/p><p><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; v\u00eas?<\/em><\/p><p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; uma maravilhada estrela<\/p><p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; ponto e porta<\/p><p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; a inf\u00e2ncia o infinito<\/p><p><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; entra por a\u00ed <\/em><\/p><p>(LEITE, 2017, 14)<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>L\u00e1 \u00e9 Moatize, vila da Prov\u00edncia de Tete, onde o sujeito emp\u00edrico transformado em sujeito l\u00edrico passou a inf\u00e2ncia e parte da juventude.&nbsp; O conjunto de poemas &#8211; \u201cTratado das cores em Moatize\u201d (LEITE, 2017, 15), \u201cEstudando o mapa estelar em Moatize: no princ\u00edpio fomos azuis\u201d (Idem. p.17), \u201cEra assim na aula de desenho: azul ultramarino\u201d (Idem.p.19), \u201cEm Moatize um primeiro caderno: o livro dos azuis\u201d (Idem.p.20) e \u201cTeoria das cores ou o primeiro olhar\u201d (Idem. p.16) &#8211; recria o mito da origem, e das cores.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a neutralidade \u00e9 obscura, as cores espalhadas por uma nova vis\u00e3o trazem consigo o poder da aclara\u00e7\u00e3o e, nesse sentido, dentre as cores, a cor azul, a \u00faltima a ser nomeada, \u00e9 no Oriente, uma cor sagrada.<\/p>\n\n\n\n<p>O conjunto dos quatro poemas encerra com \u201cEm Moatize um primeiro caderno: o livro dos azuis\u201d:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; de azul em azulazul \u00edndigo azul<\/p><p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; carv\u00e3o azul&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; cobalto azul&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; de azul azulando az\u00faleo<\/p><p>azula-me de azuis&nbsp;&nbsp; azul\u00edssimo azulindo&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Azulbrilhante azulc\u00e9u azulrio<\/p><p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; azulmeianoite azuldia azultarde&nbsp;&nbsp;&nbsp; azulmeio-dia azul\u00e1gua<\/p><p>azuladademora azul\u00e3o azulinho&nbsp;&nbsp;&nbsp; azulalto de azul<\/p><p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; em azuis vestido azullua azulsol azulestrela azulgira<\/p><p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; gira que gira girando o azul<\/p><p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; rota\u00e7\u00e3o roda riso rodando sem rumo o feiti\u00e7o desta escrita<\/p><p>(Qual escrita? Afinal era esse o efeito do feiti\u00e7o na escrita?<\/p><p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Transmuta\u00e7\u00e3o?) <\/p><p>(LEITE, 2017, 20)<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Um bel\u00edssimo poema feito de alitera\u00e7\u00f5es e de repeti\u00e7\u00f5es, que adquire um ritmo febril, circular, \u201cgira que gira girando azul\u201d, alucinante, materializando no ato criativo e no ato da leitura &nbsp;\u201co efeito do feiti\u00e7o na escrita\u201d. Esse efeito se pergunta e se afirma como transmuta\u00e7\u00e3o, e transmuta\u00e7\u00e3o na magia-feiti\u00e7o \u00e9 sempre nascedouro do novo. \u00c9 quando a poeta nos coloca na travessia do portal, regi\u00e3o fronteiri\u00e7a e in\u00edcio da viagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Moatize, a origem. A viagem, est\u00e1tica: \u201cna varanda da casa percorro o universo\u201d ( Idem. p.24)<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Machado e Pageaux (2001), a viagem est\u00e1tica ou imagin\u00e1ria, fruto da mem\u00f3ria e da cria\u00e7\u00e3o, \u00e9 interroga\u00e7\u00e3o sobre o universo em geral, na medida em que prop\u00f5e um percurso inici\u00e1tico. Como tal, inicia-se na casa, que \u00e9 mais do que casa, mais do que vila, mais do que regi\u00e3o, \u00e9 pa\u00eds-universo.