{"id":1011,"date":"2020-06-16T16:00:40","date_gmt":"2020-06-16T16:00:40","guid":{"rendered":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/?page_id=1011"},"modified":"2020-06-16T21:41:35","modified_gmt":"2020-06-16T21:41:35","slug":"a-minha-heranca-mocambicana","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/a-minha-heranca-mocambicana\/","title":{"rendered":"A minha heran\u00e7a mo\u00e7ambicana*"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Por Ana Mafalda Leite<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p>Venho reflectindo j\u00e1 h\u00e1 alguns anos sobre heran\u00e7as. N\u00e3o materiais, mas culturais. As reconhec\u00edveis, as irreconhecidas, as irreconhec\u00edveis. Atrav\u00e9s da literatura e da vida, os trilhos cruzando-se, vou encontrando, pelas diferen\u00e7as, quantas vezes tamb\u00e9m, as mais pr\u00f3ximas identidades. Falarei de correspond\u00eancias, ou da necess\u00e1ria aten\u00e7\u00e3o para nelas procurar um entran\u00e7ado fio umbilical de muitas m\u00e3es. Tradi\u00e7\u00e3o e reconstru\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria, longo o caminho, onde os olhos para distinguirem se fazem plenos de aparente cegueira. Perdoem, mas o paradoxal \u00e9 a exacta poli\u00e9drica geometria onde possivelmente cabe esta tradi\u00e7\u00e3o e heran\u00e7a de que quero falar. E falar atrav\u00e9s dela, de mim pr\u00f3pria, atrav\u00e9s de v\u00f3s e de n\u00f3s, dos que est\u00e3o para vir, potenciados j\u00e1 no nosso rumo. Porque tradi\u00e7\u00e3o se faz pelo presente do passado, o mais acalentado sonho a vir. Tamb\u00e9m sou poeta, \u00e9 verdade; percorro o pa\u00eds dos outros para chegar ao pa\u00eds de mim. E pela poesia tamb\u00e9m cheguei ao ensaio, \u00e0 leitura cr\u00edtica e relacional.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma casa primordial, um lugar, onde cheguei em estado ainda de pura lact\u00eancia. \u00c9 no norte, perto de Tete. Moatize. Cheguei ignorante de pensamentos e palavras no fim da d\u00e9cada de cinquenta. O meu &#8220;poema da Inf\u00e2ncia Distante&#8221; para roubar um t\u00edtulo \u00e0 No\u00e9mia, s\u00e3o os grandes espa\u00e7os de uma terra escura do min\u00e9rio, t\u00f3rrida na sua bebedeira de sol zumbindo os dias, os grandes sil\u00eancios de noites povoadas de hist\u00f3rias de animais, de sons alteados. Na minha inf\u00e3ncia e adolesc\u00eancia o conv\u00edvio com a natureza e os animais foi muito pr\u00f3ximo. Reconhe\u00e7o, ainda hoje, que esses primeiros anos desenharam em mim uma sociabilidade muito particular, reconhecida pelo sorriso atento, que esconde o movimento de fuga com que se prepara a cassanha ou o inhacoso para nos surpreender, enquanto nos olha com os seus olhos doces e meigos. Nessa margem do tempo, em que a casa resplende e a inf\u00e2ncia se vai cerzindo de sons e imagens , alguns versos meus referem essa rarefeita capta\u00e7\u00e3o : &#8220;guardam na imensid\u00e3o do olhar\/ a plan\u00edcie o deserto\/ um raso fluir de som de sombra\/ cerce \u00e0 terra um rumor \/ de vozes ou de passos longe\/Desaparecem no instante\/ preciso em que os adivinhamos\/ r\u00e1pidos silenciosos serenos\/ altivos mas muito mansos\/ os anjos os olhos brancos\/ entranhando-se nos muros\/ nas \u00e1rvores no espa\u00e7o\/ lembram a infinita do\u00e7ura\/ de certos animais selvagens\/ l\u00e2mpadas noite adiante\/ l\u00e2mpadas sem luz&#8221; (Em Sombra Acesa).