{"id":1029,"date":"2020-06-16T21:09:34","date_gmt":"2020-06-16T21:09:34","guid":{"rendered":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/?page_id=1029"},"modified":"2020-07-14T20:37:59","modified_gmt":"2020-07-14T20:37:59","slug":"se-cheguei-como-espinho-venho-coberto-de-rosas","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/se-cheguei-como-espinho-venho-coberto-de-rosas\/","title":{"rendered":"Se cheguei como espinho venho coberto de rosas"},"content":{"rendered":"\n<h4>Ana Mafalda Leite e sua deslumbrante e assustadora poesia<\/h4>\n\n\n\n<p><strong>Silviano Santiago<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p>Acaba de nos chegar de Mo\u00e7ambique, via Portugal, um assustador e deslumbrante livro de poemas. Trata-se do<em> Livro das Encanta\u00e7\u00f5es<\/em> (Lisboa: Caminho), de Ana Mafalda Leite. A poeta nasceu em Portugal, foi levada menina e mo\u00e7a para as \u00e1guas africanas do Oceano \u00cdndico, &#8221;em que uma vez mais voltou a nascer&#8221;. De l\u00e1 saiu aos 18 anos e hoje, al\u00e9m de poeta, \u00e9 ensa\u00edsta e professora de Literatura em Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p>Os poemas de Ana Mafalda Leite nos convidam a costear o continente africano pela banda oriental, a fim de desbravar o &#8221;\u00edndico interior&#8221; daquela que se cala ao ser inquirida se europ\u00e9ia ou se africana. Silencia-se diante da sali\u00eancia alheia porque h\u00e1 muito adotou como p\u00e1tria a &#8221;l\u00edngua b\u00edfida e em fogo&#8221;, esta que &#8221;acasala seres bifrontes, monstros de um hermes ap\u00e1trida&#8221;. Natural que a primeira das duas partes do <em>Livro das Encanta\u00e7\u00f5es<\/em> indague e se deleite a falar das &#8221;Genealogias&#8221;. Evidente que o primeiro poema tenha por t\u00edtulo &#8221;Naturalidade&#8221;, no sentido de local onde se nasce. J\u00e1 ali Ana Mafalda suplica ao leitor para que n\u00e3o consulte os cart\u00f3rios da vida, a fim de poder-lhe confessar: &#8221;na verdade n\u00e3o escolhi o mapa e detesto que os lugares me prendam ao ch\u00e3o&#8221;. Sua certid\u00e3o de idade po\u00e9tica reza que h\u00e1, no entanto, &#8221;uma terra e uma p\u00e1tria em que eu pouso devagar, me reconhe\u00e7o e desconhe\u00e7o, escriba acocorado enrubescendo a l\u00edngua de amorosos sabores, de vibrados ritmos&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A terra natal de Ana Mafalda \u00e9 a p\u00e1tria dos versos de amigos e conterr\u00e2neos seus, como Rui Knopfli, Lu\u00eds Carlos Patraquim, Gl\u00f3ria de Santana, Filimone Meigos, todos eles a escrever poemas &#8221;no ch\u00e3o da casa m\u00f3vel&#8221; que os atravessa em sonho. N\u00e3o se estranhe que Ana Mafalda, como est\u00e1 no poema &#8221;Tenho o nome de um barco&#8221;, complemente os dados de identidade, afirmando: &#8221;nasci entre fronteiras l\u00edquidas entre ondas inventei um ber\u00e7o&#8221;. Em desesperado ex\u00edlio, Claude L\u00e9vi-Strauss anotou no seu di\u00e1rio de viagem esta frase que faz coro aos versos de Ana Mafalda: &#8221;o barco parecia-nos morada e lar, em cuja porta o palco girat\u00f3rio do mundo tivesse instalado a cada dia um cen\u00e1rio novo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio do barco L\u00e9vi-Strauss e do barco nosso brasileiro, que apenas sulcam mediterr\u00e2neos e atl\u00e2nticos, o barco Ana Mafalda oscila pendularmente entre o Atl\u00e2ntico e o \u00cdndico. Por isso, reconhece: &#8221;lua nova sou\/ quando s\u00f3 lua cheia&#8221;. Ou: &#8221;por este espelho me olho e vejo do outro lado&#8221;. Ou ainda: &#8221;por mim que espera todas as noites de luar\/ um imbondeiro alto na outra margem do mundo&#8221;. A &#8221;fronteira l\u00edquida de dois mares&#8221; faz com que o sujeito hiberne &#8221;neste azul