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Para Bachelard &#8211; &nbsp;e o conjunto de poemas sobre Moatize corrobora esta ideia &#8211; todo o espa\u00e7o verdadeiramente habitado traz a ess\u00eancia da no\u00e7\u00e3o da casa: \u201cA nuan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 uma colora\u00e7\u00e3o superficial suplementar. Portanto, \u00e9 preciso dizer ent\u00e3o como habitamos nosso espa\u00e7o vital de acordo com todas as dial\u00e9ticas da vida, como nos enraiz\u00e1mos, dia a dia, num canto do mundo\u201d. Segundo o fil\u00f3sofo, \u201ca casa \u00e9 nosso canto do mundo. Ela \u00e9, como se diz freq\u00fcentemente, nosso primeiro universo. \u00c9 um verdadeiro cosmos. Um cosmos em toda a acep\u00e7\u00e3o do termo.\u201d (BACHELARD, 2005, p.24)<\/p>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<p>Comenta Eliade (1991) que a casa est\u00e1 inscrita no corpo n\u00e3o como tra\u00e7o mn\u00eamico, mas como imagem de intimidade, como imagem que busca um centro, que instaura um centro, que cria universo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMisturo tudo nesta inf\u00e2ncia sem tr\u00e9gua\u201d&nbsp; (LEITE, 2017, 24), afirma o sujeito l\u00edrico. E ao mergulhar nesta inf\u00e2ncia infinita, mergulha na&nbsp; sua casa,\u201c primeiro mundo do ser humano\u201d (BACHELARD, 2005, p.26), mergulha na cultura mo\u00e7ambicana, nos seus mitos ancestrais, nos seus ritos, revelando a forma como deus deixou a terra e cedendo a voz \u00e0 M\u00e1scara Kapoli, \u00e0 M\u00e1scara Kampini, \u00e0 M\u00e1scara Dzwirombo, esp\u00edritos contradit\u00f3rios, \u201c descoincidentes zoom\u00f3rficos\u201d (LEITE, 2017, 30).<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;\u00c9 um dos momentos mais ricos da obra, em que superam-se todos os espa\u00e7os reais para revela\u00e7\u00e3o de mundo m\u00edtico, atemporal, circular, teluricamente mo\u00e7ambicano com os seus elementos eternos:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Somos os sem rosto<\/p><p>os ancestrais os que lembram as hienas hipop\u00f3tamos macacos trombas orelhas e cornos levantados.<\/p><p>esgares, pegadas e sussurros palavras e rugidos<\/p><p>sil\u00eancio<\/p><p>somos os misturados descoincidentes zoom\u00f3rficos<\/p><p>criaturas e criadores<\/p><p>o nosso esp\u00edrito dan\u00e7a continuamente<\/p><p>Somos aqueles que s\u00e3o secretos<\/p><p>Vivemos no bosque sagrado E n\u00e3o tememos<\/p><p>a morte nem os mortos<\/p><p>Porque somos os acompanhantes<\/p><p>Os camale\u00f5es gigantes<\/p><p>de deus<\/p><p>(LEITE, 2017, 30)<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante observar que a M\u00e1scara Nyau avan\u00e7a na viagem do sujeito l\u00edrico, quando se instaura a quest\u00e3o da identidade h\u00edbrida.<\/p>\n\n\n\n<p>Vale esclarecer que o Nyau (e suas m\u00e1scaras) \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o cultural de Mo\u00e7ambique, que tem sua origem ligada \u00e0 forma\u00e7\u00e3o do Estado Undi, por volta do s\u00e9culo XVII, quando se sup\u00f5e ter sido adotado como forma de afirma\u00e7\u00e3o do seu poder perante os povos conquistados. Da perspectiva lend\u00e1ria, pode-se dizer que as fontes orais continuam a relacionar a origem aos Undi, que, supostamente, teriam vindo do Malawi para ensinar esta dan\u00e7a aos mo\u00e7ambicanos. N\u00e3o entro aqui nas implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas hist\u00f3ricas. Interessa, neste momento, mostrar o Nyau como tradi\u00e7\u00e3o, como performance, em que os dan\u00e7arinos usam m\u00e1scaras esculpidas por artistas, que tem o dom de ver os j\u00e1 mencionados esp\u00edritos contradit\u00f3rios e sabedoria suficiente para venc\u00ea-los.