<\/p>\n\n\n\n<p>Mais tarde, a vinda para o sul, para Louren\u00e7o Marques, dois anos antes de ser Maputo. A cidade fervilhando de surpresa. Descubro Verlaine, Baudelaire, Rimbaud. Fa\u00e7o algumas das primeiras leituras de poesia contempor\u00e2nea de l\u00edngua portuguesa, quem, o que encontrava? Herberto H\u00e9lder, Gl\u00f3ria de Sant&#8217;Anna, Sophia de Mello Breyner, Fernando Pessoa, M\u00e1rio de S\u00e1-Carneiro. Modernismo e surrealismo (Breton, Eluard&#8230;) digeridos em salada nos belos cadernos com desenhos e poemas, que a minha querida amiga e colega Am\u00e9lia Russo de S\u00e1 recitava com a convic\u00e7\u00e3o das verdades mais evidentes e solares.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 beira \u00edndico, pressent\u00edamos, no entanto, com outras leituras menos po\u00e9ticas a mudan\u00e7a dos tempos. Em 1974, leitura de Jos\u00e9 Craveirinha, acabado de editar, dezassete anos, poemas de Rui Knopfli, primeiro ano na Universidade Eduardo Mondlane. Uma professora, rec\u00e9m chegada de Fran\u00e7a, Maria de Lourdes Cortez, a desvendar-nos de repente o mundo. Semi\u00f3tica, psican\u00e1lise, an\u00e1lise textual, leituras em catadupa, Freud, Roland Barthes, Julia Kristeva e tantos outros a servirem um corpus, em que poesia de Craveirinha e Grabato Dias ofereciam seus pr\u00e9stimos volum\u00e9tricos. Colegas, amigos, uns nas aulas, outros cruzando-se no nosso caminho, Manuela Sousa Lobo, In\u00eas Machungo, Louren\u00e7o do Ros\u00e1rio, Am\u00e9lia Russo de S\u00e1, Maria de Santa Cruz, S\u00e3o Morena &#8230;.<\/p>\n\n\n\n<p>Acho que a minha incipiente articula\u00e7\u00e3o da escrita po\u00e9tica com a ensa\u00edstica come\u00e7ou nessa altura. Um outro professor, diferente, Eug\u00e9nio Lisboa, vertiginoso contador de est\u00f3rias, abriu-nos os caminhos da fic\u00e7\u00e3o comparada moderna e alvora\u00e7ava-nos para os gigantes da literatura universal. Caleidosc\u00f3pio tentacular e s\u00e1bio, de Homero a Malraux ou Montherland, passando por Scott Fitzgerald, n\u00e3o esquecendo Cervantes. \u00c9 nesta altura que se faz a publica\u00e7\u00e3o de um dos primeiros livros de reflex\u00e3o sobre literatura mo\u00e7ambicana sobre a poesia de Rui Knopfli, Grabato Dias e Jos\u00e9 Craveirinha. E no meio deste eclodir de consci\u00eancias cr\u00edticas para o liter\u00e1rio, a bandeira a erguer-se em 25 de Junho. Dezoito anos. Come\u00e7ava a despertar em mim a consci\u00eancia da na\u00e7\u00e3o e com ela uma literatura, a literatura mo\u00e7ambicana.<\/p>\n\n\n\n<p>Parto para Lisboa em 1976, para finalizar o curso de Filologia Rom\u00e2nica, iniciado na Universidade Eduardo Mondlane. Tenho um convite para iniciar uma carreira universit\u00e1ria, mal acabo. Come\u00e7a a configurar-se intensamente o desejo de aprofundar o estudo da literatura mo\u00e7ambicana. Fa\u00e7o as primeiras leituras da poesia de No\u00e9mia de Sousa, via M\u00e1rio de Andrade. Foi fundamental este momento de conhecimento com a escrita de uma mulher que antecipa e inscreve nos textos o despertar da consci\u00eancia nacionalista. Leio em simult\u00e2neo Reinaldo Ferreira, Alberto de Lacerda. \u00c9 ainda o in\u00edcio das leituras de literatura angolana e caboverdiana e de um contacto mais pr\u00f3ximo com a literatura brasileira e portuguesa actual. Muito cinema, algumas viagens, amigos artistas, pintores e poetas. Eu, procurando no sonho e na arte sentidos para a vida. Deslocando-me entre m\u00faltiplos espa\u00e7os, terra longe, terra desdobrando-se dentro de mim:&#8221;torna-se teu corpo muro antiqu\u00edssimo\/ mem\u00f3ria ou voz das tardes prolongadas\/ mosaico de gestos mineralizados\/ asa do olhar acesa e atenta\/ lago tranquilo rosto debru\u00e7ado\/ sobre si sobre a \u00e1gua do rosto\/ enrugado um transparente quartzo\/ um quarto de s\u00e9culo depois\/ um s\u00e9culo quase&#8221; (Em Sombra Acesa)<\/p>\n\n\n\n<p>P\u00f3s gradua\u00e7\u00e3o dois anos depois em literaturas brasileira e africanas de l\u00edngua portuguesa; in\u00edcio da pesquisa para a tese sobre Jos\u00e9 Craveirinha. Nessa altura recome\u00e7o a leitura de No\u00e9mia de Sousa. Reflex\u00e3o sobre a r\u00edtmica oral, a emo\u00e7\u00e3o sentida e vibrada da autora que nos diz:&#8221;aqui tens o meu poema, irm\u00e3o.