vivo que corta como o gelo num dia de sol&#8221;. Nessa l\u00edngua b\u00edfida e em fogo \u00e9 que foi escrito um dos mais belos poemas da l\u00edngua portuguesa: &#8221;Ma\u00e7anicas berlindes amargam devagarinho na boca&#8221;. As saudosas ma\u00e7anicas da inf\u00e2ncia amargam no ontem\/hoje\/amanh\u00e3 e a poeta deixa que &#8221;brinquem sabores&#8221;, enquanto olha &#8221;a noite mansa que se ajoelha \/ a seus p\u00e9s&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa l\u00edngua pendular, onde a experi\u00eancia e a mem\u00f3ria, atrav\u00e9s dos cinco sentidos, performam toda a diversidade num s\u00f3 ato, &#8221;cose-se a dobra do tempo em costura&#8221; e, pelo milagre da poesia, &#8221;frente e verso coincidem&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao transpor a primeira parte do livro, parei por um instante assustado e deslumbrado com a poesia de Ana Mafalda. Assustava-me a mais absoluta falta da paisagem urbana. Assustava-me porque me acostumei, nos acostumamos a viver em megal\u00f3poles enraizadas em cimento armado, tijolos, telhas, cores artificiais, autom\u00f3veis, avi\u00f5es&#8230; O<em> Livro das Encanta\u00e7\u00f5es<\/em> me assusta e, pelo avesso do cotidiano nosso carioca, me encanta. Num mundo que \u00e9 balas perdidas, estilha\u00e7o e viol\u00eancia, palavras que falam do amor e da completude do ser agigantam-se e tomam conta da segunda parte do livro. Falam do amor que \u00e9, como diz Octavio Paz, &#8221;morte e alegria, solid\u00e3o e comunh\u00e3o&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>O livro passa a ganhar sustan\u00e7a no terreno alagadi\u00e7o da fala l\u00edrica embriagada pelo vinho oriental, terreno personificado pela palavra po\u00e9tica t\u00e3o bailarina quanto um pi\u00e3o nas m\u00e3os de crian\u00e7a ou uma dan\u00e7arina de dan\u00e7a do ventre no sal\u00e3o mundano. Nesse terreno, o corpo l\u00edrico, tamb\u00e9m embriagado e dan\u00e7arino, recebe e acolhe as encanta\u00e7\u00f5es que caem, abre-se a elas, metamorfoseia-se nas multif\u00e1rias formas, cores, sons, que a natureza &#8211; o cosmos &#8211; nos prodiga desde que abrimos os olhos, nocauteados pela fei\u00fara da a\u00e7\u00e3o do homem sobre a natureza. Ao ler o <em>Livro das Encanta\u00e7\u00f5es<\/em> somos fascinados pela beleza natural, que nos rodeia envolvente, aveludada e alvissareira, fabricada de encanto e mist\u00e9rio. L\u00ea-se o id\u00edlio em &#8221;Esta\u00e7\u00e3o das chuvas&#8221;: &#8221;entrego-me aos bra\u00e7os das \u00e1rvores descubro o rosto das \/ buganv\u00edlias entrela\u00e7ado em m\u00e3os de amarelos girass\u00f3is \/ lan\u00e7ados pela varanda ao vento&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>No <em>Livro das Encanta\u00e7\u00f5es<\/em>, nada distingue o corpo agreste\/silvestre\/c\u00f3smico feminino da natureza que nos v\u00ea a todos nascer, alimentar, enxergar, tocar, amadurecer, embebedar, amar, crescer e, um dia, morrer. Leiamos: &#8221;Meto-me pelo rio o corpo flutuante \/ ancas cingidas de trepadeiras e flores de fogo \/ uma chuva cintilante no entardecer perfumo a sombra \/ tateio muros frios quem sabe sou j\u00e1 apenas lenda&#8221;. Continuemos: &#8221;em \u00eaxtase bebe-me a \u00e1gua viva sedenta que bebo&#8221;. Encontremos: &#8221;como pode o amor girar em tanta alegria \/ ora lento ora intenso sem distinguir a noite do dia? \/ o compasso dos olhos \u00e9 o compasso das estrelas&#8221;. E mais: &#8221;culpas a beleza que te d\u00f3i \/ n\u00e3o sabes que a beleza \u00e9 tirania? \/ o desejo dela eternidade?