<\/p>\n\n\n\n<p>O Nyau tem papel fundamental em cerim\u00f4nias importantes, nomeadamente em ritos de inicia\u00e7\u00e3o de jovens, em funerais, nos ritos de luto e entroniza\u00e7\u00e3o do chefe.<\/p>\n\n\n\n<p>Como dizia, o sujeito l\u00edrico leva consigo o Nyau, quando se debru\u00e7a sobre sua pr\u00f3pria identidade, uma identidade de matriz h\u00edbrida. E aqui, Ana Mafalda retoma, na \u00edntegra, o j\u00e1 citado poema \u201cFronteiras, de que lado pergunto-me\u201d (LEITE, 2017, 34).<\/p>\n\n\n\n<p>E, ent\u00e3o, a poeta lan\u00e7a m\u00e3o de figuras hist\u00f3ricas, personagens da terra, como Dona Francisca Josefa de Moura e Meneses ou Dona Leonarda, e mesmo Chiponda, como se a hist\u00f3ria pudesse dar concretude \u00e0 pr\u00f3pria viagem imagin\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 o momento em que Lacerda e Almeida busca mapear as minas de ouro na \u00c1frica Oriental. Observe-se que, no s\u00e9culo XVII, no Vale do Zambeze, em Mo\u00e7ambique, as mulheres adquirem o protagonismo, uma vez que s\u00e3o detentoras de extensos territ\u00f3rios, designados prazos, obtidos por concess\u00e3o da coroa ou por sucess\u00e3o.&nbsp; Essas mulheres, as donas dos prazos,&nbsp; mant\u00eam um sistema escravocrata para seu benef\u00edcio e de suas fam\u00edlias.<\/p>\n\n\n\n<p>Francisca Josefa de Moura e Meneses \u00e9 uma dessas donas, \u201csuas terras eram sem fim o&nbsp;&nbsp; rio revugu\u00e9 brilhava ao longe\u201d ( LEITE, 2017, p.39)&nbsp; e Dona Leonarda, sua sobrinha, esposa de Lacerda e Almeida. \u00c9, entretanto, essa mesma dona, Chiponda, a senhora que tudo pisa (Idem.p.45) que, ao ganhar voz, personificando a dona do prazo, como tal se apresenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o se abandonam os mitos, n\u00e3o se abandona a tradi\u00e7\u00e3o, eles se completam na cartografia proposta:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Entre o oriente e o ocidente o reino de prestes jo\u00e3o ou as minas do rei salom\u00e3o o<\/p><p>ouro, o ferro eu cobre<\/p><p>muenoputapas, zimb\u00e1bu\u00e9s, muzungos , expedi\u00e7\u00f5es,<\/p><p>demandas de lugares e mitos, lagos e lagoas interditos<\/p><p>caravanas, travessias, fronteiras entre os rios conhecidos e os ocultos<\/p><p>viajantes, bot\u00e2nicos, fil\u00f3sofos, matem\u00e1ticos, percorre as terras do interior<\/p><p>desenham mapas, declives, correntezas<\/p><p>aprimoram os instrumentos, ensaio desenhos<\/p><p>se embrenham na indistinta massa de paisagens indecifr\u00e1veis<\/p><p>com suas b\u00fassolas de prata<\/p><p>e um \u00f3culo de ver ao longe<\/p><p>espreitam observam catalogam<\/p><p>experimentam mapas e revolvem a imagina\u00e7\u00e3o [\u2026] <\/p><p>(LEITE, 2017, 41)<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<p>\u00c9, por\u00e9m, sem d\u00favida, de Lacerda e Almeida, astr\u00f4nomo e matem\u00e1tico paulista, nomeado, em 1797 Governador dos Rios de Sena (Zamb\u00e9zia), na \u00c1frica Oriental, o primado neste momento. A ele, o sujeito l\u00edrico cede a voz para que, atrav\u00e9s de fragmentos de seu di\u00e1rio, apresente as observa\u00e7\u00f5es geogr\u00e1ficas e a hist\u00f3ria \u201cesbo\u00e7o os meus mapas que descrevem os rios as pequenas povoa\u00e7\u00f5es.