\/ Meu poema insuficiente e ba\u00e7o,\/ palavras,sangue,emo\u00e7\u00e3o, grito que se soltou do fundo das veias\/ e ficou pairando feito estandarte\/ &#8211; meu poema fogueira de negros solit\u00e1rios\/ acesa \u00e1 beira da mata em noites de frio e escurid\u00e3o, \/meu poema alma mulata massada em dor e revolta,\/ marcada a ferro e fogo desde subterr\u00e2neos desconhecidos\/ meu poema fraterno, torturado,\/ ai meu poema solit\u00e1rio, insuficiente e ba\u00e7o,\/ aqui o tens, irm\u00e3o.\/ E ele \u00e9 todo para ti&#8230;.&#8221;.Compreens\u00e3o de que o di\u00e1logo quase confessional de certos poemas de No\u00e9mia, constitu\u00eda elemento fulcral para a organiza\u00e7\u00e3o de uma po\u00e9tica veiculadora de outras formas textuais; oscila\u00e7\u00e3o entre teatralidade e musicalidade, vibra\u00e7\u00e3o encantat\u00f3ria da voz corporizada e sensualizada, presen\u00e7a da oralidade em diferentes cambiantes. Chego por ela \u00e0 poesia de Jos\u00e9 Craveirinha, que come\u00e7a a ecoar os trajectos anteriores, tamb\u00e9m os de Rui de Noronha.<\/p>\n\n\n\n<p>Regresso a Mo\u00e7ambique em 1980 para pesquisa. Contacto mais ass\u00edduo com o poeta Jos\u00e9 Craveirinha. Conhecimento lento, quase quotidiano. Conversas, atmosferas, novos amigos , entre outros contactos significativos de trabalho e de amizade com Ant\u00f3nio Sopa,\u00a0<strong>Lu\u00eds Carlos Patraquim<\/strong>, Sebasti\u00e3o Alba, F\u00e1tima Ribeiro, Perp\u00e9tua Gon\u00e7alves, F\u00e1tima Mendon\u00e7a. Reencontros alguns, novos afectos. Aten\u00e7\u00e3o especial \u00e0 poesia de\u00a0<strong>Lu\u00eds Carlos Patraquim<\/strong>\u00a0que inicia um novo percurso e uma nova gera\u00e7\u00e3o, ainda no refluir de uma po\u00e9tica panflet\u00e1ria da \u00e9poca, recuperando as dic\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas anteriores e harmonizando Gl\u00f3ria de Santana com No\u00e9mia de Sousa, estruturando os novos sentidos numa sintaxe craveir\u00ednhica, reinventando a obsessiva ironia knopfliana. Refazendo trilhos aparentemente diversos e divergentes, Mon\u00e7\u00e3o recupera o que est\u00e1 para vir na met\u00e1fora do mar, Inadi\u00e1vel Viagem, Os Barcos Elementares.<\/p>\n\n\n\n<p>Certamente que Camilo Pessanha, com seus v\u00edtreos e l\u00edquidos orientalismos, ao impregnar a poesia de Gl\u00f3ria de Sant&#8217;Anna, n\u00e3o sonharia reviver-se translucidado na escrita de Os Barcos Elementares. Leia-se Recado de Gl\u00f3ria:&#8221; Se eu morrer longe\/ sepulta-me no mar\/ dentro das algas ignorantes\/ e l\u00facidas.\/ Cobre o meu rosto de palavras\/ antigas\/ e de m\u00fasica.\/ Deixa em meus dedos a mem\u00f3ria mais recente de outras coisas in\u00fameras\/ e nos meus cabelos\/ o incerto movimento\/ do vento e da chuva.\/ Eu vogarei sob as estrelas\/ com p\u00e1lidas luzes entre os c\u00edlios\/ e pequenos caramujos\/ entrar\u00e3o nos meus ouvidos.