&#8221; Chegamos: &#8221;deixai-me dan\u00e7ar assim em torno de mim sem parar&#8221;, &#8221;roda que roda \/ sempre a girar&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>No poema &#8221;Do outro lado, a sul Tr\u00f3pico de Capric\u00f3rnio&#8221; revela-se uma faceta que at\u00e9 agora tinha ficado \u00e0 sombra: &#8221;dizes-me ent\u00e3o que te apaixonaste por uma jovem \/ mu\u00e7ulmana que dan\u00e7a a dan\u00e7a do ventre e s\u00fabitos saris \/ esvoa\u00e7am entre n\u00f3s&#8221;. Sob o sortil\u00e9gio da dan\u00e7a, a amada pede ao amado para ser &#8221;a voz que dan\u00e7a nesse ventre que abra\u00e7a o teu olhar maravilhado&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A por assim dizer genealogia po\u00e9tica de Ana Mafalda traz os seus emaranhados jogos pendulares, que tra\u00e7amos pobre e esquematicamente, e tem ainda o seu norte na tradi\u00e7\u00e3o l\u00edrica de Lu\u00eds de Cam\u00f5es e da mexicana Sor Juan de la Cruz, de que s\u00e3o exemplo estes versos: &#8221;Oh chama de amor viva \/ vivo sem viver em mim e tanto espero ao viver \/ que morro por n\u00e3o morrer&#8221;. E tem finalmente o seu sul no Oceano \u00cdndico real ou lend\u00e1rio, com os poemas de amor de Ibn Hazm (&#8221;O colar da pomba&#8221;), as odes ao vinho de Ibn F\u00e2rid, a l\u00edrica religiosa e m\u00edstica de Khalil Gibran, os gazais de H\u00e2fez Shir\u00e1zi e as &#8221;quadras&#8221; de Omar Khayam, popularizadas no Ocidente por Edward Fitzgerald e traduzidas entre n\u00f3s por Ot\u00e1vio Tarqu\u00ednio de Souza. Infelizmente os \u00faltimos poetas citados s\u00e3o pouco conhecidos de n\u00f3s brasileiros, raz\u00e3o maior para se dedicar \u00e0 leitura dos poemas de Ana Mafalda Leite.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao enxergar o pendular e caleidosc\u00f3pico entrela\u00e7amento de tradi\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas t\u00e3o diversas e fumegantes, v\u00ea-se o que constitui o forte do trabalho po\u00e9tico de Ana Mafalda Leite e de outros poetas mo\u00e7ambicanos. A mescla candente e original, b\u00edfida do ponto de vista da l\u00edngua, leva a poeta a desenhar de forma not\u00e1vel os contornos da sua arte po\u00e9tica: &#8221;uma palavra feita de fogo na minha boca\/ nos meus l\u00e1bios invento a chama\/ uma palavra tem de beijar a outra\/ acend\u00ea-la em m\u00e1gico inc\u00eandio&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos poemas de amor, mais salientes na segunda parte do livro, a mescla de tradi\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas se aninha no entrela\u00e7amento dos corpos feminino e masculino e com eles se casa. No espanto e na embriaguez, se metamorfoseiam um no outro. Ambos os corpos num \u00fanico: &#8221;sou eu que fala ou ele por mim?&#8221;. Ou tornam-se insepar\u00e1veis, como que presos ao c\u00edrculo de fogo do amor: &#8221;a amada \u00e9 um c\u00edrculo que n\u00e3o est\u00e1 em parte alguma \/ a circunfer\u00eancia est\u00e1 em toda a parte&#8221;. Dispersa em p\u00e9talas, a amada escuta as palavras do amado: &#8221;minha amada a dor tem a sua beleza pois se cheguei como \/ espinho venho coberto de rosas&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Mafalda Leite e sua deslumbrante e assustadora poesia Silviano Santiago Acaba de nos chegar de Mo\u00e7ambique, via Portugal, um assustador e deslumbrante livro de poemas. Trata-se do Livro das Encanta\u00e7\u00f5es (Lisboa: Caminho), de Ana Mafalda Leite. A poeta nasceu em Portugal, foi levada menina e mo\u00e7a para as \u00e1guas africanas do Oceano \u00cdndico, &#8221;em [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1029"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1029"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1029\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1144,"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1029\/revisions\/1144"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1029"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}