\u201d (Idem. p. 48)<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o fundamentais os poemas que referem a Lacerda e Almeida, \u201cO telesc\u00f3pio e a b\u00fassola do astr\u00f3nomo paulista Lacerda e Almeida\u201d, \u201cFragmento do di\u00e1rio de Lacerda e Almeida sobre Tete\u201d, \u201cAs insond\u00e1veis viagens\u201d, \u201c Os itiner\u00e1rios sem mapas\u201d, \u201c Nota biogr\u00e1fica de Lacerda e Almeida\u201d e \u201c M\u2019Bona\u201d. E n\u00e3o poderia ser diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>A chave para o entendimento do destaque dado ao viajante brasileiro \u00e9 o \u00faltimo verso de \u201cOs itiner\u00e1rios sem mapas\u201d: \u201cprocuro em v\u00e3o desenhar os itiner\u00e1rios do ouro entre o oriente e ocidente\u201c (Idem.p.49)&nbsp; ou no poema \u201c nota biogr\u00e1fica de Lacerda e Almeida\u201d: \u201cFui nomeado governador dos rios de Sena e incumbido da travessia at\u00e9 a costa ocidental africana\u201d (Idem. p.50).<\/p>\n\n\n\n<p>Explico por que a chave do entendimento. A par da hist\u00f3ria, e a hist\u00f3ria est\u00e1 l\u00e1:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>cheguei a Mo\u00e7ambique em 1797<\/p><p>j\u00e1 com larga experi\u00eancia na explora\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica do Brasil<\/p><p>nomeadamente a miss\u00e3o de demarca\u00e7\u00e3o de limites<\/p><p>da fronteira norte em 1780<\/p><p>ap\u00f3s o tratado de santo idelfonso<\/p><p>para elaborar uma rela\u00e7\u00e3o topogr\u00e1fica das minas de ouro da \u00c1frica Oriental<\/p><p>Este projeto inclui a constitui\u00e7\u00e3o de uma companhia de com\u00e9rcio do<\/p><p>Oriente<\/p><p>e retoma o formulado de 1725<\/p><p>por D. Lu\u00eds da Cunha em colabora\u00e7\u00e3o com o ge\u00f3grafo franc\u00eas Jean-Baptiste Bourguingon d\u2019Anville <\/p><p>(LEITE, 2017, p. 50)<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>a par da hist\u00f3ria, h\u00e1 uma linha de identifica\u00e7\u00e3o entre o personagem hist\u00f3rico e o sujeito l\u00edrico:&nbsp; a liga\u00e7\u00e3o do Oriente ao Ocidente. No primeiro, a viagem real, no segundo, a viagem propiciada pela \u201cpaisagem com uma janela dentro\u201d, a viagem est\u00e1tica, a da mem\u00f3ria-imagina\u00e7\u00e3o, a do anseio de desbravamento da identidade e da subjetividade de suas fronteiras, ou ainda a viagem prof\u00e9tica instaurada em \u201cVisita\u00e7\u00e3o do \u00cdndico em Marrakesh\u201d (LEITE, 2017, p.54,55), \u00faltima parte do livro.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;\u00c9 quando na poesia acontece o encontro amoroso no desencontro porque \u201centretanto eu dormia\u201c (LEITE, 2017, p.56) &#8211; poema que se completa em outro \u201c O chamamento (Azaan)\u201d ( Idem. p. 60) &#8211; \u201c Eu dormia mas meu cora\u00e7\u00e3o velava\u201d ( Idem. p.61).<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o poemas de extrema sensibilidade estes de encontro, da \u201cVisita\u00e7\u00e3o do \u00cdndico em Marrakesh\u201d (Idem. p. 54 ) at\u00e9 &nbsp;ao poema final\u201c Os caminhos do deserto\u201d ( Idem. p.73). H\u00e1 momentos de puro lirismo e poder er\u00f3tico.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; pequenos e secretos vasos de vidro<\/p><p>&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; que escorrem pelos poros da pele e a encantam que ser entrando pelos labir\u00ednticos<\/p><p>desejos do corpo e sedutoramente o enla\u00e7am por entre estas pequenas art\u00e9rias<\/p><p>da cidade amuralhada<\/p><p>cora\u00e7\u00e3o intenso e cativo fragr\u00e2ncia<\/p><p>em nossas diversas geografias em n\u00f3s dois reencontrada. (LEITE, 2017, 71)<\/p><p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;O Oriente expressa toda uma vasta concep\u00e7\u00e3o de beleza, capaz de transcender o perec\u00edvel e o comum acaso. \u00c9 no sentimento amoroso que a viagem se completa.<\/p><p>Dizes: o achamento s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel no cruzamento de acasos<\/p><p>conjurados<\/p><p>ou num c\u00e9u sem nuvens <\/p><p>(LEITE, 2017, 72)<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Desaparece qualquer possibilidade de cis\u00e3o, rompem-se as fronteiras. Agora o sujeito l\u00edrico est\u00e1 de fato \u201cem casa para sempre\u201d, pois que a geografia desenhada, ao fim e ao cabo \u00e9 a do amor, for\u00e7a unificadora do universo.