\/ estarei assim id\u00eantica a todos os motivos&#8221; (Amaranto). Met\u00e1foras da viagem e da dist\u00e2ncia da poesia nascida entre dois mundos, que o mar une, desune, miragem, dist\u00e2ncia, momento de tens\u00e3o e do existir, coexistindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Permito-me reflectir sobre a poesia que n\u00e3o diz referencialmente Mo\u00e7ambique; ser\u00e1 porventura menos mo\u00e7ambicana? A problem\u00e1tica \u00e9 outra. A nomea\u00e7\u00e3o de mundos imagin\u00e1rios, m\u00edticos, aparentemente irreais, s\u00f3 o \u00e9 at\u00e9 certo ponto; o mundo imagin\u00e1rio s\u00f3 existe mediante a rela\u00e7\u00e3o com a realidade vivida, embora tudo isso possa ser transfigurado, dilu\u00eddo:&#8221;Serei t\u00e3o secreta\/ como tecido da \u00e1gua\/ e t\u00e3o leve\/ e t\u00e3o atrav\u00e9s de mim deixando passar\/ toda a paisagem\/e todo o alheio pecado\/ do gesto, da presen\u00e7a ou da palavra\/ que logo que a tua m\u00e3o me prenda\/ me n\u00e3o achar\u00e1s:\/ serei de \u00e1gua&#8221; (Gl\u00f3ria de Sant&#8217;Anna, Amaranto).<\/p>\n\n\n\n<p>Mas de que falava eu? De viagem, de regresso. Em 1984 publico o meu primeiro livro de poesia, Em Sombra Acesa e acabo a minha tese sobre Jos\u00e9 Craveirinha. Onde se tocam estes dois mundos? Que divergem como a noite do dia, ou que comungam duas posturas aparentemente inconcili\u00e1veis? Como estar t\u00e3o pr\u00f3ximo, e permitam-me a falta de humildade, de algumas das quest\u00f5es fulcrais colocadas pelo poeta mo\u00e7ambicano, e evadir-me num trans-espa\u00e7o a\u00e9reo e fluido, onde o ch\u00e3o falta e a escrita reflecte sobre si pr\u00f3pria, procurando-se? Como responder, sen\u00e3o questionando?<\/p>\n\n\n\n<p>Quem escreve em mim, quem analisa em mim, \u00e9 o produto de duas culturas que teve, durante a viv\u00eancia colonial e sua transi\u00e7\u00e3o, na terra onde cresceu, se formou e fez uma parte significativa dos seus estudos. Quem assim cresceu nessa mistura \u00e9 herdeiro dela. Queira ou n\u00e3o queira, aparta-se por um lado, integra-se por outro. E mais, \u00e9 um herdeiro bifronte como Hermes. Viver\u00e1, nessa viagem de escriba acocorado, com um p\u00e9 fincado no ch\u00e3o, uma asa a voar, um remo navegando, um imagin\u00e1rio ex\u00edlio, dentro da terra encontrado. Leia-se um poema meu de Can\u00e7\u00f5es de Alba, Segunda fala do marinheiro:&#8221;por vezes parece-me sonho o estar aqui agora e depois n\u00e3o estar\/ n\u00e3o h\u00e1 s\u00edtio no mundo em que se permane\u00e7a em que se situe o centro\/ a vida \u00e9 l\u00edquida flui rapidamente vai em direc\u00e7\u00e3o ao enigma\/ estranho princ\u00edpio o n\u00e3o voltar estranha vontade o n\u00e3o saber\/ nunca soube onde o mar prioncipia por vezes sei dos rumos\/ por vezes perdem-se ao acaso em mim tal como nasci\/ um dia morrerei mas o mar ser\u00e1 ainda movimento&#8230;&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Entre 1986 e 88 muita pesquisa e estudo. Em Dakar, conhe\u00e7o outra \u00c1frica, e lecciono e fa\u00e7o investiga\u00e7\u00e3o durante algum tempo na Universidade Cheik Anta Diop. Mais tarde, em Londres, o contacto com o universo africano angl\u00f3fono na School of African and Oriental Studies. Muita aprendizagem. Da vida tamb\u00e9m e da poesia. Em 1989 defendo tese de doutoramento com uma reflex\u00e3o teor\u00e9tica sobre a recupera\u00e7\u00e3o de g\u00e9nero \u00e9pico nas literaturas africanas de l\u00edngua portuguesa e o corpus abrange a literatura angolana, caboverdiana e tamb\u00e9m a mo\u00e7ambicana. Em 1990 volto a Mo\u00e7ambique. Dou aulas de literatura mo\u00e7ambicana no ent\u00e3o Instituto Superior Pedag\u00f3gico durante dois meses. Fa\u00e7o quest\u00e3o, nessa altura, de fazer na AEMO o lan\u00e7amento do meu livro de poemas, Can\u00e7\u00f5es de Alba. Acto simb\u00f3lico e ritual de cumplicidade. Reencontro ent\u00e3o novos autores, alguns