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>talvez algu\u00e9m tenha ouvido a tua voz caminhando rente ao deserto<\/p><p>e rente ao mar o \u00cdndico<\/p><p>do outro lado do tempo, num outro mar e num outro continente<\/p><p>Aqui no deserto a geografia do amor \u00e9 um estranho desenho<\/p><p>que as areias e o vento as nuvens e a espuma.<\/p><p>recome\u00e7am sem cessar <\/p><p>(Idem. p.73)<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<p>Assim, se formalmente se diz que O<em>utras fronteiras fragmentos de narrativa<\/em>, oitavo livro de poemas de Ana Mafalda Leite, est\u00e1 dividido em quatro partes, ouso dizer que n\u00e3o h\u00e1 divis\u00e3o nem partes. \u00c9 um conjunto de poemas, \u00e9 uno.&nbsp; E o \u00e9 pelo simples e complexo fato de ser livro de vida, repito, onde a narrativa se faz (parafraseando Bachelard<a href=\"#_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>) pela narrativa de todas as paisagens com janelas dentro abertas, vividas, sonhadas, buscadas com liberdade, \u00e0 revelia do mundo. E vida n\u00e3o se desmembra. O presente existe porque existe o passado e o futuro existe porque n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o pequenos presentes.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1, isso sim, quatro grandes t\u00edtulos nesta obra que demarcam uma trajet\u00f3ria, mas uma trajet\u00f3ria, como j\u00e1 disse, una. Inicia no despertar que o sujeito l\u00edrico prop\u00f5e ao sujeito emp\u00edrico &#8211; e n\u00e3o o contr\u00e1rio &#8211; e, nesse despertar a busca do SER, ser maior com letras mai\u00fasculas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 quando se inicia a viagem. Na inf\u00e2ncia, onde a mem\u00f3ria rompe com o preto e branco e vai ao encontro do sagrado azul. No despertar de uma consci\u00eancia de perten\u00e7a, onde habitam Oriente e Ocidente e uma identidade h\u00edbrida. No encontro do amor, onde termina a viagem prof\u00e9tica, onde tudo precisou ser como foi para ser o que \u00e9. O encontro verdadeiro do ser que n\u00e3o se quer cindido est\u00e1 no amor &#8211; sim, o <em>amor \u00e9 fogo que arde<\/em> (LEITE, 2017, 18) como cantou Cam\u00f5es -, mas s\u00f3 o grande amor, o \u00fanico, aquele que recome\u00e7a sem cessar. \u00c9 o que faz de O<em>utras fronteiras fragmentos de narrativa <\/em>um grande livro. \u00c9 o que faz de Ana Mafalda Leite uma das melhores express\u00f5es da literatura mo\u00e7ambicana contempor\u00e2nea.<\/p>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>BACHELARD, Gaston. <em>A Po\u00e9tica do Espa\u00e7o<\/em>.&nbsp; S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2005.<\/p>\n\n\n\n<p>BERGSON, Henri. L<em>a perception du changement<\/em>. Paris: Presses Universitaires de France, 1998.<\/p>\n\n\n\n<p>ELIADE, Mircea. <em>Imagens e S\u00edmbolos<\/em>. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1991.<\/p>\n\n\n\n<p>LEITE, Ana Mafalda. <em>Outras Fronteiras <\/em>Fragmentos de narrativas. S\u00e3o Paulo: Kapulana, 2017.<\/p>\n\n\n\n<p>LEITE, Ana Mafalda. <em>Livro das Encanta\u00e7\u00f5es<\/em> Antologia (1984-2005). Maputo: Alcance Editores, 2010.<\/p>\n\n\n\n<p>LEITE, Ana Mafalda.<em> Rosas da China<\/em>. Lisboa: Quetzal Editores, 1999.<\/p>\n\n\n\n<p>LEITE, Ana Mafalda.&nbsp; A minha heran\u00e7a mo\u00e7ambicana. Dispon\u00edvel em <a href=\"http:\/\/www.jornaldepoesia.jor.br\/lcp2.html\">http:\/\/www.jornaldepoesia.jor.br\/lcp2.html<\/a>&nbsp; Acesso em 19\/02\/2018.<\/p>\n\n\n\n<p>MACHADO,&nbsp; \u00c1lvaro&nbsp; Manuel&nbsp; e &nbsp;PAGEAUX, Daniel-Henri. <em>Literatura Portuguesa <\/em><em>Literatura&nbsp; Comparada Teoria da Literatura<\/em>.