deles encontrados no ano anterior em Lisboa, no primeiro congresso de escritores de l\u00edngua portuguesa, Ungulani Ba Ka Khosa, Suleimane Cassamo, Pedro Chissano, Armando Artur, Eduardo White, Mia Couto. Os afectos, as correspond\u00eancias simp\u00e1ticas. A aten\u00e7\u00e3o e amorabilidade dos alunos. La\u00e7os, ternos la\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>Coube-me e cabe-me o privil\u00e9gio de poder acompanhar essa ent\u00e3o nova gera\u00e7\u00e3o em processo, e ser consciente da rela\u00e7\u00e3o com o fazer po\u00e9tico, a isso tamb\u00e9m me obriga a aten\u00e7\u00e3o do analista, assim como a minha aten\u00e7\u00e3o de leitora para com a poesia e fic\u00e7\u00e3o produzida nos \u00faltimos anos, no universo de l\u00edngua portuguesa, e a que a profiss\u00e3o me obrigou a espraiar cada vez mais &#8211; Angola, Cabo Verde, al\u00e9m de Mo\u00e7ambique &#8211; e a que, por outro lado, enquanto poeta me obrigo por di\u00e1logo de escritas com muitas outras produzidas em diferentes cantos do mundo e do tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>O poeta \u00e9 leitor atento; nesta reflex\u00e3o estou consciente de que a minha topografia po\u00e9tica \u00e9 encenada, porque as heran\u00e7as s\u00e3o m\u00faltiplas e a polifonia instaura uma rela\u00e7\u00e3o de procura, desajuste e ajustamento. Nessa medida serei, perdoem-me o termo, tamb\u00e9m p\u00f3s-moderna, dou vozes a v\u00e1rias vozes, repartindo os dois espa\u00e7os de raiz pela navega\u00e7\u00e3o entre duas tradi\u00e7\u00f5es, atenta em simult\u00e2neo ao fazer e desfazer das refer\u00eancias. Por isso se explica, por exemplo, a minha participa\u00e7\u00e3o num livro como Mariscando Luas em 1992: o azul sub\u00farbio dos versos de&nbsp;<strong>Patraquim<\/strong>, veste-se tamb\u00e9m com noivas, minhas, que s\u00e3o azuis e brancos do pintor Chichorro. Altern\u00e2ncia crom\u00e1tica, instaura\u00e7\u00e3o dos contrastes comungando, porque coexistindo:&#8221;s\u00e3o noivas s\u00e3o bruxas?\/ bizarros vestidos as levam\/ de branco poisadas no esquecimento\/ lembram dos tules os voos altos\/ da noite son\u00e2mbula por muitas luas enfeiti\u00e7ada\/ por encanto quebranto as rogo conjuro\/ neste branco len\u00e7o de seda as visto\/ de cetim as dispo\/ e ponho redes de \u00e1gatas p\u00farpura\/ obsidianas abs\u00edntios jaspe jasmim\/ l\u00e1pis l\u00e1zuli escorrendo-lhes o corpo\/ as pernas os seios o ventre\/ transparentes ainda esvoa\u00e7am mas brilham intensas\/ com seus atavios de inteira sedu\u00e7\u00e3o\/ se alimentam noivas todas as noites as bruxas\/ as belas bocas de lua nova (&#8230;)&#8221; (Mariscando Luas, p.69).Andarei longe perto do poema noiva de Orlando Mendes (Adeus de Gutucumbi) e das luas enfeiti\u00e7adas da No\u00e9mia de Sousa, ou da cosm\u00e9tica lua craveir\u00ednhica; a provoca\u00e7\u00e3o \u00e9 o enredo, quer queiram, quer n\u00e3o, v\u00e3o ter-me neste sigilo declarado de pequenas cumplicidades. Saiba ler quem escreve, porque quem escreve em mim \u00e9 esta dupla heran\u00e7a, vossa e a deles. S\u00f3 assim sou minha. Eu, conjugada dualidade, me conjugo, n\u00e3o confesso, antes, professo.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, nesta mais nova gera\u00e7\u00e3o, a que me irmano tamb\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio afirmar nada, a n\u00e3o ser a pr\u00f3pria poesia. Leia-se Eduardo White: &#8220;N\u00e3o faz mal \/ Voar \u00e9 uma d\u00e1diva da poesia.\/ Um verso arde na brancura a\u00e9ra do papel,\/ toma balan\u00e7o\/ n\u00e3o resiste. \/ Solta-se-lhe\/ o animal alado.