&nbsp; Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es 70, 1981.<\/p>\n\n\n\n<p>MATEUS, Dalila Cabrita e MATEUS, \u00c1lvaro. <em>Nacionalistas de Mo\u00e7ambique: <\/em>Da luta armada \u00e0 independ\u00eancia<em>.&nbsp; <\/em>Alfragide: Textos Editores, 2010.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPrimeira romancista de Mo\u00e7ambique diz n\u00e3o ter liberdade para escrever como um homem.\u201d Entrevista concedida por Paulina Chiziane em 30\/10\/2016. Dispon\u00edvel em <a href=\"http:\/\/www.bbc.com\">www.bbc.com<\/a>. Acessado em 15\/02\/2018.<\/p>\n\n\n\n<p>MUCAVELE, Amosse. <em>A Arqueologia da Palavra e a Anatomia da L\u00edngua &#8211; Antologia Po\u00e9tica. <\/em>Maputo: Revista Literatas, 2013.<\/p>\n\n\n\n<p>SANT\u2019ANNA, Gl\u00f3ria de. <em>Um denso azul sil\u00eancio<\/em>. Louren\u00e7o Marques: Ed. do Autor, 1965.<\/p>\n\n\n\n<p>SANT\u2019ANNA, Jacqueline Britto. O discurso po\u00e9tico de No\u00e9mia de Souza: resist\u00eancia, poder e subalternizar antes. In: <em>kaliope, <\/em>S\u00e3o Paulo, ano 5, n\u00ba 10, ago.\/dez.,2009. p.70-79<\/p>\n\n\n\n<p>SECCO, Carmen L\u00facia Tind\u00f3. Uma p\u00e1tria chamada poesia. 2014&nbsp; Dispon\u00edvel em&nbsp; <a href=\"http:\/\/www.beck-shop.de\">www.beck-shop.de<\/a>. Acesso em 21\/02\/2018.<\/p>\n\n\n\n<p>SOUSA, No\u00e9mia. <em>Sangue Negro. <\/em>Maputo: Associa\u00e7\u00e3o dos Escritores Mo\u00e7ambicanos, 2001.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Professora Titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> A Casa dos Estudantes do Imp\u00e9rio (CEI ) foi criada em 1944 com objetivo de enquadrar estudantes oriundos das col\u00f4nias portuguesas. Na d\u00e9cada de 50, o sentimento de independ\u00eancia toma conta do imp\u00e9rio colonial portugu\u00eas, motivando muito jovens estudantes para a busca da identidade do seus territ\u00f3rios de origem. Os boletins das CEI, intitulados Mensagem, trazem a cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e artigos, eles expressam os sentimentos e anseios dos jovens estudantes, que tiveram importante papel no despertar do sentimento nacional das col\u00f4nias. No\u00e9mia de Sousa foi uma participante ativa e iniciou no boletim a publica\u00e7\u00e3o de suas poesias.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Recomendo a leitura de <em>Nacionalistas e Mo\u00e7ambicanos<\/em> : da luta armada \u00e0 independ\u00eancia, de Dalila Cabrita Mateus e \u00c1lvaro Mateus. A obra trata dos jovens resistentes: nove homens e uma mulher: No\u00e9mia de Sousa.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> No texto veiculado pela internet (v. Refer\u00eancias) Ana Mafalda Leite esclarece: &#8220;texto adaptado e actualizado da minha interven\u00e7\u00e3o no Col\u00f3quio O papel da Mulher na Cultura Mo\u00e7ambicana na segunda metade do s\u00e9culo XX, Universidade Pedag\u00f3gica\/CCP, Maputo, Junho1997 e publicado no <a href=\"http:\/\/jornaldepoesia.jor.br\">jornaldepoesia.jor.br<\/a>, com o t\u00edtulo \u201cA minha heran\u00e7a mo\u00e7ambicana\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> <strong>\u201c<\/strong>Narrar\u00edamos toda nossa vida se fiz\u00e9ssemos a narrativa de todas as portas que j\u00e1 fechamos, que abrimos, de todas as portas que gostar\u00edamos de reabrir.\u201d (Op. cit. 226)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jane Tutikian[1] Uma visada no panorama geral da poesia mo\u00e7ambicana \u00e9 o suficiente para a percep\u00e7\u00e3o de um n\u00famero reduzid\u00edssimo de mulheres.&nbsp; As raz\u00f5es s\u00e3o aquelas amplamente conhecidas e especialmente difundidas por aqueles que trabalham com as quest\u00f5es de g\u00eanero. 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