\/ Voa sobre as casas,\/ sobre as ruas,\/ sobre os homens que passam,\/ procura um p\u00e1ssaro\/ para acasalar.\/ S\u00edlaba a s\u00edlaba\/ o verso voa.\/ E se o procurarmos? Que n\u00e3o se desespere, pois nunca o iremos encontrar. Algum sentimento o ter\u00e1 deixado pousar, partido com ele.\/ Estar\u00e1 o verso connosco? Provavelmente apenas a parte que nos coube.\/ Aquietemo-nos. amainemos esse desejo de o prendermos\/ N\u00e3o \u00e9 justo um p\u00e1ssaro onde ele n\u00e3o pode voar.&#8221; in Poemas da Ci\u00eancia de Voar e da Engenharia de Ser Ave, p.22). As novas gera\u00e7\u00f5es da poesia de l\u00edngua portuguesa, e a isso n\u00e3o escapa a poesia mo\u00e7ambicana, revelam um experimentalismo e liberdade tem\u00e1tica maiores; os trilhos podem desdobrar-se infinitamente. Diz Armando Artur: &#8220;A poesia obedece a este axioma: &#8216;a palavra e o tempo andam\/ de m\u00e3os dadas'&#8221;( Espelho dos Dias, p.30).<\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos anos, tenho vindo regularmente a Mo\u00e7ambique, ali\u00e1s, sempre que posso. O meu pen\u00faltimo livro de poesia, chama-se Rosas da China. As minhas rosas, que n\u00e3o s\u00e3o micaias, s\u00e3o m\u00edticas e eternas. Trouxe-as comigo e lancei-as em Maputo em 1999. Haver\u00e1 ironia maior nesta provoca\u00e7\u00e3o topogr\u00e1fica? Desconstruir, desenquadrar, nem Lisboa, nem Maputo, nem Luanda. Indochina? Conchinchina? Rosas da China. Orientes por dentro. V\u00eam de longe. Est\u00e3o perto. Aqui:&#8221;Quero ser o aroma inteiro enlouquecendo este cair do dia em que as rosas da china\/ volteiam rubras e rosadas os l\u00e1bios da terra\/ escurecendo o horizonte \u00e1gua espectral espalhando-se em brasa at\u00e9 ao infinito mar..&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>E o que neste vaiv\u00e9m dos \u00faltimos anos me acompanhou em escrita? Esse oriente sem lugar que se desvela num livro em que o imagin\u00e1rio da Ilha de Mo\u00e7ambique perpassa em diferentes horizontes&#8230;ilhas de afectos em livre tr\u00e2nsito&#8230;. Passaporte do Cora\u00e7\u00e3o. Entretanto tenho, muito devagarosamente, em m\u00e3os um romance e um livro de ensaios sobre literatura mo\u00e7ambicana.<br><br><br><strong>Ana Mafalda Leite<br><br>*texto adaptado e actualizado da minha interven\u00e7\u00e3o no Col\u00f3quio O papel da Mulher na Cultura Mo\u00e7ambicana na segunda metade do seculoXX, Universidade Pedag\u00f3gica\/CCP, Maputo, Junho1997.<\/strong> <\/p>\n\n\n\n<p>Publicado no <a href=\"http:\/\/www.jornaldepoesia.jor.br\/lcp2.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Jornal de Poesia<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ana Mafalda Leite Venho reflectindo j\u00e1 h\u00e1 alguns anos sobre heran\u00e7as. N\u00e3o materiais, mas culturais. As reconhec\u00edveis, as irreconhecidas, as irreconhec\u00edveis. Atrav\u00e9s da literatura e da vida, os trilhos cruzando-se, vou encontrando, pelas diferen\u00e7as, quantas vezes tamb\u00e9m, as mais pr\u00f3ximas identidades. Falarei de correspond\u00eancias, ou da necess\u00e1ria aten\u00e7\u00e3o para nelas procurar um entran\u00e7ado fio [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1011"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1011"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1011\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1044,"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1011\/revisions\/1044"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cesa.rc.iseg.ulisboa.pt\/anamafaldaleite\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1011"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}